quinta-feira, 30 de julho de 2009

Good morning, Babylon, good morning, Heaven




Amanhecer sem novidades sem chuva sem sol sem hinos sem deus sem diabos sem acidentes na esquina sem ambulâncias do samu sem pregão de boas novas sem farfalhar de asas sem parolar de vestidos sem crepitar de chamas sem cinzas ao vento sem ninguém ao meu lado.

Como é necessário não ter ninguém ao meu lado.

Como é necessário não ter vento chamas vestidos asas novidades ambulâncias esquinas diabos deuses sol chuva.

Só você ao meu lado.

E então. Anoitecer.





quarta-feira, 29 de julho de 2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

Bom dia, Babilônia, bom dia, estrela da manhã

amor


Por mim restaria do lado de fora, falei. Por mim desconheceria as marcas no ringue, pensei. As cordas tensas. O ventre seco. Descemos a colina em busca do mar. Areia nos joelhos. A água um imenso prato raso coalhado de luzes intensas. Os garotos, todos nus, garotos, correndo à beira-mar. Ao fim, encontramos Monica. O cabelo de menino loiro. Os seios por trás da malha branca de mangas compridas. Pensei que não viriam mais, ela disse. Eu sorri e desviei os olhos lá pros lados do pontilhão que avançava rumo ao horizonte. Ela enterrou os pés na areia, a mão no queixo. Um fio de cabelo teimou em lamber-lhe o nariz. O sol se desmanchava no fim da tarde, fim do céu. Tudo tão dourado. O mar, raso. Sem sombras. Sem ondas. Uma quietude só. Eu estendi a mão e afastei o fio de cabelo. Ela abraçou Monica pelas costas, os pés ainda enterrados na areia fina, remexendo sob a areia fina, tarde de verão, fim de tarde de verão. Quando caí, as marcas das cordas tensionadas desenhando nas minhas costas linhas horizontes sinais – Foi do que lembrei. Eu disse. Ou pensei, não me lembro bem.



Amor





quinta-feira, 23 de julho de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

Quarto crescente




Cai a noite e o horizonte se coalha de estrelas mas estrelas não são.

Cai a noite, no horizonte se multiplicam as salas, as cozinhas, as áreas de serviço, os quartos de dormir.

Cai a noite e se espraia pelo horizonte lampejando verdades dúvidas sinais.

Cai a noite – as pessoas em casa têm tornado cedo.

Caída a noite, a gente acende seus Lares. E preparam seus banquetes. E comem seus deuses.

Calada a noite. O telefone toca. Alguém diz:

- Preciso tomar um café com leite.

Noutra ponta: um caffelatte.

Foi impressão minha ou as estrelas se desalinharam quando seu rosto não tocou o meu?



sexta-feira, 17 de julho de 2009

Todos los fuegos el fuego





Florentino Ariza escribía todas las noches sin piedad para consigo mismo, envenenándose letra por letra con el humo de las lámparas de aceite de corozo en la trastienda de la mercería, y sus cartas iban haciéndose más extensas y lunáticas cuanto más se esforzaba por imitar a sus poetas preferidos de la Biblioteca Popular, que ya para esa época estaba llegando a los ochenta volúmenes. Su madre, que con tanto ardor lo había incitado a solazarse en su tormento, empezó a alarmarse por su salud. Te vas a gastar el seso – le gritaba desde el dormitorio cuando oía cantar los primeros gallos –. No hay mujer que merezca tanto. Pues non recordaba haber conocido a nadie en semejante estado de perdición. Pero él no le hacia caso. A veces llegaba a la oficina sin dormir, con los cabellos alborotados de amor, después de haber dejado la carta en el escondite previsto para que Fermina Daza la encontrara de paso hacia el colegio. Ella, en cambio, sometida a la vigilancia del padre y a la acechanza viciosa de las monjas, apenas si lograba completar medio folio del cuaderno escolar encerrada en los baños o fingiendo tomar notas durante la clase. Pero no sólo por las prisas y sobresaltos, sino también por su carácter, las cartas de ella eludían cualquier escollo sentimental y se reducían a contar incidentes de su vida cotidiana con el estilo servicial de un diario de navegación. En realidad eran cartas de distracción, destinadas a mantener las brasas vivas pero sin poner la mano en el fuego, mientras que Florentino Ariza se incineraba en cada línea.


[Gabriel García Márquez, El amor en los tiempos del colera, Madrid: Mondadori, sexta edición, febrero 1988]






a tarde ardia com cem sóis

* * *

BRILHAR PRA SEMPRE

BRILHAR COMO UM FAROL

BRILHAR COM BRILHO ETERNO

GENTE é PRA BRILHAR

QUE TUDO O MAIS Vá PRO INFERNO

ESTE é o MEU SLOGAN

E O DO SOL


[Augusto de Campos \ Vladímir Maiakóvski in Maiakóvski – poemas, Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos, São Paulo: Perspectiva, 2003]






[Fotograma de Farenheit 451, de François Truffaut / Ray Bradbury]









sábado, 4 de julho de 2009

Transglobal underground


[Monica Vitti em L'avventura, 1960]



A verdade é que eu caminhava pelos subterrâneos, sempre. A verdade é que onde eu ia encontrava rapazes e moças com os braços espetados de seringas, sempre. A verdade é que todas as vezes em que estive em África eu contraí a AIDS, sempre, todas as vezes. A verdade é que todas as vezes em que fui ao Camboja me entupi de ópio, sempre. A verdade é que sempre que eu cruzava a rua você estava do outro lado, me esperando, sempre. A verdade é que cada vez que você sorria eu sentia um punho de dentes na boca do estômago, sempre. A verdade é que, naquela tarde, em Ollantaytambo, sempre, o vento assanhando seu penteado, sempre, a verdade é que no domingo de páscoa, em Panarea, sempre, em Panarea, sempre, Lisca Bianca, sempre, a verdade é que, naquela tarde, em Ollantaytambo, o vento assanhando seus cabelos, o vento desfazendo seu penteado, eu lhe abracei e evitamos cair do penhasco, sempre. A verdade é que eu sempre estive caindo de penhascos, rochedos, desfiladeiros, escarpas. Sempre.



A verdade é que eu subia e descia de bondes elétricos em Viena d’Áustria enquanto dormia as noites num quarto de hotel vagabundo em Viena d’Áustria e sonhava em ser escritor só porque no quarto de hotel vagabundo em Viena d’Áustria havia uma mesa e uma cadeira no centro da câmara com vistas para a estação de trens onde velhos nazistas me olhavam com raiva nos olhos e eu nem me importava porque tudo que eu buscava eram cigarros contrabandeados e um pouco de haxixe para mascar, sempre. A verdade é que quando te abandonei no mercado de pulgas de Paris com um lenço enorme cheio de arabescos indianos nas mãos eu queria fugir, sempre, porque, sempre, em toda a minha vida eu quis fugir de você, sempre. A verdade é que eu passei boa parte daqueles anos descendo e subindo as escadas do metrô, sempre. Sem um trabalho, sem um prato de comida, sem um amor, sempre. Porque é verdade que nada disso importava muito, e nada importava sempre, porque sempre sua ausência se impunha com a força de um furacão levando tudo mais embora. Sempre.


A verdade é que eu nunca estive na pior em Paris e em Londres, sempre. Porque eu nunca estive sempre em Paris, nem sempre Londres, nem sempre. A verdade é que todos aqueles punks em Picadilly Circus me pareceram por demais idiotas ainda mais quando os idiotas me quebraram o nariz e me torceram o braço e me chutaram as costelas como só os idiotas, os brutamontes, os imbecis, os mais-fortes-do-que-eu sabem chutar e quebrar costelas, sempre. A verdade é que você a tudo assistia e eu só me importava se o comprimento da sua saia não deixaria aqueles idiotas verem sua calcinha. A verdade é que eu nunca me lembraria nunca, jamais, sempre, de todas as suas calcinhas, nem daquela, minúscula, o cordãozinho de ouro cingindo sua cintura, sempre. A verdade é que em todos os aéreos em que embarquei, em todas as naves que singraram as águas calmas dos portos, em todos trens que saltei, sempre, antes da última estação, sempre pensei em você, sempre. A verdade é que todo esse percurso de fugas, de exílios, de ciladas, de drogas, sonhos, delírios, toda essa manada de elefantes no centro da sala, sempre, sempre, findaram me levando ainda mais próximo de você. Sempre.