sábado, 4 de julho de 2009

Transglobal underground


[Monica Vitti em L'avventura, 1960]



A verdade é que eu caminhava pelos subterrâneos, sempre. A verdade é que onde eu ia encontrava rapazes e moças com os braços espetados de seringas, sempre. A verdade é que todas as vezes em que estive em África eu contraí a AIDS, sempre, todas as vezes. A verdade é que todas as vezes em que fui ao Camboja me entupi de ópio, sempre. A verdade é que sempre que eu cruzava a rua você estava do outro lado, me esperando, sempre. A verdade é que cada vez que você sorria eu sentia um punho de dentes na boca do estômago, sempre. A verdade é que, naquela tarde, em Ollantaytambo, sempre, o vento assanhando seu penteado, sempre, a verdade é que no domingo de páscoa, em Panarea, sempre, em Panarea, sempre, Lisca Bianca, sempre, a verdade é que, naquela tarde, em Ollantaytambo, o vento assanhando seus cabelos, o vento desfazendo seu penteado, eu lhe abracei e evitamos cair do penhasco, sempre. A verdade é que eu sempre estive caindo de penhascos, rochedos, desfiladeiros, escarpas. Sempre.



A verdade é que eu subia e descia de bondes elétricos em Viena d’Áustria enquanto dormia as noites num quarto de hotel vagabundo em Viena d’Áustria e sonhava em ser escritor só porque no quarto de hotel vagabundo em Viena d’Áustria havia uma mesa e uma cadeira no centro da câmara com vistas para a estação de trens onde velhos nazistas me olhavam com raiva nos olhos e eu nem me importava porque tudo que eu buscava eram cigarros contrabandeados e um pouco de haxixe para mascar, sempre. A verdade é que quando te abandonei no mercado de pulgas de Paris com um lenço enorme cheio de arabescos indianos nas mãos eu queria fugir, sempre, porque, sempre, em toda a minha vida eu quis fugir de você, sempre. A verdade é que eu passei boa parte daqueles anos descendo e subindo as escadas do metrô, sempre. Sem um trabalho, sem um prato de comida, sem um amor, sempre. Porque é verdade que nada disso importava muito, e nada importava sempre, porque sempre sua ausência se impunha com a força de um furacão levando tudo mais embora. Sempre.


A verdade é que eu nunca estive na pior em Paris e em Londres, sempre. Porque eu nunca estive sempre em Paris, nem sempre Londres, nem sempre. A verdade é que todos aqueles punks em Picadilly Circus me pareceram por demais idiotas ainda mais quando os idiotas me quebraram o nariz e me torceram o braço e me chutaram as costelas como só os idiotas, os brutamontes, os imbecis, os mais-fortes-do-que-eu sabem chutar e quebrar costelas, sempre. A verdade é que você a tudo assistia e eu só me importava se o comprimento da sua saia não deixaria aqueles idiotas verem sua calcinha. A verdade é que eu nunca me lembraria nunca, jamais, sempre, de todas as suas calcinhas, nem daquela, minúscula, o cordãozinho de ouro cingindo sua cintura, sempre. A verdade é que em todos os aéreos em que embarquei, em todas as naves que singraram as águas calmas dos portos, em todos trens que saltei, sempre, antes da última estação, sempre pensei em você, sempre. A verdade é que todo esse percurso de fugas, de exílios, de ciladas, de drogas, sonhos, delírios, toda essa manada de elefantes no centro da sala, sempre, sempre, findaram me levando ainda mais próximo de você. Sempre.



4 comentários:

Anônimo disse...

A verdade é: que nunca é sempre e sempre é nunca?(rs) Ah, a verdade...ah, os subsolos... sempre parecem não chegar nunca. Hoje cada vez mais distante. No outro lado não enxergo horizonte nesse sábado que não faz sol. A verdade é que tá nublado lá fora.

Moacy Cirne disse...

Meu caro,
você hoje está no Balaio.

Um abraço.

Diz disse...

qrdo,vc escreve y
tão bonito...mas eu estou tão triste que as lágrimas não me deixam ler.
bjs elianne

Diz disse...

Hj li, vc é um romancista, deve saber disto- gostei mto.
Isto "Porque é verdade que nada disso importava muito, e nada importava sempre, porque sempre sua ausência se impunha com a força de um furacão levando tudo mais embora. Sempre". eu poderia ter escrito há um tempo atrás, acho que hj não mais, apenas na ficção.
bj elianne