quarta-feira, 30 de abril de 2008

terça-feira, 29 de abril de 2008

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Caetano e as melancias [250408]



Incrível. No duplo sentido da palavra, enquanto substantivo e adjetivo, um pouco menos como interjeição, já que esta ganha normalmente ares de pura e simples exclamação quase abstrata, quase banal.

Incrível, por que inacreditável, por que fantástico, extraordinário, extravagante, ridículo: leio num portal de notícias uma pequena manchete acompanhada de foto e tudo – “Depois do jantar, Caetano passa no mercado”. Clico em cima, a foto se alarga, vê-se o entorno do músico, em primeiro plano um caixa vazio de supermercado, mais adiante uma gôndola baixa com frutas – laranjas, laranjas, maçãs, vermelhas e verdes, e outras que não identifico –, e por trás dela um Caetano alheio ao fotógrafo, digo, paparazzi, rosto tranqüilo, de flâneur urbano, de flâneur de supermercado. Falta só o vento, a praia, o calçadão para compor com seus versos: “Caminhando contra o vento, sem lenço sem documento...” Invés, ou quase isso, a didascália informa: “Tranqüilo, Caetano caminha perto das melancias”.

Sim, pois, tinha me esquecido, por sobre a gôndola, quatro ou cinco fatias de suculenta melancia exibiam seu verde-vermelho – e pareciam emoldurar o passo, que imagino gingado e malandro, de Caetano.

Mas, voltemos a legenda, não sem antes rever a manchete – “Depois do jantar, Caetano passa no mercado”. Manchete. “Tranqüilo, Caetano caminha perto das melancias”. Legenda. Apesar de incrivelmente besta, a primeira é superada, em muito, pela segunda. Se não há notícia alguma no fato de um dos mais famosos músicos do Brazil jantar e depois ir ao supermercado (a menos que ele tenha matado Paula Lavigne durante a ceia), menos ainda há na sua passagem fugaz, ladeando exuberantes melancias, ou abóboras ou mexericas ou melões-de-são-caetano que sejam.

No entanto, está lá. Na página do UOL (slogan “o melhor conteúdo da internet”), sob a categoria “Celebridades”.

Ou seja, tudo aquilo que nos ensinaram no supermercado do saber que é a universidade (e na quitanda que é a faculdade de jornalismo), está furado, errado, torto e equivocado. Não é mais necessário que o carteiro morda o cão – tá de bom tamanho que entregue a correspondência, de preferência a uma celebridade qualquer da vez e da hora, do quarto de hora que são os famosos 15 minutos de Warhol. E ao cachorro nem precisa o esforço de ladrar ou morder: basta que submeta-se ao flash do fotógrafo, barriguinha pra cima no colo da dona ou do dono, que aproveita pra exibir o último sofá combinando com o quadro decorativo na parede nas páginas multicoloridas das revistas.

Mas, desculpem-me: não me sai da cabeça a legenda. Preciso repeti-la aqui, uma e mais outras vezes, para digeri-la melhor, para entender como caminha a humanidade. “Tranqüilo, Caetano caminha perto das melancias”.

“Tranqüilo, Caetano caminha perto das melancias”.

“Tranqüilo, Caetano caminha perto das melancias”.

Pronto, descobri! A humanidade caminha perto das melancias.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Inner City Blues



Cidade dos Reis, ontem à noite antes da tempestade de hoje

Manhattan Transfer



Cidade dos Reis, ontem à noite antes das chuvas torrentes de hoje

domingo, 20 de abril de 2008

O abismo de todos nós


Não é exagero citar o velho chavão do abismo social no caso da menina Isabella Nardoni. A mídia, e quem comumente dela faz uso, tem maior respeito pela dita “classe média” – outro chavão que ainda resiste – em detrimento daquelas “inferiores”, C, D, ou Z.

Basta ver os programas que pululam nas nossas TVs locais e em todas TVs locais Brasil afora: a câmera não pede licença para – tal como um dedo índice acusatório – escancarar o rosto do meliante para o telespectador em casa. Como não pede licença para passear no corpo seminu do bandido – reparem: a cena é quase sempre a mesma, um indivíduo pardo, a barba e bigode mal-feitos, o cabelo desgrenhado ou rapado zero, o calção puído e gasto de tanto lavar, e as chinelas de dedo, igualmente gastas, consumidas, desbotadas.

Se é do sexo feminino, a marginal é violentamente explorada pelas lentes para exibir as mesmas estereotipias: a cor parda, o cabelo basto e desarrumado, o corpo apertado num collant de cores vivas. Entre o collant e o shortinho curto, uma barriga proeminente: as mulheres das classes mais baixas (abaixo da “média”) têm o corpo desfigurado e maltratado e muito de gordura localizada. É um estereótipo que as câmeras fazem questão de delimitar, como fronteira social entre os incluídos – nós, que compramos jornais e temos TV a cabo – e eles, os excluídos – carne de canhão para notícias de um mundo, submundo, além das nossas seguranças e inseguranças.

Além do aspecto visual, o verbal é igualmente importante: os repórteres dos plantões de polícia televisivos não têm papas nem freios na língua. Disparam sem temor a pergunta que traz embutida uma resposta prévia e acusatória: “Por que você matou?” Na bucha, à queima-roupa. Os acusados cumprem bem o seu papel, o papel que determinamos para eles: dão respostas evasivas, pontuadas pelo mau uso da gramática, por vezes sorriem um sorriso amarelo e sem graça o que nos provoca revolta e a certeza do cinismo.

Noves fora o caos psicológico que é a morte de uma criança (cinco anos!) – além do mais nas circunstâncias terríveis do caso Nardoni – o que assusta a todos, câmeras e policiais, para citar dois profissionais que têm se mostrado atônitos e por isso mais respeitosos com os acusados, o que assusta a todos, insisto, incluídos aí os telespectadores comuns, classe “média”, é que, neste caso, não existe nenhum invasor externo a ultrapassar a fronteira do condomínio classe média. (E se existisse cumpriria as regras do estereótipo: marginal, pardo, peito nu, calção e chinelos.) O que assusta é que o inimigo, desta vez, contrariando a lógica da divisão social, está ao nosso lado. Veste as roupas da classe média, o corte de cabelo da classe média, é filho, neto, irmão, amigo e – o mais terrível – pai e algoz dessa mesma classe média.

Alguém que não usa o elevador de serviço, enfim.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

um monte de ruínas [080408]





Estava eu dia desses charlando com Don Giovanni de Lolita y Rêgo. Papos idiossincráticos. De beira de calçada. Noite alta, ou baixa, céu risonho, ou amuado – sem estrelas nem cometas, que os últimos dias são invernais, com vê minúsculo. O sobrescrito e o dito cujo são chegados numa beira de calçada. Um meio-fio. De preferência aqueles de paralelepípedos.

Os temas são quase sempre os mesmos: o Ryo Grande, a Natalzinha, o Putigy. E os varões e donzelas que enfeitam a paisagem. Sociais, políticos, econômicos.

A idéia era encontrar uma idéia para um projeto de livro. A minha palavra tangendo as 1.000 do tira-fotos. E vice-versa.

Conversa vai, chope vem, sugeri um livro sobre como os natalenses moravam, abordando os que ainda moram, como num passado mais ou menos recente: em amplas casas, com jardim, quintal e retratos nas paredes e sobre os móveis da sala.

Enumerei umas tantas – que seus proprietários me perdoem a intromissão e a exposição nesta coluna, mas, enfim, são apenas palavras, e, nem ao menos, tão descritivas.

A casa de Dona Sílvia Ramalho, por exemplo. Viúva de Osório, nora de Manoel Dantas, sua casa é uma maravilha, de uma época que já foi. Não existe fausto, nem pompa ou circunstância exageradas. Nem, tampouco, declínio, queda ou decadência. Tudo permanece, como se os anos 60 e 70, especialmente, continuassem a existir no equilíbrio, na discrição, na arrumação sóbria dos móveis e dos sopra-móveis. Como se os arquitetos-decoradores que enxovalharam as neogaiolas da neo-elite no último decênio nunca tivessem existido.

Outra: a casa da viúva Machado. Dói em mim sabê-la desconhecida. Não sei quanto daria para passeá-la – que de vinténs e tostões só os tenho furados – mas, de bom grado, aceitaria um convite para o chá das cinco. Prometo até calçar sapatos, como gente de bem. E alçar o mindinho quando levar a xícara de porcelana inglesa aos lábios contritos. Ou não alçá-lo, que sei eu de regras da nobre etiqueta?

Voltando às que conheço, a casa de Odilon Garcia: uma beleza, com ares de mansarda americana e ecos distantes da Segunda Guerra. Ainda tive o privilégio de lá adentrar e ser recebido pela figura ímpar do amigo do meu pai – ainda que a visita fosse à sua filha e minha professora de semiótica, Maria Lúcia. Em várias ocasiões, antes das refeições, tive o prazer de ouvi-lo botar o toca-discos pra funcionar: de algum canto da casa evoluíam no ar clássicos extraídos dos sulcos negros de antigos long-plays, bem conservados e cuidados, como todo o mais – a arquitetura original intacta, imune às sanhas do novo, as plantas verdejantes, o pátio sombreado com cadeiras à espera da visita e do bem-acolher. Emprestou-me, um dia, o velho Odilon, um livro de crônicas de Antônio Maria, também estas retrato de uma época, de um Brasil saudoso de meio-século atrás. Noutro, estendeu o braço e me passou uísque e gelo. Não é exagero dizer que ainda lembro com alegria o gesto, transubstanciando no frio do copo de boca larga, e no tilintar das pedras descortinando maltes e o prazer da companhia. Do compartilhar fraterno, ali, perto e ao mesmo tempo tão longe da cidade assanhada em ser metrópole, ingênua no seu desmantelo à guisa de progresso.

Quantas mais existem destas velhas casas? Quantas e por quanto tempo ainda sobreviverão? Aos velhos não lhes resta nada a não ser ceder espaço aos vivos e aos que estão por nascer, que o mundo parece cada dia mais apertado. Um dia, esses retratos antigos, vivos, em terceira dimensão, palpáveis e sentidos, fecharão para sempre suas portas. A penumbra encerrada não resistirá muito: ninguém as mais quer, enquanto morada. Alegam segurança, tamanho, gastos. Contas são feitas, cálculos ignoram e desprezam o romantismo datado, arquitetos e engenheiros fazem plantas, empurra daqui, tira dacolá, cabem aqui tantos apartamentos de tantas suítes e não menos vagas nas garagens.

Num piscar de olhos as velhas construções tomam o mesmo rumo de seus donos, transformam-se em entulho. Um olhar distraído e nem escombros reencontramos mais. Dali a poucos dias, o stand feérico é construído. Blindex, gesso, granito, aço escovado, a receita da modernidade.

Vai ser assim com outra das casas da nossa lista: a última – suponho – da família Lamartine em Natal, esquina da Trairi com a Rodrigues Alves (a informação é da abelhinha Eliana Lima). É uma casa moderna – os acadêmicos de arquitetura saberão descrevê-la melhor – daquele modernismo da década de 70 em Natal, provavelmente reflexos de décadas anteriores no mundo, especialmente nos Estados Unidos da América. Tem ares de Frank Loyd Wright, ou Le Corbusier, ou Mies van der Rohe, imagino, e posso estar enganado, não importa: para mim, é uma presença que permanece constante desde que eu era menino. Outro dia passei lá. Passo quase diariamente lá, o velho saudosista e bobo em que estou me transformando. Olhei as árvores enormes, que rimam com a casa como versos fluidos numa poesia silenciosa, e que parecem plantadas pelo mesmo arquiteto-construtor.

Me peguei com o desejo ridículo de que ao menos elas fossem conservadas. Besteira: se apagariam diante do monstro de concreto, ávido em arranhar céus, nuvens, estrelas. Em nos engolir.

PROSA
“Demais, não faltarão jornalistas de oposição para afirmar, por dever de ofício, que vamos em regresso e que, daqui a 50 anos, Natal será um monte de ruínas.”
Manoel Dantas
Natal daqui a 50 anos

VERSO
“Vamos, irmãos, eu que estou reparando, de retrato, esse quadro que se alonga ao longo da parede.”
João Lins Caldas
A casa nos conta a sua história

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Vestir-se cotidiano














A agonia é uma de minhas mudas de roupa;
Não pergunto pro ferido como ele se sente... eu viro o ferido,
Minha dor se volta para mim, lívida, enquanto me apóio na bengala e observo.

[Walt Whitman Folhas de relva tradução e posfácio Rodrigo Garcia Lopes 1ª reimpressão São Paulo Iluminuras 2006]

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Andar com fé a pé [070308]



Há uns 15 anos não moro em Natal. Um terço fora, do Estado e do país, e o resto do tempo entre Nísia Floresta e Parnamirim.

Há uns três, quatro meses, passo boa parte da semana na capital, e, aqui, particularmente no bairro de Petrópolis.

Petrópolis é o bairro da minha infância – o que já significa muita coisa. Mas não apenas: aqui nasci, me criei e vivi até os 17 anos. Praticamente no mesmo endereço, uma ruazinha estreita entre a Mossoró e a Mipibu.

Até os quatro anos morei numa casa vizinha à casa da minha avó. Depois, numa casa em frente, projeto do arquiteto Ubirajara Galvão.

Nos meus sonhos mais importantes, aqueles que ao despertar reconheço importância simbólica, ainda que misteriosa, é lá que vivo uma outra vida onírica, no surrealismo típico dos sonhos.

Como todos da minha geração, não tive portas nem portões fechados, nem limites claros que não deveria ultrapassar.

Quando chovia, a ordem implícita era pegar a bicicleta e tomar banho de biqueira.

Em meados dos 70, veio a febrícula do skate, então apenas uma tábua adaptada às rodas dos patins. Numa cidade quase analfabeta do piche escuro do asfalto, a solução eram as calçadas largas do bairro.

Desde os 11 anos acostumei-me a andar a pé, da Ribeira a Petrópolis, de Petrópolis à Cidade Alta. Um labirinto facilmente desvelado em rotas invisíveis: Juvino Barreto, Potengi, Rodrigues Alves, Mipibu – a rota 1; Junqueira Aires, Rio Branco, João Pessoa, Deodoro, Açu, Rodrigues Alves, Mossoró – a rota 2. Os centros da vida eram a casa e o colégio. E, por extensão, o lazer da “cidade”, o centro comercial, shopping center da época, fechando o triângulo: lá estavam as butiques de surf, os cinemas, as casas de lanche, as lojas de discos, as livrarias.

Um quarto de século depois, quando reencontro Petrópolis, agora travestida de Quinta Avenida, vejo com prazer o que ainda resiste daquela época. Nem as mudanças radicais me desanimam, apesar de visível e agressivamente suplantarem a permanência do tempo.

E volto a caminhar a pé, a remontar os fios invisíveis daquelas rotas da infância, numa saudade revigorante.

Agora, me dizem que não é mais aconselhável o pedestrianismo, mesmo que no início da noite calma. As novas lojas há muito mantêm a chave na fechadura das portas envidraçadas. Os clientes do café na calçada foram assaltados. O dono da cigarreira pensa em fechar. A farmácia já fecha apenas a noite cai. Os outros pedestres quando cruzam por mim, trocamos olhares desconfiados. A família de minha cunhada foi assaltada, faca na garganta, na Potengi, próximo à Biblioteca Câmara Cascudo, sete da noite dominical.

As opções também não são das mais confiáveis: atenção ao se aproximar do veículo, olhar se alguém espreita, não acionar o controle automático senão quando já bem próximo, entrar rapidamente, travar portas e janelas, partir imediatamente.

Revejo e reviso o título dessa crônica, citação de um Gil que não acreditava nas “fáia” da fé. Não, crianças: a possibilidade de andar com segurança não deveria desaparecer assim tão naturalmente com o crescimento das cidades, como sina da qual não se possa escapar. Tampouco é questão de fé, religião ou esperança – é questão de cidadania. E vergonha.
Item ausente em governos e administrações omissas, coniventes, cúmplices mesmo, do crime que se organiza enquanto o caos se instala.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Arthur [140408]



Basta poucos minutos na companhia de Arthur Moreira Lima para espontaneamente chamá-lo de Arthur – embora o tratamento íntimo provoque em nós, paupérrimos mortais, um quê de constrangimento: afinal, o homem é uma lenda viva e um monstro sagrado e consagrado ao piano, num país de poucas lendas vivas e poucos monstros sagrados e consagrados, ainda mais num instrumento que, paradoxalmente, pode ser mais fácil carregar do que tocar. E, ao tocá-lo, soar mal que o contrário – o que faz lembrar a máxima de Oscar Wilde: “Por favor, não atirem no pianista. Ele está fazendo o melhor que pode.”

Arthur – com o perdão do Moreira e do Lima – faz o melhor que pode. Convidado por Diógenes da Cunha Lima, o pianista chega, acompanhado por Chico Cortez, num restaurante à beira-mar. Está em Natal para acertar detalhes e datas do seu projeto “Um piano pela estrada”, que tem, quase como um subtítulo, a explicação objetiva: “Um projeto de inclusão social e musical”.

Não é conversa fora. Arthur entendeu a exata e poética dimensão do que fazia, há alguns anos, quando – em pleno sertão mineiro, depois do concerto que normalmente realiza em cima de um caminhão Scania de 14 metros de comprimento – o prefeito de Januária lhe disse sobre o projeto: “Eu sabia que era importante, só não sabia que era bonito.”

Mas essa história ele conta depois. Antes, pra quebrar o gelo ele dispara: “Vim aqui anônimo, como olheiro do Fluminense.” E sorri. E quando sorri, se transforma. Tem um rosto marcado, um olhar triste e pensativo, e o corpo encurvado como se procurasse eternamente as teclas bicolores sob o nariz adunco.

Sua paixão declarada a três por quatro pelo Fluminense faz pensar que seria mais feliz se o teclado do piano fosse tricolor, como o seu time. Por isso fala sempre no Flu, por que, quando cita uma escalação famosa, ou quando cita outro torcedor apaixonado como ele, sorri. E quando sorri, o rosto continua marcado, o nariz continua adunco, mas rosto e nariz são um só riso e os olhos um par de brilhos.

Quando sorri, deixa de ser Arthur Moreira Lima, para ser, simplesmente, Arthur.

Um cara curioso, com um sotaque discretamente carioca, que puxa do bolso uma cadernetinha para anotar algo que seu interlocutor falou – e, adivinhem qual escudo se vê impresso em três cores no couro da agenda?

A mesa se anima. Se solta, relaxa: além dos já citados, estão ali o poeta Paulo de Tarso Correia de Melo e o cronista social Paulo Macedo, que chegou por último, e logo sacou do bolso, não uma caderneta tricolor, mas um poema contra Lula, supostamente de Affonso Romano de Sant’anna, diz. Arthur ouve, discreto: não se sabe se é contra ou a favor do poema contra. Macedo pede desculpas, não pode ficar para o almoço, a coluna deve sair no dia seguinte. Arthur pede água com gás e guaraná zero, o garçom oferece diet, ele dá de ombros. Diógenes conta eventos históricos, descreve como o primeiro prato consumido no Brasil recém-descoberto foi o próprio descobridor luso, assado. Surpreende-se com o conhecimento do pianista sobre História – ele explica seu interesse, que vem de família. A República, com erre maiúsculo, lhe é particularmente interessante. Em plena ditadura militar, Arthur um dia vai conversar com um militar: propõe um “mapeamento musical” do país. O oficial salta da cadeira: “Mapeamento é um termo de milico!” Arthur sorri, naquela ocasião sorriu, sorri agora, também. Foi aluno do Colégio Militar, no Rio, estudou piano na União Soviética, onde morou por oito anos. Diverte-se ao recordar um encontro de artistas em Brasília: Marco Maciel chega e interrompe as reivindicações ao puxar Arthur num canto para falar sobre o Fluminense.

Sorri quando fala da sua amizade com Millôr Fernandes, sorri quando cita, exaustivamente, histórias e frases de Don Rossé Cavaca, pseudônimo de José Martins de Araújo Júnior (1924-1965), jornalista, publicitário e humorista, autor de – olha só – “Um riso em decúbito”.

Todos gostam quando diz uma frase do Cavaca – tanto, que ele é obrigado a repetir e eu, a transcrever: “Já está na hora de a geração mais jovem aprender com a geração madura que pirâmide já foi bossa nova em matéria de sepultura.”

É a chave para entender o cara que se despede de nós quase tão íntimo e sem o glamour empoado das celebridades (ninguém pareceu reconhecê-lo no restaurante lotado). Por pouco não dou um tapinha nas costas ou encosto o punho fechado contra o ombro, esquecendo que é o mesmo Arthur – agora com o Moreira e o Lima – que já se apresentou com Filarmônicas e Sinfônicas de Leningrado, Moscou, Varsóvia, Berlim, Viena, Praga, Londres, Paris, sob a direção de nomes pra lá de esquisitos (pesco todos do seu sítio na internet): Kurt Sanderling, KiriIl Kondrashin, Mariss Jansons, Jesus Lopez-Cobos, Rudolf Barshai, Serge Baudo, Sir Charles Groves, Vladimir Fedosseyev.

Melhor apertar a mão e dar tchau.

E esperar que a governadora cumpra o prometido e o mais popular dos eruditos volte ao Ryo Grande. Quem sabe um vereador ache que ele está à altura de nossa Claudinha Leitte e faça-o cidadão natalense. O nosso Arthur.

sábado, 12 de abril de 2008

Drauzio Varela, confortando minhas aflições:


"Mal desembarquei no aeroporto Santos Dumont, dei de cara com uma jibóia contorcida que avançava em passo de procissão. Era uma fila longa e grossa constituída por mulheres com trajes formais e homens de terno escuro, ejetados pelos aviões que aterrissavam no primeiro horário da manhã.Usuário contumaz da ponte aérea que liga São Paulo ao Rio, jamais havia me deparado com aquela aglomeração ordeira.Assim que a jibóia fez a curva, saí de lado para enxergar a origem do congestionamento. Não pude acreditar: a fila desembocava na boca da escada rolante. Ao lado dela, a escada comum, deserta como o Saara.Imaginei que houvesse alguma razão para tanta espera, quem sabe a escada mecânica estivesse obstruída; mas, como não percebi nenhum obstáculo, caminhei em direção a ela. Não fosse a companhia de um rapaz de mochila nas costas, dois degraus à minha frente, eu teria descido no desamparo.Se ainda fosse para subir a escada rolante, o esforço maior e a transpiração àquela hora da manhã talvez justificassem a falta de iniciativa. Os enfileirados, no entanto, berrando em seus celulares, em pleno vigor da atividade profissional, recusavam-se a movimentar as pernas mesmo para descer.Se perguntássemos para aquele povo se a vida sedentária faz bem à saúde, todos responderiam que não. Pessoas instruídas estão cansadas de ler a respeito dos benefícios que a atividade física traz para o corpo humano: melhora as condições cardiorrespiratórias, reduz o risco de doenças cardiovasculares, reumatismo, diabetes, hipertensão arterial, câncer, degenerações neurológicas etc.Por que, então, preferem aguardar pacientemente a descer um lance de degraus às custas das próprias pernas?Por uma razão simples: o exercício físico vai contra a natureza humana. Que outra explicação existiria para o fato de o sedentarismo ser praticamente universal entre os que conseguem ganhar a vida no conforto das cadeiras?A preguiça para movimentar o esqueleto não é privilégio de nossa espécie: nenhum animal adulto gasta energia à toa. No zoológico, leitor, você jamais encontrará uma onça dando um pique aeróbico, um gorila levantando peso, uma girafa galopando para melhorar a forma física. A escassez milenar de alimentos na natureza fez com que os animais adotassem a estratégia de reduzir o desperdício energético ao mínimo.A necessidade de poupar energia moldou o metabolismo de nossa espécie de maneira tal que toda caloria ingerida em excesso será armazenada sob a forma de gordura, defesa do organismo para enfrentar as agruras dos dias de jejuns prolongados que porventura possam ocorrer.Por causa dessas limitações biológicas, se você é daquelas pessoas que esperam a visita da disposição física para começar a fazer exercícios com regularidade, desista. Ela jamais virá. Disposição para sair da cama todos os dias, calçar o tênis e andar até o suor escorrer pelo rosto nenhum mortal tem.Encare a atividade física com disciplina militar ou esqueça-se dela. Na base do "quando der, eu faço", nunca dará.Falo por experiência própria. Sou corredor de distâncias longas há muitos anos. Às seis da manhã, chego no parque, abro a porta do carro e saio correndo. Não faço alongamento antes, como deveria, porque, se ficar parado, esticando os músculos, volto para a cama. Durante todo o percurso do primeiro quilômetro, meu cérebro é refém de um pensamento recorrente: não há o que justifique um homem passar por esse suplício.Daí em diante, as endorfinas liberadas na corrente sangüínea tornam o sofrimento mais suportável. Mas o exercício só fica bom, de fato, quando termina. Que sensação de paz e tranqüilidade! Que prazer traz a certeza de que posso passar o resto do dia sentado, sem o menor sentimento de culpa.Se eu perguntasse às pessoas daquela fila por que razão levam vidas sedentárias, todas apresentariam justificativas convincentes: excesso de trabalho, filhos que precisam ir para a escola, obrigações familiares, trânsito, falta de dinheiro, violência urbana.No passado, diante desses argumentos, eu ficava condoído e me calava. Os anos de profissão mudaram minha atitude, entretanto: escuto as explicações em silêncio, mas não me comovo com elas. O coração vira uma pedra de gelo. No final, quando meu interlocutor pergunta como poderia encontrar tempo para a atividade física regular, respondo: 'Isso é problema seu.'"

[Na Folha de hoje - grifos meus]

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Cidade do Amor


Isto sim é que é uma candidata a vereadora!


Milly D’Abbraccio (née Emilia Cucciniello) colou sete mil cartazes com a foto de sua bunda e a frase Basta com estes cara-de-cu, referência explícita aos colegas da política tradicional.

Há quem fale em ereções ao posto de eleições.

Eleita, Milly vai transformar Roma na Cidade do Amor.

Não vai precisar de muito esforço pra cumprir a promessa de campanha: nas avenidas da capital italiana, com o cair da noite, prostitutas e travestis provocam filas e congestionam o tráfego.

Pela manhã, as camisinhas espalham-se sobre o asfalto. O jornal La Repubblica, de ontem, informa que as cores da moda para os preservativos são o amarelo-elétrico e o celeste-shokking.


Já entre os travestis abundam a presença verdamarela: o periódico entrevistou Vanessa, 38 anos, do Rio de Janeiro – o repórter ficou impressionado com a surpreendente cortesia da moça (ou do rapaz, ou dos dois, enfim). Muitas das minhas colegas são loucas, fazem bagunça e pronto. Eu trabalho em casa, mas se as coisas não vão muito bem e de dia os clientes são poucos, vou pra rua. Os moradores não gostam, compreendo, mas que podemos fazer? Precisamos ganhar a vida – explicou Vanessa.

Milly e os candidatos, também.


Da inutilidade dos outros dias ditos igualmente úteis


As segundas-feiras são terríveis. As terças, quartas, quintas, sextas, também.
Quando não é o tempo externo, é a temperatura interior.
Fastio. Chatura. Gastura. Tédio. Sensabor. Azia. Constipação. Alergia. Coriza. Agonia.
Este último item nem vale citar: lembra Oswaldo Montenegro. E é cruel falar em Oswaldo Montenegro, digitar o nome O-s-w-a-l-d-o M-o-n-t-e-n-e-g-r-o (ainda que com a artimanha do copiar&colar).
Ninguém merece escrever ou falar sobre OM.
Pronto: estraguei o que tinha a dizer.
Inútil.
A semana.
Inútil.
A paisagem.


segunda-feira, 7 de abril de 2008

Da inutilidade do primeiro dia útil [070408]


[Crepax]


As segundas-feiras são terríveis, já o sabiam Garfield e Bob Geldof. Ainda mais debaixo de chuva. E nós, debaixo do cobertor.

As goteiras se multiplicam nos ouvidos. São como nina-nana, acalanto, dose cavalar de preguiça na veia.

Com o que chamam “rabo-do-olho”, espiamos o tempo lá fora: bruto, bruto, bruto. Um cinza só. Nada de cores vibrantes, alegres, pueris. Nada de tons fashion que fazem a felicidade dos rapazes e moças das semanas da moda. Em Paris, Milano e na Capital do Ryo Grande.
Mas, o tempo não está para frescuras. Melhor: está. E debaixo do lençol fica bem melhor, agarrados ao travesseiro que restamos, os pés encolhidos, as mãos escondidas debaixo do peito, onde um coração pulsante se recusa à posição que nos fez famosos entre os primatas.

Eretos não ficaremos jamais, enquanto o sol não der as caras e afugentar cumulus, nimbus, cirros e stratus e outras palavrinhas difíceis que traduzem o lugar-comum das nuvenzinhas cor de chumbo.

É verdade que o frio provoca outros efeitos nos corpos ditos cavernosos – mas isso é outro papo e o horário é impróprio a menores.

E nem sempre acordamos acompanhados, enfatize-se. Quase sempre a cara-metade, contrariando nossas pulsões e instintos animalescos, já se levantou. Os pivetes (ou o pivete, ou a pirralha – marque a opção que melhor se enquadra à sua prole) têm de ir à escola. Para desasnarem e nos deixarem um pouquinho em paz. Sem escola, nenhum pai agüentaria muito os filhos. Mas este também é outro papo, e impróprio às cabeças bem pensantes e sentimentais, todas água-com-açúcar.

Então, voltemos ao leito, de onde nunca saímos e de onde só sairemos quando o tempo melhorar.

De preferência, na terça.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Um tapinha não dói


Assim falou Supla-pai sobre a erva maldita:

De fato... quando moço... em algumas ocasiões... ãhn... pouquíssimas... eu... experimentei... assim como também... fumei alguns cigarros... mas... não me fez bem. Recomendo a... todos, inclusive... aquelas pessoas que trabalham comigo... de não... fumarem.

Mais pra frente Supla-ex-Marta acrescentou:

Eu agora vou lhe mostrar o que você vai ver.

E mais, a uma assessora, para presentear a equipe de jornalistas brasileiros (do CQC, da Band, de Marcelo Tas):

Grace: preciso... providenciar pra eles... o DVD, com... com as legendas em português!

É.

Os efeitos, parece, continuam.

É claro que já está no YouTube.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O caçador da menina que roubava pipas do livreiro de Cabul [010408]


Parece que foi ontem, e foi ontem mesmo, eu contava a aventura de assistir, no escurinho do cinemão, a transposição para as telas de um best-seller: “O caçador de pipas”. Sala cheia, sentou-se ao meu lado a figura rechonchuda de um Botero tropical. Famélica ou gulosa, tinha lido, era o que parecia, o livro inspirador de cabo a rabo. E logo durante os minutos iniciais atendeu prontamente o celular...

A conversa durou todo o tempo dos títulos de abertura. Assim, fiquei sabendo de toda a sua agenda para a manhã seguinte.

Fiquei calado: eu estava ali não pra ver o filme, mas para uma interessante experiência sociológica, uma descida aos infernos dos ditos gostos populares.

Assim, que por obra e graça da minha vizinha soube exatamente onde o diretor (do filme) tinha deturpado o autor (do livro) – com a vantagem da descrição das cenas como deveriam realmente ter acontecido. Por exemplo, quando o bocó mete a barba postiça e vai em busca do sobrinho no Afeganistão, saibam vocês que assistiram o filme mas não leram o livro, que o automóvel que o conduz está e-r-r-a-d-o: era um jeep, senhor diretor! Lástima.

Resumo da ópera: se você leu o original, não vai gostar de “O caçador de pipas – o filme”. Se você não leu, esqueça.

O mais engraçado é que, filmado na China, a reconstituição de Cabul parece – ao menos para nós que nunca estivemos lá – das mais fidedignas. O filme se esmera, também, na língua falada: boa parte em dari, dialeto da maioria afegã. Ao contrário do cinemão, onde já nos habituamos até com astecas, incas e brasileiros falando inglês.

Mas tem algo errado no filme, que se arrasta como se tivesse paradoxalmente pressa em transpor cada capítulo literário – ou o resumo dele – para as telas, para evitar justamente comentários como os da gordinha ao meu lado.

Os efeitos especiais e sonoros – nas cenas onde as pipas ondeiam e volteiam nos céus “de Cabul” – também incomodam. Não combinam com a reconstrução de rostos supostamente afegãos e prédios idem. É como querer dar um toque “Matrix” a “Lawrence da Arábia”.

Pra comer com pipocão kingão saizão, enfim.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

O caçador da menina que roubava pipas do livreiro de Cabul [310308]


Como promessa é dívida, e como prometi semana passada dar um pitaco qualquer sobre o tal caçador de pipas, vou logo me livrando do compromisso.

Se você leu a “crítica” de sexta, fique logo sabendo que assistir a “Onde os fracos não têm vez” e a “O caçador de pipas” são duas experiências, embora naturalmente diversas, bastante comuns.
Pra começo de conversa, casa cheia nos dois. Os motivos são os Oscar conquistados, pelo primeiro, e os livros vendidos que nem pão quente, pelo segundo. La même chose, enfim. Mais: imagino que uma minoria da patuléia foi ver “Os fracos” pra bater palminhas pros irmãos Coen.
Ao contrário, apenas uma minoria foi assistir “As pipas” porque ouviu falar do sucesso do livreco – a maioria, mesmo, foi conferir se a versão celulóide era fidedigna ao original gutenberguiano.

Já deu pra sentir que vou espinafrar livro, filme, autor, diretor, e, por tabela, os leitores fãs de carteirinha, né? Então, vamos parar por aqui, vocês adoradores de ídolos falsos. Eu continuo, vocês passam pra página dos esportes.

Pra ilustrar, jornalismo-verdade, crônica da banalidade: me arrumo, em meio ao mundaréu de gente, em duas poltronas lá pelas fileiras centrais e do alto. Todo crente que, como era um filmão bem popular, o barulho da tela se confundiria com o barulho da platéia.

Olha que sujeito preconceituoso às massas: 99% da sala se comportou direitinho – até mastigaram as pipocas com parcimônia e esmero e a fineza com que dobraram as embalagens vazias dava gosto de se ouvir.

O problema foi o 1% restante. Que se aboletou justo ao meu lado. E justo na figura rechonchuda de uma gordinha faladeira. Dane-se o politicamente correto! Se fosse uma loira platinada, ainda que burra, eu soltaria os cachorros na loirice belzebu. Mas a danada era uma gorda, e, justificando todos os estereótipos do physique du role, começou abrindo uma embalagem tipo pizza pra viagem: não, não era pizza. Devia ser algo mais gosmento e pegajoso, porque a filha de uma mãe raspava o fundo chato e cartonado com um garfinho de plástico. Depois, abriu um saco plástico onde, pelos rumores emitidos, continha ainda mais coisinhas plásticas e comestíveis. No intervalo entre uma ação e outra, a gourmet atendeu, numa boa, o celular.

Amanhã eu conto o resto.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Levante de leopardos | Combinações



Ler não apenas deformou sua imaginação; mas já não era o mesmo jumento que.


Como sabê-lo inteiramente, mais que os outros jumentos sem nenhum vislumbre de memória, sem nenhuma intromissão dos seres que já havia contado e que provavelmente haviam profanado sua alma com miniaturas fulvas de furor?


Pois entre as botas, ereto, pendia um bastão enorme. Era mais rijo que o membro com que o ameaçavam.


Não sei o que ele viu. Não sei o que lhe passou pela cabeça, ouviu ou farejou.


Ele não saíra do lugar, seqüestrou-a na noite anterior. Na fração de tempo em que eu lhe dera as costas, sem carnes, sem forças, quase sem pele, uma natureza facilmente excitável, meio nervoso, meio bilioso, total na sua força e na sua masculinidade, menos do que nada, quando eu já não via nada, dera-se nele uma visão.


E foi só a este sentimento de desejo em meio à miséria que eu compreendi que se achava definitivamente extinto o que em mim existia de cruel e sórdido, como um animal que repontasse de selvas primitivas.


Penso nele com freqüência. Penso em quanto dele ainda estava no meu íntimo, ali iremos, se ainda quiserem, até um lugar em que todos os dias pessoas morrem entre a gentileza e a eficiência, guardados e engordados para a morte.


Quisera o ponto de Marrakech e.


Somos, todos nós, fundas marcas de estranhos e.


E acrescentemos um espírito culto, agressivo e imperioso, cheio de fome e de sede de absoluto, habituado aos estudos da forma e da cor assombrosa; um coração terno, fatigado pela embriaguez, mas ainda pronto para o rejuvenescimento; é uma grande coisa morrer em nossa própria cama ou em hospital, embora seja melhor ainda morrer de semelhante infelicidade; vara de porcos, levante de leopardos nos trucidam sem razão.


Por maior que seja aquela criatura miserável, que só servia para diálogos obstinados, mais favorável às patas traseiras, aquele ser que era amado ainda guardava sua miséria.


Mas mal se agüentava em si tanto desejo, e possuí-la enxovalhada velha e fraca me livrou da imagem de que a mera alteração daquilo começava a se erguer.


Um ser de temperamento algum, talvez pequeno demais para ser mal-empregado, despede algo; mas deixa da pressa uma impessoalidade, em cada detalhe que haverá.


Outro assim é o admitir que todos os flagelados preservassem o tempo da aglomeração, da faísca de boca numinosa: surgem antigas recordações, evoluções, culpas terrivelmente dolorosas, remorsos positivos, o que deve resultar em senão toda morte ao menos o arrependimento do ciúme infantil lacerado nas pernas.



O texto acima foi reescrito usando os textos da postagem abaixo. Reescrito, talvez, não seja o termo adequado: foi remanejado, sem acréscimo ou supressão de nenhuma palavra ou sinal de pontuação.