quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Alpendre



É uma das palavras mais bonitas da língua.

Nem vou ao Houaiss: conspurcar o que sinto, em imagens que cruzam os anos como uma nave de velas estendidas, com o que o dicionário disseca, em corte cirúrgico preciso – mas estéril, seco, impreciso.

Deve de ter seguramente raiz árabe, como tudo que inicia com “AL” – alambique, alcachofra, alcaçuz.

E é bom iludir-me que uma mínima parte de nós tem a ver com deserto, com escorpiões, camelos, oásis, tâmaras. E com mulheres de olhos negros e mãos tatuadas, tatuando na nossa pele a mágica do amor.

Mal não há, sonhar que algo em nós lutou em Alcácer-Quibi.

E, como num mapa de estrelas unidas em linhas imaginárias, nos une, liga, alinha e enlinha, a um oriente ao oriente do oriente. E que passa pelas terras áridas de Espanha, areias quentes de Portugal. E que atravessa o Atlântico no movimento elísio dos barcos, e dispara mais uma vez rumo ao coração das trevas d’África.

E eu, que de alpendres carrego comigo, na bagagem torta dos anos, apenas aqueles à beira-mar, posso sonhar com os alpendres-irmãos, no sertão, nos Sertões. Parede-meia com o infinito.

Atravessa em mim o passo curto das reses, o chocalho alquebrado badalando horas e séculos – e pancada do mar, engolindo e regurgitando a si mesmo, o oceano que ilude-se céu, mar de sargaços, mar de estrelas, astrolábios, bússolas, latadas, redes de pescar.

Foi num desses alpendres que minha mãe embalou seus filhos, xô, xô, pavão, sai de cima do telhado – e eu, antes de conhecer o cordel e Ednardo, já pressentia os mysterios da ave e do paraíso.

Foi num alpendre que meu pai apontou o horizonte pra nós, seus filhos, no abraço seguro de quem ama e protege, indicando na mão, balé ondulante, o horizonte ignoto: ondas volumosas, tortuosas, tenebrosas... Mal sabia eu que o horizonte distante era o futuro, e que no dia que chegássemos lá já não mais contaríamos com a força do seu braço, escudo das dores do mundo.

Inverteram-se os papéis, o alpendre restou vazio. É hora de espantar os pavões dos telhados, momento de acalmar as ondas.

2 comentários:

Moacy Cirne disse...

Concordo com você; alpendre é uma bela palavras, e que nos leva a sonhos verbais incríveis. Por exemplo: alpendrômeda. Qual o seu significado? Ainda não sei; acabo de sonhá-la. Sim, o alpendre, no sertão, abre espaços para horizontes inimagináveis. Um abraço.

Carito disse...

Meu comentário... o que eu ia comentar aqui... virou texto lá no blog poelétrico... tinha que ser!