sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
BILHETES DE VERÃO

Não espero milagres. Apenas que o vento pare. E, parando, cesse o cisco no olho. Argueiro que faz chorar.
*
Tão cheinha você estava em seu biquíni amarelo-ouro (as irmãs Fendi sorrindo por trás do balcão) que as curvas azuis da piscina nele se enrolaram. Amanhã dispenso esse emprego de salva-vidas.
*
A lua banhava as ondas com um dourado barroco de quintais adormecidos. Sem nuvens, mesmo assim não aparecia. Estaria escondida por trás das telhas da cumeeira ou no palato de tua boca quente?
*
Eu pensei tantas coisas. Na saliva mergulhada em teu sexo. No indicador em minha boca. Nas palavras despejadas em teu ouvidinho miúdo, os brincos brincando de sino dos ventos em meus dentes.
*
No sonho, seis ou sete redemoinhos marinhos faziam evoluções no mar gigante. A vida era solar. O arranha-céu quase embicava dentro do oceano. E, não, aquele filho não era nosso.
*
No sonho, relembrado às oito, esquecido ao meio-dia, o pátio exalava um odor verde-molhado. Deixamos aberta a torneira, respingando no vaso de hortelã. Para que os ladrões não soubessem que subimos ao quarto.
*
Encontrei o velho professor na padaria. Os cabelos ainda brancos, o bigode sempre aparado. Impossível duvidar sua felicidade.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Quando fui cavalo
Os cavalos andam enquanto cagam. Não são todos os animais que conseguem andar e cagar ao mesmo tempo. É um excelente negócio, sem desperdício de tempo. A bosta dos cavalos confunde-se com suas pegadas. O casco dos cavalos deixa uma marca profunda e cuneiforme na areia. A bosta dos cavalos não tem a mesma forma, mas há certa semelhança poética entre elas, bosta e pegada. Siga o rastro de um cavalo na areia – como quem entra num yellow cab em Manhattan e diz, altaneiro: “siga aquele carro!” – e você encontrará, cedo ou tarde, bostas de cavalo esparsas. Os cabritos e as cabras, talvez, consigam cagar enquanto andam. As vacas, não. As vacas podem também cagar enquanto pascem, aquela lentidão de passos, o úbere pendente, o rabo a espanar moscas, o pescoço sempre inclinado, o olhar bovino de quem pasta. Mas o mais normal é que caguem paradas. A bosta da vaca é um emplastro pastoso e quase único, desaba de uma só vez e deixa uma marca inconfundível no pasto. A bosta do cavalo, não – é expelida em prestações. E já sai seca. A bosta da vaca precisa que o sol lhe seque, mas só a crosta. Por dentro a bosta da vaca continua mole. A bosta das cabras – dos cabritos, dos bodes – é bem menor que a bosta dos cavalos e das vacas. São bolotas. Bolotinhas. Negras como carvão. A bosta das vacas pode ter várias cores, nuances. A bosta dos cavalos – e dos cabritos, cabras e bodes – é sempre negra. Preta. Retinta. Desconfio que a bosta deles não tem cheiro. Enquanto a da vaca, sim. Cagar enquanto anda é um excelente negócio. Os animais que param para evacuar são ridículos. Pense no homem: se agacha, furtivo. Não sabe cagar enquanto anda. O cão é ainda mais ridículo, adquire uma pose estranha, se dobra sobre si mesmo, arrasta o ânus no chão. Os cavalos não perdem a pose quando cagam – podem cavalgar, saltar obstáculos, ou simplesmente acrescentar um passo depois do outro, enquanto expelem seu cocô bem torneado. A bosta dos cavalos é discreta e não tem cheiro. Não provocam asco, não assemelham à sujeira. O rabo dos cavalos é elegante e farto, diferente do rabo esquálido das vacas, diferente do rabinho minúsculo das cabras, diferente do rabo polishop dos cães servis. Um cavalo só tem medo no olhar, mas duvido que o manifeste enquanto caga. Observe o rastro dos cascos do cavalo na areia da praia. Aqui ele parou, ali ele seguiu em frente e apertou o passo, mais aculá ele refugou. Entre uma estação e outra ele cagou: bostas compactas como umas mangas enegrecidas. Pequenas e ainda verdes, de duras. Me aponte um rabo de cavalo sujo de merda e eu direi: “És um homem afortunado, um entre milhão”. Já o rabo pobre das vacas está sempre sujo de merda. E as moscas lhes volteam o lombo. A bosta do cavalo ignora as moscas. O que é um grande negócio ser indiferente às moscas. Os cavalos, quando morrem, podem apresentar o abdômen inchado. E pútrido e fétido. Mas estão mortos e não são mais cavalos. Um cavalo morto não é um cavalo. Pois os cavalos se caracterizam pela capacidade quase única de cagarem enquanto andam. As cabras, os bodes, especialmente os cabritos, são risonhos e felizes. Têm um quê de desenho animado. A vaca é novela das sete. Os cavalos são épicos – no cinema: Cecil B. de Mille. Na literatura: Homero. Ou Dante. Há cavalos na Divina Comédia? Essa é uma pergunta que um cavalo nunca fará, mas a resposta seguramente será dada por um homem, aquele que se agacha enquanto evacua, que não consegue cagar enquanto caminha. Na música: Bach. Os cavalos exigem órgãos sonoros em igrejas dolentes. Os cavalos merecem sepulcros em catedrais. Os cavalos podem ser góticos. Os cavalos têm reinos – um homem, aquele que caga agachado, pronunciou: “Meu reino por um cavalo”. Não sei se lhe deram cavalo ou reino. Os cavalos, quando dados, cedidos, emprestados, não têm os dentes analisados. Quando o negócio envolve moeda de troca, vinténs, ouro, incenso ou mirra, o negócio é outro. O cavalo vale mais que uma boa esposa. O cavalo se deixa selar, mas se não gostar do bicho em seu lombo, corcoveia e o põe ao chão. Os cavalos não têm ilusões. Ao contrário das vacas, estas por si alucinógenas. A bosta das vacas é uma droga mui desejada por alguns daqueles que cagam parados. Você nunca verá um cavalo passeando de banana bolt.
Disso tudo eu sei e dou fé porque já fui um cavalo.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
pater nostrum
Invés.
Apóio-me na armação escura de seus óculos na tensão enérgica de seu braço no abraço quente do seu peito em chamas cálidas. Reencontro-o no fim do corredor, na soleira do seu quarto, aos pés da extensão do telefone vermelho, os pés plantados em chinelos macios, as mãos cruzadas diante dos joelhos, as costas curvas e toda atenção que um pai é capaz de dedicar ao filho. Reencontro-o entre os tijolos da construção, que ergueu, como a mim contra o céu azul, pedra fundamental das memórias vivas e em sonho sonhadas. Reencontro-o na alegria interna de automóveis pueris – um Fusca azul, uma Variant prata, uma Brasília branca, um Fiat 147 bege. Revejo-o sobre a areia molhada, solitário, os braços abertos abraçando nuvens. Procuro-o na palavra que conforta, no sorriso que revigora, no olhar tangerino de perspectivas, à cabeceira da mesa, oração, alimento, desjejum, busco-o na sua eterna presença.
Sou feliz.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Explicação
O fato, crianças, é que estou sem inspiração alguma. Nem posso falar de tesão, pois que não falta. Carece, não. De pílulas imaginárias para ereções reais. Mas faltam palavras, dormidas, amanhecidas, sonâmbulas, docinhas, amargas, azedinhas, gordurosas, nicotinadas, faltam palavras que se arrumem em versos ou reversos, meias-nove e outras posições esdrúxulas no kama sutra literário. Falta, falta faz. O tal vazio. Vácuo. Despressurização. Escrever é uma aporrinhação, creiam-me. Espécie quando se tenta tirar leite de pedra, as mãos esfoladas, os dedos carcomidos, as unhas de dar pena. Sem cinzel. Sem martelo para a estocada final: – Parla! Dizem: ausência de útero. Dizem: saudade do peito materno. Dizem: nostalgia das horas. O que não dizem é como alinhar uma palavra após a outra, alinhavar o pano de fundo do cotidiano tentando edulcorar o banal. Tudo muito alinhado, pois. E alinhavado. Muito mais elegante, ele disse, o homem com uma dor. Empedernido, empertigado. Perdido no espaço, sem tábua de salvação, sem ventre de baleia onde tirar um cochilo. Sem índios canibais de quem correr na praia, à sombra dos coqueirais. Resta esse passar de uma calçada à outra, cruzar a rua para evitar o conhecido – que de desconhecenças granjeamos mais, bem mais, muito mais que essa vida dupla, quádrupla, sêxtupla, progressivamente geométrica, incapaz de régua e compasso cardíaco. Da vida que arrastamos sem pesar seu custo na balança, sem prantear mortos e feridos, morte e feridas que deixamos covardemente pra trás. Trezentos, trezentos e cincoenta, o outro disse. São como vozes de fantasmas, essas vozes, anelzinhos de uma corrente infinita. Perder a língua? Estar extasiado? Ele, mais outro, perguntou. E eu fiquei sem saber a resposta, envolvido que estava entre uma coxa e outra coxa, o triangulozinho glabro no meio, buscando com afinco e dedicação minha tábua, minha nave, a corda onde pendurar esse sonho partido, esse corpo dividido em cabeça, tronco, e membros, tudo muito desconjuntado, mesmo após ter sido, pois, alinhavado e alinhado. E, num tropel galáctico, fugiam-se de mim as palavras, como gazelas diante da fera de olhos luminosos, diante do arco de uma Diana caçadora, Acteão em retirada diante dos próprios cães. Entre um sonho e outro, o despertar tardio e fugaz, o virar-se na cama e encontrar um corpo e a sombra d’outro. Tábua, bóia, ventre da mãe-baleia. E, na queda, não encontrar palavra viva onde fincar as unhas, restar dependurado, entre a língua e o êxtase. Eu disse, eu falei, eu me confessei, aqui, neste confessionário sem padres sem freiras sem cilício sem báculo cajado ou bornal. Só o suceder-se de lamuriazinhas, de fezinhas, de alegrias comezinhas. Ah, ser crente e tão descrente. Estar à beira, sem queda ou salvação. Vendo as palavras, umas, em queda gravitacional; outras, no arrastar-se pesado pela areia fina da praia, exílio onde portamos nossas bagagens, a maré alta castigando baús e malas de couro, mochilas de viandantes e nécessaires plásticas. Ah, ser pobre e tão desprovido de glórias. Buscando fôlego onde fôlego não há. O pulmão tão contrito como um devoto ajoelhado sobre o milho em chamas. Perdida a língua, danificada a engrenagem mecânica do êxtase, sobra a dedicação de uma carta: então, prezada senhora, nós que nunca nos encontramos, até quando prolongaremos o desencanto? Então, cara, caríssima, tão improvável é a nossa convivência carnal que afastamos todos os móveis para o canto mais escuro da sala, deixando-a livre para o bailar das feras? Pois, dama, tão inútil atracar o barco ao madeirame escuro do cais se mostrou que fomos separados em camadas distintas de oxigenação, em alas distantes do mesmo sanatório, nossos lençóis maquiados de fluidos, sangue esperma lágrimas suor encontrando-se, ao fim, ao término, no final, na lavanderia subterrânea onde sepultaram-se as palavras, todas elas e mais os sinônimos os antônimos as divagações e explicações.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
rainsummer
Discover Manic Street Preachers!
Nessas tardes molhadas de agosto
Sinto a chuva lavando minha alma
Sinto o frio entrando pelos ossos
Como uma coisa um troço
Não sei explicar
Nessas tardes molhadas de agosto
Sinto a chuva lavando minha alma
Sinto o frio entrando pelos ossos
Como uma coisa um troço
Não sei explicar
Lavei as mágoas nos pingos da chuva
E aquela velha dúvida de te encontrar
Tô molhado como um passarinho
Perdi o ninho já nem sei voar
Eu tô molhado
Pingando chovendo
Chovendo pingando
Pingando tão só
Tô molhado
Chovendo doendo
Doendo sangrando
Sangrando de fazer dó
Tô chuviscando estou chovendo
Estou sofrendo de fazer dó
Chuviscando estou chovendo
Estou sofrendo tô causando dó
Mês de agosto é mês de chuva
Mês de agosto lava a alma
Mês de agosto é mês de chuva
Mês de agosto é mês de chuva
Mês de agosto lava a alma
A mágoa a mágoa
Alceu Valença
sábado, 17 de janeiro de 2009
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
domingo, 11 de janeiro de 2009
Solstício

Lá.
De onde vim.
Assustado, cabelos desgrenhados, sujeira debaixo das unhas, odor de lixo nas roupas.
Lá. Onde?
Lá.
Do outro lado da praia, de onde vem o vento, soprando areia, criando e desencontrando dunas.
Quando perceberam minha presença se assustaram. A mocinha de cabelo Chanel, a primeira. Olho mau. Parece que a vi, resmungando, blasfemando, agourando, enquanto se afastava por trás dos outros, espanando com os pés a areia alva e fina.
Vi quando um acendeu um cigarro. A brasa inchando, como o peito de um sapo. Ou de alguém doente, quem sabe moribundo.
Vi quando a garrafa – já pela metade – passou de mão em mão, se demorando no colo do que portava um violão de doze cordas.
Meus lábios, então, em carne viva, meus dedos marcados pelo fogo.
Sei que viram meus olhos. E a piedade que tremelicava ali, fundo do poço. Quase clemência. Perdão de quê?
Tentei falar, mas só consegui emitir grunhidos. Até eu fiquei assustado ao me ouvir.
A areia espanada pelos pés da moça de Chanel.
Tocou com a ponta dos dedos, as unhas bem-feitas e pintadas de um esmalte rosado, uma correntinha de ouro. Nosso Senhor Crucificado na ponta, pingente.
A garrafa deu mais uma rodada.
O cigarro foi apagado. Uma esteira de fumaça partiu do rapaz que parecia liderar o bando. Bem apessoado, jaqueta jeans, boné virado pra trás.
Quem é você – ouvi a pergunta. Que provocou um alerta súbito dos demais, todos tensos, mas mais fortes e seguros pelo comando implícito do chefe.
A moça de Chanel deu de costas.
Meus joelhos tocaram o chão, minhas mãos pediram água. Tão cansado estava. À minha direita estourou uma onda, levantando uma nuvem fina de sal.
Os rapazes se aproximaram. As moças ficaram pra trás, um bando de gazelas assustadas. Em torno dela.
Daonde você apareceu – nova pergunta. Desta vez num tom raivoso, entre dentes.
Os sotaques eram fortes, arrastados. A miséria absoluta. A garrafa já vazia.
Um deles me empurrou, senti a areia fina de encontro ao peito, o outro apoiou o joelho ossudo contra minhas costelas, um terceiro quebrou a garrafa numa pedra próxima, enfiou o gargalho na altura dos rins.
Ela só olhava.
Por cima do ombro.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Chucho
Discover Chucho Valdes!
Pra ouvir
fim de tarde
uísque e gelo
ao lado
Ou
vinho e balde de gelo
sempre ao lado
de alguém, claro
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Cartola
Evite meu amor








