sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Quando conheci o gelo



Na base do chutódromo, oito em dez habitantes do planeta só conhecem a Islândia porque ali nasceu Björk.

A moça tem um quê de adolescente oriental, uma pitada de Jodie Foster americana em Taxi driver, um tanto de Alien, oitavo passageiro, prenhe e disposta a tudo para defender as crias.

Sendo assim, a Islândia parece ter sido criada com um único objetivo: fazer nascer ali a criança. Que já vem à luz mulher. Que nem aquela outra, nascida da cabeça do pai e vindo a termo com uma machadada na moleira divina, coberta de sargaços e espumas.

Rainer Maria esperaria anos para ver em carne, osso e voz sua sentença terrível sobre os anjos.

Björk esperou alguns discos para se tornar cada vez menos. Como um diamante lapidado, retirado da pedra bruta toda e qualquer impureza, reduzindo o excesso ao essencial. Como um bloco de mármore nas mãos de Miguel Ângelo. Uma tempestade que vem do mar e engole a terra.

Björk é aquele filhote satânico que todo mundo pensa que viu no berço de Rosemary e que Polanski nunca filmou.

No primeiro álbum, a menina era um iceberg iniciando seu degelo. Em Vespertine restou uma pedrinha, misturada a outras e varridas pelos pés numa estranha sonoridade plena de som e fúria. Em Medulla o inconcebível transborda.

Retomando Polanski, música para ninar demônios.

Um Aleph musical. Cego, como a mãe solteira de Dançando no escuro. Como Borges, no labirinto da Biblioteca Nacional, ouvindo ruídos atemporais no ventre da baleia – Sim, o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos de todos os ângulos.

Chamai-me Björk, poderia ter dito a moça, antes de embarcar no Pequod do Capitão Ahab. Antes do leviathão. Björk, esculpida da mesma matéria do arpão de Queequeg, e profundamente íntima do coração das baleias.

Os dias confortavelmente frios, claros, ressonantes, perfumados e redundantes, eram como taças de cristal cheias de sherbet persa, coberto de flocos de neve e água de rosa. E viu Melville que era bom.

E faltando costelas de homens na ilha, a criaram do manto de um homem que jogava xadrez – o esporte mais violento que existe, segundo Karpov – na companhia de um certo Antonius Block, não muito longe dali.

- É desde muito que caminho ao teu lado.

A carroça está parada sobre um abismo, protegida pelas sombras de uma grande árvore. Uma ampla vista se estende sobre as colinas, os bosques, a vasta planície e o mar que cintila sob os restos de sol. E viu Bergman que era bom.

Björk ouviu Block perguntar: Por que não posso matar Deus em mim mesmo? E respondeu. Debut, 1993, Post, 1995, Homogenic, 1997, Vespertine, 2001. Medulla, 2001. Como Borges, visitando a casa da rua Garay e aproveitando o gesto cortês e irrepreensível (ele acrescenta ainda um iniludível) para percorrer os olhos nos muitos retratos de Beatriz Viterbo.

Em 93: recém-desperta, os cabelos assanhados, as mãos postas em oração, surpresa ou entrega, pérolas lacrimejando os olhos escuros. Um suéter espinhento agasalhando a manhã invernal.

Em 95: dressed to kill babies, verde-oliva nos olhos, camisa de colegial imaculada, maquiage, inchiostro colorido indelével, uma algazarra de nações, mundos admiráveis, Oh, it is so quiet.

Em 97: nipônica como uma gueixa de Guerra nas Estrelas, o pescoço anelado ecoando uma África glacial, os olhos falsos apertados, a boca de matrona de cabaré, o penteado a la Mickey, The Mouse. As unhas postiças. Tudo tão cheio de amor e minas humanas.

Em 01: p&b mediterrânico, transe ensolarado, entrega e proteção, uma Leda arrebatada por um cisne encantado, fecundado black lies and dark currents. Os lábios brilhando, ecoando dentes sutis, narinas abertas, pálpebras em R.E.M. As mãos contorcidas tecendo e desfazendo tapetes, recusando amantes, adiando o retorno à ilha.

Em 01: as mãos na cabeça num espanto surdo, no gesto de mascarar, personificar cada vez mais o abismo, revelar os seios nus, prontos a amamentar os filhos pagãos e os répteis de alma vivente; os cabelos desfiados; a boca entreaberta. O colorido pálido e barroco.

Your love was sent to me. I am not sure what to do with it. You show me continents. – I see islands. I am a tree that grows hearts (my love). One for each that you take. How can I ignore? This is sex without touching. Violently happy.

Uma moça estranha. A única com coragem suficiente para grafar cumings em maiúsculas: E. E. Como dois cubinhos de açúcar.

Nunca ouviu muito rock. Nunca ouviu muito punk. Se ouvia algo era Brian Eno. Se houvesse um guitarrista ele seria Robert Fripp. Não esperem que a adolescente ouvisse Kraftwerk – ela prefere citar o DAF, banda alemã, de Berlim pré-muro, rive gauche no mapa de antanho. Era o que ela ouvia lá pelos 14, 15 anos, quando ainda era um nome impronunciável, Gudmundsdottir, indisposta em escolher entre as pedras pretas e as brancas, entre a disco e o rock, entre o mal e o bem. De uma ilha a outra, encontra em Londres outros imigrantes como ela: Tricky, Talvin Singh, Goldie. A nova geração de londrinos, nascida entre os escombros do Império que desconhecia crepúsculos. Eles não eram ingleses, eles não eram indianos ou jamaicanos, eles não eram nada, conta Björk em entrevista reproduzida no Livebox, 2003.

(O português da Ilha da Madeira) Luís Jardim tocou com ela em Debut. Eumir Deodato fez os arranjos para as cordas de Hyper-ballad e You’ve Been Flerting Again, de Post, e está em um modo bem mais intenso em Homogenic. Björk se refere, em entrevista a uma revista italiana, a um disco de Milton Nascimento arranjado por Deodato, safra 1967, como memorável, onde sente continuamente a tensão entre os dois artistas, o popular Milton, decididamente brasileiro e vindo das ruas, e o clássico Deodato, vindo do conservatório e das escolas européias. Associa essa tensão às próprias raízes: Na Islândia vivemos essa dualidade muito forte entre natureza e tecnologia. Os espaços abertos e uma natureza não totalmente sob controle, e uma sociedade evoluída tecnologicamente como poucas outras no Ocidente.

O disco a que se refere é provavelmente Travessia, arranjado, na verdade, por Luiz Eça – Deodato faria apenas os arranjos originais da música-título e de Morro Velho. Milton chegou ao Rio para o Festival Internacional da Canção e, segundo ele mesmo, foi adotado por Deodato, que só fez o arranjo das músicas sob a condição de Milton cantá-las. No dia seguinte partiu para os Estados Unidos.

Não sei se Björk entendeu o título do disco, nesse xadrez pleno de travessias: Deodato que vai para a América, Milton que vai ao Rio, os pais jamaicanos de Tricky e Goldie que vão para a Inglaterra, para aonde também migram as raízes de Singh. E ela mesma, pulando da Islândia, de uma ilha à outra. Países continentais, Índia, Brasil, ilhas no topo do mundo musical, Jamaica, Inglaterra, Islândia. You show me continents. – I see islands, lembram-se?

Minha casa não é minha nem é meu este lugar. No encontro entre o preto Milton e o branco Eumir, Björk reconhece a mistura explosiva dela mesma com os cidadãos de segunda classe, para quem as novas sonoridades musicais funcionam como um passaporte, mais que social, de sua própria identidade. Posso ser apenas uma garota que cresceu em Reykjavik e orgulhar-me disso? – pergunta sem esperar uma resposta. Excuse me. But I just have to explode. Explode this body off me.

Todo esse Maelström racial tampouco soa novo: a citada DAF, acrônimo para Deutsch Amerikanische Freudschaft, ou amizade germano-americana, formada um ano após os Robots do Kraftwerk, tinha entre seus pares um certo Gabi Lopez Delgado, que vinha da primeira banda punk alemã, o Mittags Pause. Isso na virada 70-80.

É por isso que muita gente define a música de Björk como do outro planeta. Dizem o mesmo de Tricky. Diziam. E do Sigur Rós, provavelmente o produto islandês que mais se aproxima – mas bem longe – do fenômeno Björk, de quem é uma espécie de lado b, ou, por que não? o equivalente do CD para a fita k-7 original (embora Björk, convenhamos, noves fora os Sugarcubes, pariu-se em pleno auge do Compact Disc – e é isso que nos fascina: parecer bem mais antiga do que realmente é).

O planeta distante da islandesa é aqui mesmo, em outra latitude, mais embaixo, um terceiro mundo, não na acepção original do termo, mas como uma terceira via: Não viemos de onde estão nossas raízes, não viemos de onde vivemos, nosso mundo é um terceiro, uma mistura daqueles dois. A menina provinciana que parte para conquistar a grande cidade esperou dois discos para se autoproduzir. Debut foi produzido em parte por Nellee Hooper, que vinha de um trabalho com o Soul II Soul. Enquanto preparavam Post, Hooper perdeu o interesse e Björk encontrou em Tricky, Graham Massey e Howie B. alguém para misturar o caldeirão. É a partir de Homogenic que assume realmente a artista que já era, e, não acaso, quando decide conscientemente retornar às raízes islandesas, embora paradoxalmente as busque na Espanha.

É possível que venha daí o bolero eletrônico que é Hunter, orquestrada é dirigida por Deodato? Lembra Virginia Woolf descrevendo a memória ancestral do cocker spaniel de Elizabeth Barrett Browning: Ouvia homens morenos gritando ‘Span! Span!’ Ouvia chicotes estalando. Corria, disparava.

If travel is searching and home has been found I am not stopping I am going hunting. A grande metrópole já não lhe basta, e é por essa época que Björk entende que não existem mais fronteiras entre a natureza e a cidade e os limites devem ser abolidos. Solto a voz nas estradas, já não quero parar, meu caminho é de pedra, como posso sonhar.

Não é acaso que os islandeses amem tanto a literatura sul-americana, muito mais que aquela européia ou americana, finaliza aquele seu discurso sobre a dualidade tipicamente islandesa. É provável que tenha lido García Márquez e seus Hundrað ára einsemd, a tradução para Cien Años de Soledad. E como muitos se encantado com o primeiro capítulo: Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. É a descrição exata da sensação de ouvir Björk pela primeira vez, de como se meteu na memória do Coronel, então um garoto em Macondo, a chegada anual dos ciganos, sempre nos marços, com um grande alvoroço de apitos e tambores, pífaros e guizos, dando a conhecer os novos inventos – bolas de vidro para dor de cabeça; o imã, a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia; o óculo de alcance e a lupa, as últimas descobertas dos judeus de Amsterdam; a dentadura, a mais fabulosa descoberta dos nasciancenos; e, a última e assombrosa descoberta dos sábios de Mênfis, que, segundo consta, tinha pertencido ao Rei Salomão: o menino entra com o pai e o irmão na tenda cigana, onde havia um gigante de torso peludo e cabeça raspada, com um anel de cobre no nariz e uma pesada corrente de ferro no tornozelo, vigiando um cofre de pirata. Ao ser destampado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaçava em estrelas de cores a claridade do crepúsculo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcadio Buendía atreveu-se a murmurar:

- É o maior diamante do mundo.

- Não – corrigiu o cigano. – É gelo.

E sempre que alguém dá com os ouvidos na música de Björk, a sensação é a mesma de Aureliano Buendía aproximando a mão da pedra e retirando-a no ato:

- Está fervendo!

7 comentários:

Carito disse...

Augusto Lula vai chamar meu comentário de nepotismo? Rs... O fato, meu irmão, é que a cada dia você se supera, e rapidamente o que é sempre já era. Ao mesmo tempo que fica, feito amor de pica. Texto fantástico, excelente... Talvez seja melhor eu pedir emprestado a Sheyla Azevedo algumas de suas "não-palavras" para que eu possa expressar o que sinto. E Guaraci bem que podia fazer uma instalação quente a la Bjork para se chocar contra esse bloco de gelo do poder público parafolclórico local... Ah! Se eles pudesse escutar (e entender)outras possibilidades ciganas: "Não viemos de onde estão nossas raízes, não viemos de onde vivemos, nosso mundo é um terceiro, uma mistura daqueles dois"...

Anônimo disse...

Caro Mário,
Depois do almoço desta sexta me foi servida uma sobremesa de nome estranho, gudmundsdottir, simplificado para Björk, de sabor refinado, como todos os pratos vindo de um certo chef, midc.
Não saberia dizer qual a sua cozinha, a princípio parecia nórdica, mas logo me dei conta do engano, pois identifiquei cheiros de muitas terras e alguns mares. Sabe uma rede de arrasto, daquelas que ainda impregnam as narinas dos meninos de Pirangi, que levam tudo, do fundo ao espelho d’água, do futuro ao passado?
Nela, pois, cabe do Capitão Ahab - afinal abraçado ao cachalote enfurecido -, o cocker spaniel de W. Woolf, o Aleph de Borges, Alien o 8° passageiro, Táxi Driver, até a nostalgia de Milton Nascimento de Morro Velho e Travessia (ainda hoje – confesso - não me livrei dessa sonoridade, dos metais de morro velho da voz de Milton, que já foi a mais bela dentre todas, mas que certamente me acompanharia à ilha deserta).
O que mais chama atenção talvez não seja os pratos em si, mas a mistura deles. O diálogo entre sabores, o alguidar de manga e leite, a verve e a ironia, ‘o arpão e o coração da baleia’, a conversa com todos e qualquer um, a ausência de fronteiras como em Björk, a intertextualidade, os mundos-sobre-mundos...
Tal as vozes de Macondo, viajando da ‘ciénega’ até aqueles ouvidos incrédulos para dizer à islandesa que, um dia, alguém, o Coronel Aureliano Buendia – antes do rosário de derrotas – tinha sido levado pelo pai para descobrir a pólvora: o gelo.
‘Mundo vasto mundo’.
Diga a Carito que, nesse caso, as opiniões supostamente nepotísticas são bem-vindas, por verdadeiras.
Grande abraço, Napoleão de Paiva

midc disse...

apesar do anônimo encabeçando o texto-comentário não foi preciso ir além da terceira linha (de arrebentação da maré) p sentir q o texto era de napoleão... recado dado, me vem de pegar carona em carito: a prosa de napoleão paira pólvora noir - inconfundível, como os melhores aromas-vinhos.

midc disse...

ainda: coincidência, estava p postar uma poesia de napoleão, um dos dois de alexandria a quem admiro (falta mais um par, p compor o quarteto), mas a coincidência de gudmund...etc em terra brasilis... enfim, não é desculpa, apenas registro.

Moacy Cirne disse...

Talvez seja prematuro afirmá-lo, mas se trata, desde já, de um texto antológico. Dos melhores. E olha que não sou propriamente um conhecedor da obra de Björk. Na verdade, confesso, ela só me chamou a atenção a partir de Von Trier. Enfim... Um abraço.

midc disse...

pois, moacy, me permita fazer uma recomendação pessoal, p conhecer um pouco da obra da artista: o dvd "greatest hits" 93-03, 21 vídeos, alguns realmente antológicos e q, além da música, são poemas visuais absurdamente belos.

Rodrigo Levino disse...

depois de ler um texto desses, o cabra fica com duas opções: ou pede arrego e nunca mais escreve nada na vida, ou cola ele na parede e lhe dá o nome de manual, guia, coisa assim.

isso é um ensaio lítero-musical de primeríssima grandeza.