quarta-feira, 31 de outubro de 2007

For your eyes only


A moça mais bonita da mesa tem olhos sonhadores.

Um sorriso encantador, desenhado a régua e compasso.

Cabelos negros como as asas da graúna e lisos como os de uma gueixa.

A moça mais bonita da mesa tem as unhas pintadas de vermelho, os braços longos e brancos, maçãs descoradas.

Os olhos escuros, profundamente escuros, redemoinho noir.

Os dentes perfeitos, trançados num sorriso em flor desabrochando.

A moça mais bonita fala com as unhas, com os olhos, com a boca.

Sei até o seu nome (ouvi-o, entre um discurso e outro), e, embora sente próximo à cabeceira, é o centro magnético da mesa comprida – além de a moça mais bela. Para ela são feitos todos os comentários, para ela brilham todos os olhares, para ela dirigem-se todos os garçãos.

A moça mais bonita da mesa está ao alcance dos meus olhos, mas não do meu abraço.

Ainda bem.

Só assim continuará sendo a moça mais bonita da mesa.


terça-feira, 30 de outubro de 2007

Eu vi Tropa de elite


Fui ver Tropa de elite.

Sessão promocional, R$ 7 inteira, R$ 3,5 meia.

O Cinemark botou pra trabalhar um casal de bilheteiros.

Não ligou nem o ar condicionado, coitados, um deles se abanava com um folheto de propaganda.

A fila se arrastava. Composta em sua maioria por jovens estudantes, todos de carteirinha na mão, só pioravam o tempo de espera.

Agora que eu vi o filme, entendo: estavam todos drogados, provavelmente emaconhados, playboyzinhos burgueses alimentando o tráfico à custa de seus vícios: marijuana e os blockbusters exibidos pela tal rede Cinemark.

Arrastavam seus tênis burgueses, suas sandálias havaianas burguesas, suas fardas de colegiais particulares, seus jeans de marca. Sem pressa, tá ligado?

Passei uns vinte minutos na fila.

Fui obrigado a ouvir as pérolas que os imberbes trajando farda de colégio religioso disparavam, às minhas costas, nas minhas oiças:

- Eu já tentei gostar de rock, mas. Presta atenção, presta atenção: todos caras que a gente conhece que ouve rock são todos abestalhados.

- Eu gosto de trilha sonora. Mas, pra ter – é meio ruim de ouvir, é pra ter...

Quantas crianças o morro não perdeu pro tráfico enquanto a estudantada burguesa desembolsava, preguiçosamente, três reais e cinqüenta pra assistir Tropa de elite, O homem que desafiou o cão, Jogos mortais I, II, III, IV e que tais?

Se eu já tivesse visto o filme, ah! Eu chamava na hora o capitão Nascimento. Pra dar um jeito na pivetada de bem e nos dois bilheteiros morosos. Depois, invadia aquelas salas privadas do Cinemark, onde o gerente sempre se esconde quando o cidadão tem algo a reclamar, a-ká-quarenta-e-sete numa mão, a outra fazendo aquele volteio no alto, sinal de circulando, que o Wagner Moura sabe fazer tão bem. O cabeção do gerente ia cair dentro dum saco de pipocas king size, com manteiga, sim, com manteiga! O cara ia sufocar até responder minhas perguntas:

- Por que não colocar mais gente pra trabalhar na bilheteria, especialmente em dia de promoção?

- Por que a pipoca custa tão caro?

- Por que não exibir ao menos numa das salas – uma! – um filmezinho melhor?

Tudo bem, tem Baixio das bestas...

Mas Baixio das besta eu já vi, caralho!

Porra!

Puta que pariu!

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

As bestas


Caio Blat encarna nós, moços e moças nas janelas indiscretas do mundo [foto do site do filme]

Os 9,5 leitores deste blog não devem confiar no subscrito para manter-se atualizados sobre qualquer assunto, aviso.

Quem avisa amigo é, diz o ditado. Eu, não.
Sexta passada, por exemplo, outubro já nos seus estertores, me obrigo a assistir ao Tropa de elite. Não vi nem em dvd pirata. Devo ser o último silvícola que ainda não fez contato com o tal capitão ou comandante Nascimento.

Imbuído deste sentimento de culpa cristã, vou procurar a programação dos únicos cinemas decentes de Cidade dos Reis – todos indecentes, diga-se de passagem.

Tropa de elite tem horários a dar com o rodo: a partir da décima terceira hora o telespectador é mais bem servido que muita linha de ônibus. Eu disse telespectador? É como se deve chamar os freqüentadores dos cinemãos pop corn.

Mas eis que um título, pura poesia, me chama atenção no meio das palomitas: Baixio das bestas. E me desvia da mira do tal Nascimento.

O que eu sabia de Baixio das bestas pra querer ver tanto esse filme?

Pouca coisa:

Que é da turma de Pernambuco, uma espécie de linha cruzada, no celulóide, com o mangue musical de Chico Ciência e companhia.

Que é da linha toda maldade será recompensada – estupros realísticos, prostituição infantil, bas-fond sem maquiagem nem efeitos especiais.

Que os críticos do Sul Maravilha caíram de cacete, no filme e em seu diretor, Cláudio Assis – apesar de prêmios importantes em Brasília etc.

Lembrei especialmente de um artigo da Piauí, naquela seção – “esquina” – onde são desovadas as matérias que eles julgam não merecer as dezenas de páginas que outras merecem e com as quais se traveste de new journalism e que tais.

Lembrei também que deveria me preparar pra ver o filme em meio ao barulho de sacos de pipoca e embalagens plásticas de bombons e ao ruge-ruge da plebe menos interessada que eu nas margens (intelectualóides) da vida.

Fui.

Primeira surpresa, o ingresso a tão somente quatro reais. Brasileiro adora se dar bem, eu inclusive.

Segunda surpresa, o gordinho meio bicha que sentou-se quase, eu falei quase, ao meu lado, e estreou a garganta profunda com um Posso começar a comer? Seguido do fru-fru dos plásticos.

Pois, o rapaz não deu um pio durante todo o filme, o que me desconcentrou um pouco, confesso.
No mais, Baixio das bestas ficou por ali, se equilibrando sem grandes emoções nem perigo algum de despencar prum lado ou outro do muro.

É tão bem feito em seu rudismo agreste, tão realista em suas paisagens canavieiras, tão íntimo o olhar com que veste e despe personagens, tão normais as fisionomias dos atores, noves fora o cabelo cenoura do Matheus Nartche... Nachtenga... bom, vocês sabem o nome – enfim, tudo desce redondo, feito propaganda de cerveja. Só que sem o glamour da propaganda de cerveja, se é que vocês me entendem.

Baixio das bestas me lembrou Ritual dos sádicos, 1970, José Mojica, Zé do Caixão, Joe Coffin. O despertar da besta era o título original, censurado durante décadas. Isso, essa lembrança, antes de sexta-feira. Depois, visto o filme, as semelhanças continuaram através das diferenças: enquanto Ritual é a caricatura de um grupo de pervertidos nos anos 70, em Sumpaulo, Baixio é o retrato de grupo de um grupo de jovens normais nos anos 90 ou 00, na Zona Canavieira, Nordestão brazuca. Um era cinema fantástico, o outro é quase cinedocumentário, realismo, neo-realismo, velho-realismo.

Não é o grande mérito do filme, como me questionou um amigo. Mas é inegável que o retrato de Claúdio Assis para os canaviais, as vilas interioranas, os postos de beira-de-estrada e seus habitantes é um retrato sem retoques. Sem aquela pátina verniz brilhante a que nos acostumou o padrão dito global.

(Parêntesis: o blogueiro lembra-se muito bem quando, décadas atrás, nas ladeiras de Olinda, o repórter da Globo preparava-se para entrar no ar e mandar via éter o mais que famoso carnaval pernambucano e a plebe começava a berrar: O Povo não é bobo, abaixo a Rede Globo! Fecha parêntesis.)

Talvez seja isso o que realmente incomoda a uma fatia dos críticos: o descompasso com a estética edulcorada da emissora do Coronel Marinho; a contramão com que rejeita, e foge até, da estética de um Cidade de Deus, pra citar outra exemplo da exceção que influencia, pós-sucesso, a regra.

A reconstituição da casa do personagem de Caio Blat é exemplar. E só plenamente reconhecível em seus mínimos detalhes por quem vive há tempos no Nordeste. Errado, ainda, classificar os garotos como “agro-boys”. Eles fazem parte, sim, de uma elite, mas sem a distância abismal que vemos no interior de São Paulo, e mesmo no Nordeste.

Também os atores e atrizes – embora alguns, vez em quando “globais” – não têm aquele sotaque ridículo de telenovela mal acochambrada. Os diálogos soam naturais, há um excesso, sim, de palavrões, mas nada que contrarie a realidade do cotidiano.

É preciso ser muito besta pra pensar que o retrato sem retoques de Baixio seja o único de uma região com mil e uma diferenças e outras tantas semelhanças. Mas é inegável que o foco escolhido – mais para satisfazer e em função da estória em si – é apurado e fiel àquela porção e realidade que aborda.

Alguém falou (Ricardo Calil, na Folha) que a estética de Baixio é “a estética do choque e o desejo de transgressão”. Que Assis é um “dos cineastas brasileiros especializados em personagens e situações sórdidas”, embora reconheça ser “o mais talentoso”.

Sinceramente, Baixio choca porque tem uma história chocante a contar. É sórdido porque é sórdida a vida, nos grotões ou nas metrópoles. E só é transgressivo para quem se acostumou tão somente aos adultérios e assassinatos das novelas das oito. Não é um grande filme enquanto Cinema. Não tem arroubos memoráveis, não desconstrói nenhuma linguagem cinematográfica, não ousa, a não ser no tema e no tratamento cru com o qual o aborda. Não acredito que tenha – apesar do início em tons de manifesto contra o ciclo, “civilização do etanol” – a pretensão de tratado sociológico, de denúncia, de auto de inquisição. Não tem o desejo explícito nem implícito de empurrar moral alguma na goela do espectador. Não é imoral, ilegal, nem engorda.

Os bestas | Piauí, RJ; Piauí, SP

Piauí: ambígua como o título, não consegue esconder a acidez com que investe contra os mitos de ontem pra chutar os vira-latas vivos de hoje. [foto do site da revistona]

Se não me entusiasmou, Baixio das bestas ao menos me serviu pra desenterrar um texto entravado na goela desde que li a Piauí número 8, maio de 2007, e que foi a gota d’água pra eu deixar de comprar a revistinha cu’l’t (não deixei de todo, nem esse foi o único motivo, mas, diminuí o ritmo).

A crônica (quase policial) da Piauí começa com ares de jornalismo-verdade:
“Na madrugada da última terça-feira do mês passado, Raquel Cristina, de 18 anos, foi morta a tiros quando voltava para casa com um amigo. Ela morava em Afogados da Ingazeira, no interior de Pernambuco. A polícia suspeitava de que a jovem tivesse sido assassinada pelo namorado ciumento, que matou também o amigo que a acompanhava. Pelas contas do Fórum de Mulheres de Pernambuco, Raquel foi a 96a mulher assassinada no Estado nos quatro primeiros meses de 2007. Como explicar que a violência contra mulheres bata recordes em Pernambuco? Como dar forma artística ao horror de sociedades patriarcais e machistas?”

Eu me apresso em retrucar: e que diacho Baixio tem a ver com isso? O articulista da Piauí apressa-se em responder: “Baixio das bestas lida com as duas questões. O filme, que se passa na Zona da Mata pernambucana, mostra o horror com agrado e crueza.”

Não me passou pela cabeça que o diretor pernambucano desejasse “lidar com as duas questões” – nem comentar a violência contra as mulheres, em PE ou alhures, nem tampouco enfatizar o machismo das sociedades patriarcais (tem um “nordestinas” enfaticamente implícito no termo adotado, como se a turma do café fosse mais civilizada). Tampouco vi agrado nenhum em sua representação do “horror”.

O preconceito da revista sul-maravilhosa contra os nordestinos é descarado. A começar do nome adotado, em tom pretensamente engraçadinho e inócuo. Depois de contar o enredo, o autor (anônimo) do artigo continua:
“O filme é tão repulsivo, tão estúpido, tão abjeto, que dá até vontade de interpelar quem o concebeu, o auteur pernambucano Cláudio Assis, diretor de Amarelo manga.”

Notem o uso irônico do francês, desejando um contraste gritante com a origem nordestina do diretor. Mais pra frente o texto ainda refere-se ao filme de Assis como “sua oeuvre”.

A revista, e seu representante, são desde o inicio mal-intencionados: “Marcou-se um almoço na Casa da Suíça, restaurante antigo e simpático no decadente bairro da Glória, no Rio.” Tipo: vamos levar o nordestino, “auteur”, ao Primeiro Mundo. Ora, sem essa aranha: os repórteres andam vendo muito filminhos tipo Pretty woman, e queriam, mesmo, dar uma lição nos paraíbas, levar a classe baixa ao paraíso para que se apercebam do devido lugar. Os adjetivos pululam, como sapinhos na lagoa, nem um deles à toa: “antigo”, “simpático”, “decadente”.

Texto original, sem subtítulos: “Assis chegou um pouco atrasado. Com 46 anos, vestia o uniforme dos adolescentes filhinhos-de-papai: jeans, camiseta estampada fora da calça e boné enterrado na testa. Demonstrou também os modos (estudadamente) mal-educados de um púbere mimado, pois almoçou sem tirar o boné e pontuou todas as frases com palavrões. Pediu um steak tartare, que nunca havia provado.”

Querem os subtítulos? “Nordestino mal-educado pobre desejoso de ser quem não é não apenas em relação à idade mas também à classe social comporta-se naturalmente mal cagando já na entrada enquanto dos pretos espera-se ao menos que aguardem a saída para justificar suas origens territoriais”.

Aliás, que merda é steak tartare? Eu nunca provei. Abaixo-assinado aí nos comentários pra quem também não provou.

Ah, mas a revista não dá ponto sem nó – a explicação do prato vem sutilmente no parágrafo seguinte, acompanhada da bandeira hasteada do preconceito:
“Como era de se prever (em se tratando de um pernambucano macho paca) adorou o prato de carne crua.”

A explicação, para os desvarios do ingnorante cineasta, é lógica – além de nordestino, tem idéias esquerdistas: “Como também era de se imaginar, Assis se disse um artista de esquerda. Na juventude, chegou a freqüentar uma organização comunista. ‘Saí do partido porque não queriam que eu fumasse maconha, bebesse e falasse palavrão’, afirmou. ‘Ora, eu sou um homem do povo, bebo e falo palavrões.’”

Destaco, ainda, outros fragmentos do texto do legítimo auteur piauiense dos baixios do Leblon e Gávea:
“Foi com amolação que ouviu o argumento de que Baixio das bestas se compraz em mostrar a nudez da garota Auxiliadora, interpretada pela atriz Mariah Teixeira (que é maior de idade, mas parece uma adolescente). O cineasta não se agüentou, e interrompeu: ‘Mas eu quis mostrar o que é a exploração!’ Mas, então, por que a câmera se deleita em exibi-la, durante um tempão, tomando banho de rio, só de calcinha? ‘Porque eu precisava mostrá-la no espaço dela’, respondeu. Ficou definitivamente agastado quando lhe foi dito que a cena é uma exploração, é manipulativa, baixa e resvala na pornografia de inspiração pedófila. ‘A pedofilia está em você’, atacou. Assim, não há debate intelectual que vá adiante. Briga de homem cheira a sangue.

Não, meninos, não. Haverá quem se excite com a adulta com ares púberes. Eu, inclusive. Não por parecer uma menina, mas por ser uma mulher nua, e a nudez é excitante, inútil dizer que não é. E não é a mesma editora Abril, que comercializa e distribui a Piauí, a redentora de centenas de mães brasileiras cujas filhinhas expõem suas vergonhas na cara de milhares de leitores e assinantes ao custo de dez, doze reais, preço de capa?

Mas a tal da cena, na opinião do subscrito, é totalmente inserida no roteiro: ela acontece quando a menina começa a despertar, ainda mais conscientemente, sua própria sexualidade, antes um mero objeto do prazer voyeurístico da macharia. E antecipa a ruptura que acontecerá na seqüência, quando ela se livra do avô sacana, pra cair na vida de puta de beira de estrada – uma independência obviamente discutível, mas natural. Ou alguém acredita que mulher bulida, em Nazaré das Farinhas, Sorocaba ou Copacabana pode ainda encontrar um príncipe encantado?

Ainda: debate intelectual? O dândi sulista, jornalista refinado, contra o brucutu pau-de-arara, caga-lona? (A propósito e em tempo: no sítio da Piauí a matéria vem assinada, ao contrário da edição impressa, por Mario Sergio Conti).

“O cineasta, que tomou duas taças de vinho, parecia feliz da vida com o que tinha a dizer, no filme e no almoço.” Opa. Recado a quem ouse denunciar os males do país: nada de vinho, nada de sorriso na cara, nada que contrarie o discurso engajado.

Piauí ainda tem tempo de denunciar o macho pernambucano, que teve a ousadia de vencer no estrangeiro conquistando prêmios para o tal Cinema Nacional (que recusa-se a sair do eixo Rio-Sp), acusando-o de refocilar-se (tragam-me o Houaiss, please) “no sadismo misógino”, sintonizado que está “com o imaginário perverso dos tempos que correm”.

E conclui, com a pretensa chave-de-ouro do jornalismo-verdade, este, sim, legitimamente engajée: “Pobre Raquel Cristina, que vivia na realidade.”

Raquel Cristina é a coitada lá de cima, que entrou no texto de gaiata, na tentativa nobre do articulista anônimo de mostrar a Cláudio Assis como se faz jornalismo-denúncia.

A propósito: o país já acabou com as saúvas?


Revista Piauí. Editora Alvinegra. Rua do Russel 270 4º andar Rio de Janeiro. Avenida 9 de julho 5966 cj 21 São Paulo. www.revistapiaui.com.br
Baixio das bestas. Filmado em Pernambuco.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Quando conheci o gelo



Na base do chutódromo, oito em dez habitantes do planeta só conhecem a Islândia porque ali nasceu Björk.

A moça tem um quê de adolescente oriental, uma pitada de Jodie Foster americana em Taxi driver, um tanto de Alien, oitavo passageiro, prenhe e disposta a tudo para defender as crias.

Sendo assim, a Islândia parece ter sido criada com um único objetivo: fazer nascer ali a criança. Que já vem à luz mulher. Que nem aquela outra, nascida da cabeça do pai e vindo a termo com uma machadada na moleira divina, coberta de sargaços e espumas.

Rainer Maria esperaria anos para ver em carne, osso e voz sua sentença terrível sobre os anjos.

Björk esperou alguns discos para se tornar cada vez menos. Como um diamante lapidado, retirado da pedra bruta toda e qualquer impureza, reduzindo o excesso ao essencial. Como um bloco de mármore nas mãos de Miguel Ângelo. Uma tempestade que vem do mar e engole a terra.

Björk é aquele filhote satânico que todo mundo pensa que viu no berço de Rosemary e que Polanski nunca filmou.

No primeiro álbum, a menina era um iceberg iniciando seu degelo. Em Vespertine restou uma pedrinha, misturada a outras e varridas pelos pés numa estranha sonoridade plena de som e fúria. Em Medulla o inconcebível transborda.

Retomando Polanski, música para ninar demônios.

Um Aleph musical. Cego, como a mãe solteira de Dançando no escuro. Como Borges, no labirinto da Biblioteca Nacional, ouvindo ruídos atemporais no ventre da baleia – Sim, o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos de todos os ângulos.

Chamai-me Björk, poderia ter dito a moça, antes de embarcar no Pequod do Capitão Ahab. Antes do leviathão. Björk, esculpida da mesma matéria do arpão de Queequeg, e profundamente íntima do coração das baleias.

Os dias confortavelmente frios, claros, ressonantes, perfumados e redundantes, eram como taças de cristal cheias de sherbet persa, coberto de flocos de neve e água de rosa. E viu Melville que era bom.

E faltando costelas de homens na ilha, a criaram do manto de um homem que jogava xadrez – o esporte mais violento que existe, segundo Karpov – na companhia de um certo Antonius Block, não muito longe dali.

- É desde muito que caminho ao teu lado.

A carroça está parada sobre um abismo, protegida pelas sombras de uma grande árvore. Uma ampla vista se estende sobre as colinas, os bosques, a vasta planície e o mar que cintila sob os restos de sol. E viu Bergman que era bom.

Björk ouviu Block perguntar: Por que não posso matar Deus em mim mesmo? E respondeu. Debut, 1993, Post, 1995, Homogenic, 1997, Vespertine, 2001. Medulla, 2001. Como Borges, visitando a casa da rua Garay e aproveitando o gesto cortês e irrepreensível (ele acrescenta ainda um iniludível) para percorrer os olhos nos muitos retratos de Beatriz Viterbo.

Em 93: recém-desperta, os cabelos assanhados, as mãos postas em oração, surpresa ou entrega, pérolas lacrimejando os olhos escuros. Um suéter espinhento agasalhando a manhã invernal.

Em 95: dressed to kill babies, verde-oliva nos olhos, camisa de colegial imaculada, maquiage, inchiostro colorido indelével, uma algazarra de nações, mundos admiráveis, Oh, it is so quiet.

Em 97: nipônica como uma gueixa de Guerra nas Estrelas, o pescoço anelado ecoando uma África glacial, os olhos falsos apertados, a boca de matrona de cabaré, o penteado a la Mickey, The Mouse. As unhas postiças. Tudo tão cheio de amor e minas humanas.

Em 01: p&b mediterrânico, transe ensolarado, entrega e proteção, uma Leda arrebatada por um cisne encantado, fecundado black lies and dark currents. Os lábios brilhando, ecoando dentes sutis, narinas abertas, pálpebras em R.E.M. As mãos contorcidas tecendo e desfazendo tapetes, recusando amantes, adiando o retorno à ilha.

Em 01: as mãos na cabeça num espanto surdo, no gesto de mascarar, personificar cada vez mais o abismo, revelar os seios nus, prontos a amamentar os filhos pagãos e os répteis de alma vivente; os cabelos desfiados; a boca entreaberta. O colorido pálido e barroco.

Your love was sent to me. I am not sure what to do with it. You show me continents. – I see islands. I am a tree that grows hearts (my love). One for each that you take. How can I ignore? This is sex without touching. Violently happy.

Uma moça estranha. A única com coragem suficiente para grafar cumings em maiúsculas: E. E. Como dois cubinhos de açúcar.

Nunca ouviu muito rock. Nunca ouviu muito punk. Se ouvia algo era Brian Eno. Se houvesse um guitarrista ele seria Robert Fripp. Não esperem que a adolescente ouvisse Kraftwerk – ela prefere citar o DAF, banda alemã, de Berlim pré-muro, rive gauche no mapa de antanho. Era o que ela ouvia lá pelos 14, 15 anos, quando ainda era um nome impronunciável, Gudmundsdottir, indisposta em escolher entre as pedras pretas e as brancas, entre a disco e o rock, entre o mal e o bem. De uma ilha a outra, encontra em Londres outros imigrantes como ela: Tricky, Talvin Singh, Goldie. A nova geração de londrinos, nascida entre os escombros do Império que desconhecia crepúsculos. Eles não eram ingleses, eles não eram indianos ou jamaicanos, eles não eram nada, conta Björk em entrevista reproduzida no Livebox, 2003.

(O português da Ilha da Madeira) Luís Jardim tocou com ela em Debut. Eumir Deodato fez os arranjos para as cordas de Hyper-ballad e You’ve Been Flerting Again, de Post, e está em um modo bem mais intenso em Homogenic. Björk se refere, em entrevista a uma revista italiana, a um disco de Milton Nascimento arranjado por Deodato, safra 1967, como memorável, onde sente continuamente a tensão entre os dois artistas, o popular Milton, decididamente brasileiro e vindo das ruas, e o clássico Deodato, vindo do conservatório e das escolas européias. Associa essa tensão às próprias raízes: Na Islândia vivemos essa dualidade muito forte entre natureza e tecnologia. Os espaços abertos e uma natureza não totalmente sob controle, e uma sociedade evoluída tecnologicamente como poucas outras no Ocidente.

O disco a que se refere é provavelmente Travessia, arranjado, na verdade, por Luiz Eça – Deodato faria apenas os arranjos originais da música-título e de Morro Velho. Milton chegou ao Rio para o Festival Internacional da Canção e, segundo ele mesmo, foi adotado por Deodato, que só fez o arranjo das músicas sob a condição de Milton cantá-las. No dia seguinte partiu para os Estados Unidos.

Não sei se Björk entendeu o título do disco, nesse xadrez pleno de travessias: Deodato que vai para a América, Milton que vai ao Rio, os pais jamaicanos de Tricky e Goldie que vão para a Inglaterra, para aonde também migram as raízes de Singh. E ela mesma, pulando da Islândia, de uma ilha à outra. Países continentais, Índia, Brasil, ilhas no topo do mundo musical, Jamaica, Inglaterra, Islândia. You show me continents. – I see islands, lembram-se?

Minha casa não é minha nem é meu este lugar. No encontro entre o preto Milton e o branco Eumir, Björk reconhece a mistura explosiva dela mesma com os cidadãos de segunda classe, para quem as novas sonoridades musicais funcionam como um passaporte, mais que social, de sua própria identidade. Posso ser apenas uma garota que cresceu em Reykjavik e orgulhar-me disso? – pergunta sem esperar uma resposta. Excuse me. But I just have to explode. Explode this body off me.

Todo esse Maelström racial tampouco soa novo: a citada DAF, acrônimo para Deutsch Amerikanische Freudschaft, ou amizade germano-americana, formada um ano após os Robots do Kraftwerk, tinha entre seus pares um certo Gabi Lopez Delgado, que vinha da primeira banda punk alemã, o Mittags Pause. Isso na virada 70-80.

É por isso que muita gente define a música de Björk como do outro planeta. Dizem o mesmo de Tricky. Diziam. E do Sigur Rós, provavelmente o produto islandês que mais se aproxima – mas bem longe – do fenômeno Björk, de quem é uma espécie de lado b, ou, por que não? o equivalente do CD para a fita k-7 original (embora Björk, convenhamos, noves fora os Sugarcubes, pariu-se em pleno auge do Compact Disc – e é isso que nos fascina: parecer bem mais antiga do que realmente é).

O planeta distante da islandesa é aqui mesmo, em outra latitude, mais embaixo, um terceiro mundo, não na acepção original do termo, mas como uma terceira via: Não viemos de onde estão nossas raízes, não viemos de onde vivemos, nosso mundo é um terceiro, uma mistura daqueles dois. A menina provinciana que parte para conquistar a grande cidade esperou dois discos para se autoproduzir. Debut foi produzido em parte por Nellee Hooper, que vinha de um trabalho com o Soul II Soul. Enquanto preparavam Post, Hooper perdeu o interesse e Björk encontrou em Tricky, Graham Massey e Howie B. alguém para misturar o caldeirão. É a partir de Homogenic que assume realmente a artista que já era, e, não acaso, quando decide conscientemente retornar às raízes islandesas, embora paradoxalmente as busque na Espanha.

É possível que venha daí o bolero eletrônico que é Hunter, orquestrada é dirigida por Deodato? Lembra Virginia Woolf descrevendo a memória ancestral do cocker spaniel de Elizabeth Barrett Browning: Ouvia homens morenos gritando ‘Span! Span!’ Ouvia chicotes estalando. Corria, disparava.

If travel is searching and home has been found I am not stopping I am going hunting. A grande metrópole já não lhe basta, e é por essa época que Björk entende que não existem mais fronteiras entre a natureza e a cidade e os limites devem ser abolidos. Solto a voz nas estradas, já não quero parar, meu caminho é de pedra, como posso sonhar.

Não é acaso que os islandeses amem tanto a literatura sul-americana, muito mais que aquela européia ou americana, finaliza aquele seu discurso sobre a dualidade tipicamente islandesa. É provável que tenha lido García Márquez e seus Hundrað ára einsemd, a tradução para Cien Años de Soledad. E como muitos se encantado com o primeiro capítulo: Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. É a descrição exata da sensação de ouvir Björk pela primeira vez, de como se meteu na memória do Coronel, então um garoto em Macondo, a chegada anual dos ciganos, sempre nos marços, com um grande alvoroço de apitos e tambores, pífaros e guizos, dando a conhecer os novos inventos – bolas de vidro para dor de cabeça; o imã, a oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedônia; o óculo de alcance e a lupa, as últimas descobertas dos judeus de Amsterdam; a dentadura, a mais fabulosa descoberta dos nasciancenos; e, a última e assombrosa descoberta dos sábios de Mênfis, que, segundo consta, tinha pertencido ao Rei Salomão: o menino entra com o pai e o irmão na tenda cigana, onde havia um gigante de torso peludo e cabeça raspada, com um anel de cobre no nariz e uma pesada corrente de ferro no tornozelo, vigiando um cofre de pirata. Ao ser destampado pelo gigante, o cofre deixou escapar um hálito glacial. Dentro havia apenas um enorme bloco transparente, com infinitas agulhas internas nas quais se despedaçava em estrelas de cores a claridade do crepúsculo. Desconcertado, sabendo que os meninos esperavam uma explicação imediata, José Arcadio Buendía atreveu-se a murmurar:

- É o maior diamante do mundo.

- Não – corrigiu o cigano. – É gelo.

E sempre que alguém dá com os ouvidos na música de Björk, a sensação é a mesma de Aureliano Buendía aproximando a mão da pedra e retirando-a no ato:

- Está fervendo!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Tradição



Aos olhos da ciência nenhum desejo é inalcançável, nenhum segredo inviolável, nenhum mistério insondável, nenhuma conta imensurável. E poderíamos seguir nos adjetivos-áveis por léguas sem cansaço se eu não quisesse revelar logo a deixa para esse palavrório: pois, pigarro de quem limpa a garganta, nas páginas virtuais leio que os gays ganham 23% menos que os hetero. Vou investigar, que sou da turma do jornalismo investigativo (em Cidade dos Reis a coisa resume-se a navegar nos triplos dabliús): a manchete muda, de cara – são os homens gays, meninos, não as lésbicas, quem ganham menos.

E por que ganham menos? Por conta da discriminação dos patrões, ora bolas! O almocreve entra lá, todo lânguido e faceiro, o empregador o mantém à distância por trás do birô e tasca-lhe a língua ferina: quer dar o fiofó, meu rei? Queimar a rodela, a rosquinha? Pois, 23% a menos nos seus rendimentos.

Como os chatos dos patrões chegaram a esse valor não se explica. Se fosse no país do jogo do bicho (no masculino, por favor, que o blog é politicamente correto), 1% a mais e as contas bateriam.

Já os bissexuais não entraram na pesquisa, feita por uma universidade americana num período de dois anos. Suponho que ganhem menos, sim, mas noves fora os chutes, digamos, uns 11,5%.

Por falar em gays e preconceitos, semana passada mandei o carro pra lavar, que já estava pedindo o dedo dum daqueles meninos de antigamente a escrever na poeira do vidro: por favor me lavem! Limpa daqui, aspira dali, mexeram, os safados da equipe a jato, no amplificador do som – resultado: um barulho surdo e ininteligível de caixa estourada. Uma semana depois, que o tempo urge infelizmente pra outras melodias e notas que não as musicais, levo o som, carro e tudo obviamente, ao técnico. Mexe daqui, bole dacolá, o som explode, pra vizinhança toda ouvir, o cd que estava, pois, no cd player – que eu já nem lembrava qual fosse.

Era Realce, de Gil.

Era a faixa 3, Super-Homem, A Canção, justo no trecho, o super bass, mega bass, bom the bass, ativadíssimo:

Que nada / Minha porção mulher, que até então se resguardara / É a porção melhor que trago em mim agora...

Confesso que fiquei encabulado.

Senti-me como um gay a quem, de repente, no meio da rua, lhe tolhem, não do armário, mas o armário inteiro, vupt. O danado do armário onde até então ele, justamente, se resguardara.

Confesso que, eu, que não me considero um cara preconceituoso, tenho amigos que, agora sei, ganham vinte e três por cento menos etc, enfim, confesso que me perguntei a mim mesmo, entredentes: que porra esse disco tá fazendo aí?

O técnico, pelo visto e ouvido, também sentiu-se incomodado: apressou a pular a faixa, para, olha só, Tradição:

Conheci uma moça que era do Barbalho...

E respiramos todos aliviados. Em meio à potência viril de mil e tantos watts, nenhum por cento menos, nenhuma purpurina mais.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Crônicas de mortes anunciadas


Para Odilon Garcia


Inexorável, como o tempo, a Cidade Velha vai ficando pra trás.

Como seus velhos, incapazes de seguir adiante, sem forças pra cumprir os dísticos Velociter e o da cachorra Aparecida, o de “correr sempre para a frente”.

Aliás, não ficam pra trás: são derrubados, destronados, desconsagrados, sem dó nem piedade, a não ser aquele pouquinho que paira como névoa tênue nos velórios que se sucedem a toque de caixa, fast funeral.

Como as velhas casas, derrubadas da noite para o dia para dar lugar, primeiro, a um terreno vazio, limpo e asséptico e terrivelmente plano, um breve clarão, clareira, entre o erguer-se impetuoso de novos prédios e o apagar-se das ruínas renovadas que assombram quem ainda resiste de pé; depois, para receber as gaiolas de aço, vidro e concreto com seus desejos explícitos de ascensão social.

A nova cidade não nasce: é edificada sobre os escombros da velha, sobre as memórias que não mais brotarão, sepultadas para sempre nos cemitérios, última morada da Urbe, real, viva. A cidade lembrada por Cascudo, citando Pierre Lavendan, como “um ser vivo”, e que, “como todos os seres, ela nasce, ela cresce, ela morre”, rejeita a si própria, refuta a própria orfandade, abraça um futuro que ignora qualquer sombra ou semelhança com o passado.

Se em 1946, Cascudo afirmava “A Cidade do Natal é uma perspectiva indefinida”, meio século depois a perspectiva é das piores. O novo ser vivo nem clone de si mesmo pretende ser. É apenas o fake do fake do fake.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A Paris de Zé Bezerra






Paris

Uma

maçã

no caminho

[José Bezerra Gomes, “Paris”]

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Canto de sala


Natal, 10-8-56
OTONIEL

NEWTON NAVARRO

"VERGONHOSA situação a nossa deante daquele homem calado e doente, sentado num canto de sala, preso da doença e da injustiça dos homens. Vergonha para todos nós a situação desse homem. Ferido pelo mundo e pelos homens aguarda, solitário, numa sala humilde a sua grande hora. Não tem desespero. Tem um olhar de distância e uma palavra de ternura ainda, para os que aparecem na sua casa. O Grande Poeta! O príncipe da poesia potiguar! O meu grande Otoniel Menezes... Ah, velho e ingrato mundo! Tortuoso mundo em que o poeta vive das suas tristezas e dos seus pesares.
Que fez ele, o cantor magistral da Praieira contra os homens e contra a Cidade? Que mal ou que maldição escreveu a sua pena de humildade e de beleza contra ti, minha cidade do Natal? Que ferida riscou ele em tua carne de sentimento para que o maltrates tanto na sua desdita? Otoniel Menezes, penso demoradamente em ti, nesta tarde. Quero ser teu irmão na desventura com que os homens de poder premiaram o teu grande e fecundo coração de Poeta. Estou ao lado nesta sala calada em que meditas. Quero para mim um pouco dessa mágoa que faz sombra em teu rosto. Participo dessa melancolia com que olhas do alto do teu silêncio ferido as torres da Cidade Perdida a que deste a melhor parte da tua alma. Meu irmão mais velho, Otoniel Menezes, sinto a tua alma junto a minha, os teus versos soluçam em meus ouvidos. Mas há uma solidão enorme que nos cerca. Os homens renunciaram a missão de ter vergonha. Não te olham, não te agradecem, fecham os olhos para a beleza dos teus cânticos. Adoeço de mágoa. Fecho janelas desesperadas que se abrem para um mundo vil e sujo. Pobre Cidade minha. Tanto que te quiz e ainda te quero, que mão pesada jogas sobre a cabeça encanecida do teu Cantor maior! Vergonhoso gesto dos teus mandatários tirando da mão trêmula do Poeta o pouco com que lhe premiaram o valor e a pureza dos seus versos. Ingrata Cidade que mataste Itajubá e feriste Jorge Fernandes, pára um pouco a mão impiedosa que rasga a alma do Poeta de Praieira. Já sofreu demais este homem. Deixa ao menos que nos seus dias finais possa ele cantar como fazia, o teu encanto de mulher entre um rio e um mar e sustentando entre as mãos um sol vivo e verânico, como uma rosa de fogo."

As torres da Cidade Perdida


Mais adiante, em outro recorte, Navarro homenageia o ingresso de Veríssimo de Melo na Academia, e volta a citar Othoniel: “A Academia já começava a ser injusta, como injusta continua a ser para com o nosso Príncipe Otoniel Menezes, que por mais incrível que pareça sofre hoje, além da injustiça literária (para que liga muito pouco) uma injustiça maior: o quase desemprego”.

Sanderson Negreiros já havia homenageado o autor de Praieira no dia 7, mesmo agosto 56, publicando UM POEMA PARA OTONIEL MENEZES: “Distante, já ouvimos o rumor / aflito dos pássaros da treva. / [...] Velho Otoniel, poeta sofrido / [...] Venho e virei, inseguro na voz, / inquieto no meu desígnio, / saudar o destino de tua mensagem / agora testemunho ardente de minha carne.”

E Myriam Coeli de Araújo, sem data, provavelmente mesmo período, intitulado OTONIEL: “Nosso grande amigo Otoniel, nosso irmão de Poesia, sofre a injustiça dos homens sentado em sua cadeira na sala da casinha humilde, acompanhado de sua tristeza, de seus livros e de sua Maria que lhe é o maior bem”.

Por que diabos falo em Othoniel – prefiro a grafia com agá – se este morreu em 69, se Navarro morreu em 91, se Dona Salete, que nem poeta era, ora bolas, morreu em 07? Ela, Maria Salete de Souza, professora da Escolinha Cândido Portinari, que casou com o poeta em 1980. Ela, que no hospital – me contou Taciano Arruda – perguntava e pedia pela cachorrinha “Cidinha”, Aparecida, como a cadela de Beira-rio – aquela outra, que não queria mais voltar pra Redinha, por temor ou desprezo ao outro lado do rio.

Porque, porque, porque. São tantos porquês. Tantas respostas. Releiam NN, meio século atrás: “Ingrata Cidade que mataste Itajubá e feriste Jorge Fernandes, pára um pouco a mão impiedosa que rasga a alma do Poeta de Praieira”. Releiam Jorge: “Eu avancei para muita coisa e terminei em nada”. Releiam Itajubá: “Natal, quando eu morrer, apaga-me da lembrança”.

Esqueçam aquela ponte, de nada para lugar algum. Esqueçam Navarro, Luís Carlos Guimarães, Berilo Wanderley, Oswaldo Lamartine, preparem-se para esquecer outros, tantos quantos hão-de, preparem-se para apagar o que importa do incômodo da lembrança.

Parem de perturbar os mortos com essas homenagens post-mortem, com esses títulos vazios, com esses descerrares de placas de bronze, ouro-de-tolo. Aprendam com Aparecida, da Redinha, de Beira-rio: “Ganha o alto da duna, vadeia por entre o mato ralo, alcança o emaranhado das redes estendidas ao sol, atira-se, entotecida por entre as velas que enxugam, e ganha, por fim, a proteção das primeiras casas. O coração pulsa violento. Meio palmo de língua roçando a areia e os olhos nublados. Não tenta olhar para trás. O certo é correr sempre para a frente”.

sábado, 20 de outubro de 2007

Navarro


Morreu hoje Salete Navarro, viúva do pintor, poeta, cronista, boêmio e homem de mil e uma qualidades Newton Navarro.

Não conseguiu vencer a doença que a atingia, cruelmente, como todas as doenças.

Tampouco conseguiu ver inaugurada a ponte sobre o Potengi, que leva, levará, o nome de NN. Sabe Deus quando. Uma demora inexplicável, da parte dos responsáveis por sua construção. Uma indiferença generalizada e apática da tribo nativa que se espreme às suas margens, droit, gauche.

Não se pode dizer que morreu abandonada, como quase morreria Newton, se não fosse a intervenção, à época, do amigo Taciano Arruda, que pediu a intervenção do primo, Cassiano Arruda, que por sua vez falou com o governador de então, José Agripino, que providenciou a transferência de NN do Walfredo Gurgel para a Casa de Saúde São Lucas, num jogo de dominó surreal que findaria na sua morte, pois, em 91.

Em 10 de agosto de 1956, o próprio Navarro publicaria uma crônica lamentando o descaso da Cidade dos Reis com Othoniel Menezes. Começava assim: “Vergonhosa situação a nossa deante daquele homem calado e doente, sentado num canto de sala, preso da doença e da injustiça dos homens.”

Publicarei a crônica, na íntegra, segunda. Aliás, achada num livro de recortes que pertenceu a Protásio Melo e estava largado num vuco-vuco da 15, poucos dias depois de sua morte.

Dona Salete Navarro era a última guardiã da obra de Newton. Vivia amargurada diante do descaso dos conterrâneos com o legado enorme deixado pelo poeta. Eu bem que tentei, uma edição selecionada das crônicas navarrianas. Custaria infinitamente menos que qualquer prego, parafuso, canapé servido quando do futuro e mais que provável coquetel de inauguração. Fui incapaz. Também Diógenes da Cunha Lima pelejou junto a uma das construtoras da ponte para que se criasse um memorial em homenagem a Newton. Nada.

A muito custo deram-lhe o nome – que briga, desde antes do primeiro automóvel cruzá-la – com outros batismos: Ponte de Todos, Ponte Forte-Redinha.

Dona Salete Navarro. Estive semana passada no hospital. Sofria. Agora, me vem em mente uma idéia terrível. Se o sofrimento, além do físico, não teria sido atenuado: quem sabe se a convidariam para a inauguração? Ou, se restaria sentada, num canto de sala, onde esperam os poetas, suas viúvas, a hora final, antes da última pá de cal do esquecimento?

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Lamentando o eterno movimento dos barcos




Trânsito
A moça usava um vestidinho vaporoso, de vapor barato, o vento moldando as pernas compridas, os saltos cruzando os joelhos no alto dos mosaicos da calçada em chamas, as mãos remexendo os cabelos que balançavam o vento e espalhavam brasas ao longo da avenida, ali, raspando o meio-fio, os paralelepípedos cortantes do meio-fio, fim de tarde.
Não sei como, imaginei que ela tinha acabado de sair do cabeleireiro, perfumada, lavada, cheirosa como só as mulheres de vestidinhos vaporosos são capazes e possíveis de sair do cabeleireiro.
Não sei por quê.
Só sei que eu virei a cabeça.


Futebol
Devo se o único selvagem da Terra dos Papagaios que não está vendo (viu, quando você ler esta nota) o jogo do Brasil, aka Seleção Brasileira. Nem sei o placar. Se amanhã der de cara nalgum sítio náutico, tudo bem. 11 homens e uma bola – do lado de cá. Mais 11 e a mesma bola – do lado de lá. Um punhado no banco – lá e cá. Massagista, preparador físico, técnico. Juízes e bandeirinhas. E a torcida. Leve um homem e um boi ao matadouro, já ensinava Torquato. Junte homens e bois num só rebanho, aí já viu: a merda é grande. É tudo que eu sei do football. Além do fato que Nelson Rodrigues – ou seria Otto Lara Resende? – o chamava ludopédio.


Amor
“– Por que, meu Deus, eu me casei?”
A frase – talvez a mais repetida depois do clássico euteamo – poderia ter saído da boca de Paul McCartney. A resposta, dizem os comunicólogos, vai custar os olhos da cara: 51 milhões de dólares.
É a mesma frase presente na página 52 de Madame Bovary, edição comemorativa dos 150 anos, editora Nova Alexandria, 07.
Nunca é demais lembrar o subtítulo: costumes de província.


Samba
A televisão me deixou menos burro: ontem, no TELECINE cult, descubro que Che Guevara e Omar Sharif eram a mesma pessoa. Filminho besta com pinta de documentário fake. Não tenho paciência de ver o final, o mocinho morre etc. Saiu da vida pra entrar na história – não, esse era o Getúlio Dornelles. Me vem em mente uma confusão dos diabos: El Che, El Kharish, o Capitão Nascimento, Luciano Huck, a revista Veja, a Rolling Stone, Faustão, a Fidelidade Partidária, Renan, Mônica, La Galisteu, O Jovem Faria, Paul, Heather, o Ponte Preta...
Sei que existe um elo unindo todos eles.
Eu sei.
Só não me lembro.


Tropel
Aliás, procurem no Google as figurinhas fáceis:
Capitão Nascimento: 800 mil resultados em 0,09 segundos.
Luciano Huck: 481 mil em 0,07.
Renan Mônica: 832 mil, 0,15.
Galisteu Faria: 19.100, 0,16.
Do jeito que a coisa vai, perigas ver: na próxima capa da Playboy, em vez do sólito IBOPE, o marmanjo do BOPE. Ôps: é campeão – um milhão seiscentos e vinte mil resultados em zero vírgula zero oito segundos!
Mas, como o Brasil é bem menor que o mundo – ao contrário do que pensam muitos silvícolas – o casal, ex-casal, Paul, Heather, sai na frente: 4 milhões 670 mil em 0,12 segundos.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

As aventuras do Sr. F. | 1


O Senhor F. é boa pinta.
O Senhor F. é um cara legal.
O Senhor F. tem charm, tchans, tchuns.
O Senhor F. usa botas de couro, argolas nas duas orelhas, cabelo cortado rente, camiseta casual de cem reais.
A barriga do Senhor F. já dá sinais da exuberância que rege as vértebras da sua coluna – lordose, vinte e pouquinhos graus, imperceptível, a não ser pelas dores.
A barriga do Senhor F. é sutilmente proeminente.
O Senhor F. é todo proeminente.
A conta bancária do Senhor F. é pra lá de proeminente.
O Senhor F. é um publicitário.
O Senhor F. gostaria de ser o publicitário.
No momento, por enquanto, o Senhor F. é apenas um publicitário, um dos muitos que se multiplicam como coelhos nas pastagens urbanas do Brasilbusiness.
E que, como coelhos que são, saltam de lá pra cá, de cá pra lá.
Não, o Senhor F. não tem olhos vermelhos.
O Senhor F. já teve L.E.R.
O Senhor F. não gosta de ler.
O Senhor F. não gosta de ler, a não ser jornais de publicidade, revistas de publicidade, livros de publicidade. Quanto mais figurinhas, melhor.
O Senhor F. sabe bem a diferença – de cor, de salteado lebrino – entre publicidade e propaganda.
O Senhor F. franze a pele da testa, arqueando uma sobrancelha, diante de um interlocutor que não saiba dessas diferenças.
Que não saiba o que é L.E.R. – Lesão por Esforço Repetitivo – e que não saiba do equivalente em inglês, R.S.I. – Repetitive Strain Injury.
Por exemplo: o Senhor F. gostaria de ter um S.U.V.
O Senhor F. sabe que é a sigla – em inglês – para Sport Utility Vehicle.
É sempre mais interessante consumir algo quando se é bem informado, contrair uma doença, inclusive.
O Senhor F.
O Senhor F. usa laptops, notebooks, palmhands, celular com câmera.
O Senhor F. não sai de casa sem eles, não entra em casa sem eles, não sobe na cama sem eles, nem na hora da foda. O Senhor F. não fode a mulher, claro.
O Senhor F. é feliz.
E, ao contrário da maioria dos comuns mortais, sabe.
Viva o Senhor F!
Viva!

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

3 poemas, 1 poeta de Turim


BEBIDA COTIDIANA
Quatro gotas
de autocomiseração
acrescento hoje
a esta amara poção

ALMA
Das muitas palavras
que recebi
poucas conservei:
a capacidade da alma era pouca.

Hoje
aprendi três palavras.
O progresso da alma é lento.

COMO REALMENTE ACONTECERAM AS COISAS
A serpente
da inocência
encontrou o pecado
e o comeu.

Tradução MIDC

MARINELLA GROSA. Geometrie dell’atesa. Pasian di Prato: Campanotto Editore, 1996

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Notas cegas














Rei caolho
Augusto Lula dá a dica e eu repasso aqui: quem quiser adentrar um pouco na cabeça dum diretor de cinema durante o processo de filmagem pode acessar http://www.blogdeblindness.blogspot.com/: o blog de Fernando Meirelles sobre as filmagens de Blindness, baseado, inspirado, extraído do livro de Saramago, Ensaio sobre a cegueira.
Rei caolho dois
Adriano de Sousa, num post-operatório delicado, me dá notícias terríveis que, não, não posso contar aqui. O rapaz continua arredio e inquieto com a mesmice potiguara. Desconfio que sua convalescença é mera desculpa pra não atualizar seu blog.
Rei caolho três [e Rainha Caolha]
Ontem, momentos después de saber da demissão de Tácito Costa – em seu substantivo plural – deito os olhos em matéria do JH sobre o show do dia da criança: Marina Elali in concert. Música pra bebês. Artes da Fundação Zé Augusto. Como dois e dois são cinco, já entoavam os Reis Roberto y Caetano, deduzo: será ela a nova editora da Preá? As metamorfoses continuarão – de galo pra preá, de preá pra sabiá?
Rainha Caolha dois
Em terra onde a diretora do único Teatro (com tê maiúsculo e secular) é uma colunista social, tudo é possível e faz sentido. Aliás, se confiarmos no sítio do TAM, este ano as portas ficaram fechadas – a agenda não vai além de dezembro 06.
Rainha Caolha três
Não temos pão? Aos brioches, então.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

“Numa idade sombria e inquietante...”


Conheci Franklin Jorge no tempo em que escritor potiguar para mim não fedia nem cheirava, não era carne nem peixe, nem espinho nem flor: eu me interessava por tudo que fosse o mais distante da capital e acabou-se. Não, não é verdade – quando conheci Franklin Jorge eu já havia subido os degrauzinhos que separavam a sala de Marize Castro da rua, ali, onde cantava O Galo, manjedoura da Cidade dos Reis. Marize, toda segura e dona de si mesma, eu, mais inseguro e tímido que um cão vadio. Um cãozinho vira-latas. Sem abanar o rabo. Sem pedir ossinho. Com uns papéis, datilografados ou impressos naquelas impressoras matriciais duma época. Era um conto, sobre gatos, telhados. Ela publicou. Talvez aqui, nesta altura do texto, eu devesse confessar que esperava que acontecesse algo, e que nada aconteceu. Mas, não. Eu não esperava realmente nada e tudo que eu queria era ficar no meu canto, bem quietinho, sem ser incomodado. Provavelmente eu tinha um medo danado de me transformar num escritor potiguar, publicar aqueles livrinhos horríveis, que não se punham em pé nem deitados, as páginas se desfazendo, as capas horrorosas, a impressão cheirando a pobreza, a lombada batida, chocha, como uma mulher sem bundas (assim, no plural). Acordar manhã cedinho e se descobrir um autor, escritor, poeta (o abismo!) potiguar seria tão pavoroso quanto despertar barata feito o jovem Samsa. Enfim.

Conto tudo isso pra desdizer o dito acima, inicial. Não era a geografia nem nada o motivo do meu desinteresse, além do papel barato. Era o tal do ganha-pão. Eu tinha mergulhado de cabeça no mundo da publicidade pelo salário que ajudava a comprar fraldas e congêneres. Escrevia, e basta. A agência onde eu ralava foi chamada pelo Diário pra fazer a campanha dum novo caderno, cultural. Campainha chocha, sem nádegas etc, mas o pessoal gostou e lembro que FJorge assinou embaixo, não sei se mais na carona pressa etc, no fundo acho que ele não gostou tanto, mas. Ele me olhava assim, com uns olhos perguntadores. Eu não tava nem aí pros escritores e cultores da cultura potiguar, meu negócio eram as fraldas e o leite do bebê, ipsis litteris.

Anos, anos, muitos anos depois, Afonso Martins, que me conhece razoavelmente bem, presenteia minha mulher estrangeira com o Spleen de Jorge. Notem: não a mim, mas a minha mulher, enquanto bicho exótico, gringo. Acho que a dédica dizia algo, pra conhecer melhor nossa cidade. Eu olhei aquele livro potiguar, peixe, carne, alho, caralho, nem. Um dia, como convém a qualquer historieta, o livro me gruda nas mãos e é devorado num piscar de olhos, num bater de cílios, num fôlego de mergulhador das profundas daquele rio lá governado por Caronte.

Continuo desconhecendo Franklin, Jorge, o homem. Mas o escritor dorme na cabeceira ao lado, num altar profano onde meti, olha só, uns dois ou dez autores potiguares, não mais que duas palmas de mão abertas, esqueçam os dedos dos pés que não dá pra tanto.

Dias atrás ele me lê nesses diários náuticos e me envia um texto. É o que segue, abaixo.

Marize? Ah, Marize continua impávida, colossal, no alto céu feito um diamante cor-de-rosa-e-carvão. Gosto muito do seu gostar de Emily Dickinson, do seu gostar de Elizabeth Bishop. Do seu gostar virginal. Já nos encontramos, once upon a time, diante do Hyde Park Gate 22. Ela não me viu. Nem eu a ela. Nos afastamos, cada um pro lado, um restinho de névoa acobertando nossos passos.




“Numa idade sombria e inquietante, temerário estrangeiro na terra dos homens...”


RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM
"Numa idade sombria e inquietante, temerário estrangeiro na terra dos homens, eu sentia o remorso das horas perdidas quando, vagando à noite pelas ruas desertas de minha cidade, pensava na escolha solene e irremissível que fizera em segredo – a de tornar-me escritor --, persuadido de que, pensando e escrevendo, me tornaria diferente dos muitos que se rendiam ao convencionalismo e à habitual cotidianidade. Era o meu segredo. O segredo que sabe ter todo adolescente, vivendo em seu mundo próprio, fustigado pelas incertezas que nos assediam.
Uma idade muito próxima daquela em que a minha avó me levara ao Grande Hotel para conhecer Glauce Rocha, que quis saber o que eu pretendia ser na vida e eu lhe respondi, num rompante de tímido, “escritor ou nada”, resposta que a surpreendera e que me fez merecedor de dois beijos da grande dama do teatro, que então se apresentava no Theatro Alberto Maranhão.
Notei sobre sua cama exemplares dos jornais “Tribuna do Norte” e “Diário de Natal” e dois ou três livros sobre uma mesa. “Escritor ou nada”, repetiu Glauce, numa voz rouca e lenta, sem disfarçar o seu aturdimento diante da convicção de um jovem inexperiente. Ao nos despedirmos ela me presenteou com um pequeno volume encadernado em couro, contendo em letras de ouro o nome de Vauvernagues, cujas máximas deliciavam a minha avó. Antes de entregá-lo ela rabiscou rapidamente uma dedicatória ao seu “valente escritor natalense...”
Empolgado pelos sentidos e ansioso por agir e realizar, via-me retratado especialmente em dois personagens de Thomas Mann, que eu adotara como modelo de escritor cônscio do que cria, desde que começara a ler sua obra que me fora emprestada por Dona Maria Eugênia [Maceira Montenegro], cuja biblioteca quase infinita me proporcionara o acesso a um mundo novo de idéias e experiência feito.
Desde os meus catorze anos eu já intuíra misteriosamente que os meus modelos seriam muito diversos daqueles que satisfaziam ao gosto literário comezinho e rotineiro dos meus companheiros com veleidades literárias. Embora ainda uma criança, em tudo ignorante da vida, horrorizava-me toda a forma de vulgaridade e de conformismo que via expandir-se entre meus colegas de escola que também sonhavam com as letras, sem perceberem minimamente o grau de responsabilidade e de compromisso que o ato de escrever acarreta para quem se atreve a fazê-lo. Tudo isso eu percebia de maneira confusa, subjetiva, misteriosa, sem explicações.
Aos dezesseis ou dezessete anos, dominado por uma espécie de obstinação viril que o obstáculo redobra, empenhava-me em ser diferente dos muitos que conformavam sua maneira de viver e pensar com o exemplo comum. Buscava, pois, o raro, o difícil, o contraditório, o que jaz sob camadas profundas, uma coisa ou algo enfim que não se deixa usufruir por todo mundo. Por isso, ao mesmo tempo em que cortejava a solidão, refletia numas palavras que lera em Tonio Kroger, tornadas como que para mim uma espécie de credo estético. Seria preciso morrer para o mundo, eu repetia em silêncio, para afinal tornar-me um perfeito criador... Mas, como?
Incerto quanto a melhor forma de alcançar o futuro, sabia com total segurança o que não desejava, como desperdiçar o Tempo, para mim, o bem mais precioso e irrecuperável, quando mal aproveitado em gratificações banais. Ao mesmo tempo intuía que de alguma forma imperceptível e sutil era trabalhado por ele. Fascinava-me, por isso mesmo, a metafísica, a busca da essência mesma da vida, a vertigem do nada, o gosto pelo existencialismo. Quantos tormentos para tão curta vida.
Em minha adolescência inquieta e fatigada, queria, pois, ser Hamlet, Hans Haller, Raskolnikov, Vinteuil, Stephen Dedalus, Julien Sorel, o escritor inominado de “Almas Mortas”, presciente da inutilidade de tudo e, no entanto, fiel ao dever de construir uma justificativa para a própria existência...Uma obra enfim que me justificasse no futuro... Em síntese, a prova concreta de que aproveitara bem o meu tempo. Um artista em processo, ávido de experiências, eu ignorava ainda que para descrever um crepúsculo, conforme a lição prodigada por Borges que eu ainda não lera, faz-se necessário ver mil crepúsculos e refletir sobre eles."
Franklin Jorge
[Escritor e jornalista]




segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Os idiotas


Preciso urgentemente um manual de boas maneiras para a internet.

Sou um tabaréu digital. Um analfacibernético. Um internáutico de primeira viagem. Além de um idiota completo, claro. Enfim, um daqueles que descobre os poderes do blogger década depois da sua invenção e fica assim, ah é ah é ah é, cheio de interrogações feito o Gato Félix.

O Gato Félix, não. Félix ao menos sabia usar os pontos de interrogação pra se safar de algum perigo: os pontinhos [? ?? ?? ???] viravam ganchos etc.

Félix saía voando, dependurado neles.

Enrola, enrola, embaça, embaça, a pergunta é:

- Se-alguém-que-tem-um-blog-visita-o-da-gente-e-faz-um-elogio... a gente:

a) Responde no comentário seguinte no nosso próprio blog.

b) Faz uma visita de cortesia no blog do alheio e diz, como quem não quer nada: “Fulano (a), tava passando por aqui e... a propósito: adorei a visitinha que você fez lá no meu blog”.

c) Dá de ombros e faz que não leu – são, afinal, tânnntos comentários.

A opção “a” implica que pretendemos que o sujeito ou a tipa que nos comentou passe sempre por lá pra espiar se o comentário foi publicado.

A opção “bê” pode ser meio cara-de-pau, além de uma cafajestice interesseira: o cara mete um link automático pro próprio blog ou até cita o benedito com todas as letrinhas (pros analfa que nem eu).

A opção “cê”, embora à primeira vista pareça ser falta d’educação, pode esconder, na verdade, uma alma tímida e um coração acometido por soluços conflitantes – sabe como é, né? Se ninguém escreve, sofre como um coronel de Macondo; se escrevem demais, o fastio é grande, que o sorumbático detesta elogios.

Toda essa galinhagem porque uma moça muito simpática me visitou e eu fiquei meio sem graça em responder.

(Pra quê tem blog, oh anta?! – alguém falou, eu ouvi.)

Bom. Deixa estar.

Ela vai entender.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

No valid images to play


Fim d'A semana, e não publiquei nenhuma foto no blog.

Nada contra. Mil palavras válidas por outras tantas reais, seis por meia dúzia. Letrinhas em fontes várias, deitadas no papel virtual do uôrdi, na Remington mudernosa, tecladinho silencioso. Brave new world.

Pra concluir e ir pros finalmente, andei pescando umas pérolas nos blogs vizinhos.

Começando por mademoiselle S., aka Sheyla Azevedo:

“Comecei a caminhar essa semana. Isso significa uma hora a menos de sono e a sensação de que vou ficar gostosa em seis meses.”
[para ler o texto na íntegra, clique aqui]

Depois, o rebento do Cão Magro, Alex, do clã dos De Souza, tecendo em seu estilo original os uniformes dos clubes da luta literária, riscando no chão linhas imaginárias, daqui não cruza, não sobe, não desce, se cuspir aqui, cospe na cara da mãe:

“Entre literatos, quando há um desentendimento, a esgrima geralmente se resume às canetas, que enodoam mais os egos e reputações do que o fariam caso estourassem no bolso da camisa de linho de um descuidado. Até por que gente que gastou boa parte da vida (e da vista) entre livros não é afamada pelos conhecimentos marciais – poucos podem se arvorar de serem campeões de caratê e bons poetas, como Leminsky.”

Entre a corrida de Mme. S. e o ringue de Alex, restam poucas opções espartanas, como aponta o professor Plínio Sanderson:

“Os raros espaços de lazer são equivocados ou expropriados... A ciclovia da Via Costeira encontra-se em estado deplorável, os hotéis utilizam como canteiro de obra, os malfazejos buracos e cimentos petrificados tornam o passeio perigoso, impraticável. Nas reurbanizações praianas (Ponta Negra, Artistas/Forte, Avenida Roberto Freire) os calçadões foram construídos com pedras portuguesas, que por ser um piso irregular não favorece as atividades esportivas. Obra pensada esteticamente, sem considerar a real utilização do aparelho urbano pela população. Mentalidade barroca-tropical nas intervenções urbanísticas.”

Daí, melhor se esconder na solidão inexpugnável do banheiro, onde o corpo elétrico do poeta Carito [post do 22.09] revela sensações normalmente inconfessáveis:

“Quando eu era pequeno realizei uma experiência insólita e literalmente de gosto duvidoso. Ou melhor, de mau gosto mesmo, gosto ruim, não sei o que deu em mim. Mas num certo dia, quando eu estava no banheiro da nossa casa, depois de fazer as minhas necessidades, surgiu do nada uma outra e estranha necessidade, e eu resolvi saber que gosto tinha... a... merda! Pronto! Já disse. Já escrevi. Não sei se vou ter coragem de publicar. Acho que sim. Afinal, criança é criança. Será que eu já estava tentando me preparar para as merdas da vida?”

Mas, longe desse embate de corpos, corpos gostosos, corpos atléticos, corpos literários, corpos políticos, corpos coprofágicos, a pérola mais vistosa, mais brilhante, mais que perfeita, é o corpo metálico de um ônibus pastorado por Woden Madruga (que, se eu fosse um De Saboya, petelecaria logo como Wonder Madrugada), de um metálico reluzente retirado das ferragens e ferrugens da Tribuna do Norte:

Mistérios da Ribeira
Há um ônibus em cima da avenida Rio Branco, lado da sombra, já na esquina com a Praça José da Penha, há vários dias. Calçada do antigo SAPS, de saudosíssima memória. Me parece que o prédio hoje pertence à Secretaria de Agricultura ou coisa parecida. No tempo da Guerra, foi um cassino. Mas isso é uma outra história.
Por ali passa um trânsito intenso, praticamente a única via de acesso entre a Cidade Alta e a Ribeira. Pois bem, há quase três semanas o ônibus está parado sobre a calçada. Para falar a verdade, na metade da calçada. Ninguém sabe dizer porque o enorme veículo está ali há tanto tempo e muito menos a fiscalização da Prefeitura. Se é que ela já passou por lá.
Um flanelinha, daqui da Duque de Caxias, que sempre me dá notícias do que acontece no bairro, me disse que o ônibus pertence a um tal de “Binladem”, que tem jeito de turco. Passa o dia dormindo dentro do ônibus e, quando chega a noite, sai a pé por aí. Já foi visto muitas vezes nas festas da rua Chile (uma das esquisitices do pessoal do jetesete natalense), nas peças do Teatro, tomando sopa de cebola num botequim da Ferreira Chaves, olhando para a fachada – horas inteiras – da Cabugi, e também é visto na balaustrada do cais da Tavares de Lira namorando o rio. Sempre sozinho. É homem de pouca conversa até porque tem a língua meio enrolada, me garante o flanelinha, que se arriscou a “vigiar” o ônibus, mas levou um esculacho do Binladem. Já vai fazer um mês.
E como hoje é noite de lua cheia, o pessoal está pronto para conferir a caminhada do turco.”

[Woden Madruga, Tribuna do Norte, 28 de agosto de 2007]

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Enterrem meu coração na curva do Rio Grande


O alemão Jacob Rabbi é uma das figuras mais execradas pela patuléia potiguar.

É descrito como um tipo sanguinário, selvagem, cruel.

Pudera, era judeu.

Pudera, lutou ao lado dos índios (e holandeses) contra os portugueses.

No novo feriado estadual, comemorado ontem, cidadedosreis homenageia o gringo lembrando os massacres religiosos descritos pelo Frei Bartolomé de Las Casas (1474-1566) e pelo próprio Hernan Cortez (1485-1547), ambos a serviço de Deus. Que, como se sabe, tem muitos rostos.

O Frei:

“Nesse reino [Iucatã], ou numa província da Nova Espanha, certo espanhol ia certa vez com seus cães a caça; não encontrando o que caçar e percebendo que os cães tinham fome, agarrou uma criancinha que agarrou dos braços da mãe e, cortando-lhe os braços e as pernas, fê-los em pedaços, que distribuiu aos cães; quando os cães acabaram de comer esses pedaços atirou também o resto do corpo, isto é, o tronco, a todos os cães juntos.”

O conquistador:

“Antes do amanhecer do dia seguinte, tornei a sair com cavalos, peões e índios e queimei dez povoados, onde havia mais de três mil casas. Como trazíamos a bandeira da cruz e lutávamos por nossa fé e por serviços de vossa sacra majestade, em sua real ventura nos deu Deus tanta vitória, posto que matamos muita gente sem que nenhum dos nossos sofresse dano.”

O Frei:

“[...] uma índia doente, vendo que não poderia fugir nem escapar dos cães que a dilacerariam, como faziam a todos os outros, apanhou duma corda e enforcou-se numa trave, tendo amarrado ao pé uma criança que tinha, de um ano de idade; nem apenas tinha acabado de fazê-lo eis que chegaram os cães para agarrar a criança, ao mesmo tempo em que, enquanto morria, um irmão religioso a batizava.”

O conquistador:

“De algumas medidas os espanhóis que nestas terras residem não estão muito satisfeitos. Especialmente a que os obriga a fixar-se nesta terra, porque a maioria pensa em fazer o que tem sido feito em outras terras conquistadas, especialmente ilhas, ou seja, saqueá-las, destruí-las e depois abandoná-las. Entendo que não podemos repetir erros do passado, especialmente sendo esta terra tão rica e nobre, onde Deus Nosso Senhor pode ser servido, assim como aumentadas as rendas de vossa majestade.”

No ano em que morreu Cortez, o Frei Bartolomé estava na Espanha, depois de quatro décadas entre o Novo e o Velho Mundo. Hernan em Sevilha, Bartolomé em Valladolid, pelejando nos tribunais com um historiador que acreditava que os índios não tinham alma e deveriam ser considerados como animais.

No ano em que morreu o Frei de Las Casas, as palavras Conquista e Conquistador foram proibidas. Por Lei. Em seu lugar os escribas deveriam usar Descobrimento e Colono.

460 anos depois da morte de Cortez, o Colono, o Rio Grande do Norte decreta feriado estadual o dia 3 de outubro: o Dia dos Bem-aventurados Mártires.

Choveu no molhado, ou, juntou Tomé com Bebé: ao menos dez eleições, diretas ou indiretas, para governador, não vos esqueceis, ímpios e impios, aconteceram no tal dia – em 1950, 54, 55, 58, 60, 65, 70, 74, 90 e 94. Em 2006, 2002 e 1998, revezaram-se entre os 1, 4 e 6 de outubro.

Ou seja, vai rolar o famoso feriadão, bem enforcadinho.

Bem-aventurados, pois.


[Frei Bartolomé de Las Casas, O paraíso destruído: a sangrenta história da conquista da América. Porto Alegre: L&PM, 2007]
[Hernan Cortez, A conquista do México. Porto Alegre: L&PM, 2007]

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas:

01 desenho de um bichinho sorridente assinado com uma flor

01 quarto azul

01 planta no vaso

01 camisa laranja

01 livro de Mia Couto, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

01 cd do Gnarls Barkley, St. Elsewhere

Muitos cafunés

parole parole parole


Depois de um tempo, o telefone volta a tocar:

- Fique tranquilinho, tudo vai dar certo.

Não resolve nada, mas como é bom de ouvir!






terça-feira, 2 de outubro de 2007

Homo Faber-Castell


O homem velho caminha contra o paredão d’água marinha varrido pelo vento luminoso da manhã.

O homem velho avança, da esquerda para a direita, descortinando a paisagem. Seus pés deixam-se tocar pela água, as ondas varrem seus pés – areia e sal se misturam.

São passos lentos, decididos. São passos tangidos por uma vontade férrea, quase inconsciente. Quase senil. Senil.

Um dos braços, ou os dois, parece paralisado – há um quê de robô na caminhada, no corpo que avança.

É um corpo geométrico, cheio de ângulos, como se, por trás da carne pouca o esqueleto pretendesse representar as inúmeras possibilidades de articulação.

É um corpo velho, aceno matinal de como seremos amanhã, à tarde.

No crepúsculo.

Algumas léguas adiante do mezzo cammin di nostra vita.

É uma cena que dura pouco. O suficiente para o corpo velho descortinar a paisagem selvagem, de vento forte, ar marinho, luz do sol.

Uma paisagem ainda e muito mais antiga que a velhice que vem perseguindo aquele corpo, desde o dia de seu nascimento até hoje, pela manhã, quando desfila diante do meu olhar estúpido, buscando uma compreensão impossível porque inexistente.

Como se ela, a velhice, predador incansável, por fim alcançasse sua caça desiderata apenas para o puro deleite do meu safári particular.

Então, o velho apressa o passo, parece correr, com seu molejo de robô humano.

E corre.

Realmente corre.

Enquanto eu, no mezzo cammin di nostra vita, permaneço parado, lápis e papel na mão. Olhar abobado por trás dos graus dos óculos sujos.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

o décimo mês

Comecinho de mês enfastiado.

Enchi a cara nos últimos de setembro. Resultado: ressaca nos albores de outubro.

Fazer o quê? Usar um termo mais literário, pretensioso, empolado? Enchi a cara, mesmo. De sexta a domingo. E olha que não sou nenhum Bukowski. Lembram-se? Em Crônica de um amor louco ele adentra no palco agarrando pelo pescoço um litro de alcohol, provavelmente vísqui. E tome a deitar falação sobre estilo, arma secreta, anti-macguffin do escritor.

Como dizia meu sobrinho – que, sim, já cresceu – “sem noção”.

Tudo começou num almoço de sexta, sem álcool.

Lá, retardado que sou, tomo conhecimento da nobre presença da duquesa de York em terras de Poty. Cidade dos Reis alvoroçada. Uma duquesa de verdade! Pouco importa se a moça nem pode mais ser tratada pelo título Sua alteza real, divorciada que é dum príncipe.

A moça veio num avião português, como antigamente usavam-se as caravelas do Reino. Para a tal “penosa travessia”, como gostam de repetir aqueles que podem, tudo podem, do lado de cá do Atlântico.

De repente, não mais que de repente, os súditos da coroa britânica em terra de Poty botam as manguinhas de fora e se apresentam impecáveis e extáticos – com xis, please – para a visita da tropa. São muitos, bem mais do que se poderia imaginar.

Já o Quarto Poder alvoroça-se, esquecendo por um instante as assessorias bem remuneradas. “Parem as máquinas!”, foi a palavra de ordem que se ouviu nas redações da Província. Como nos filmes de antão.

A nobreza de Cidade dos Reis não perdeu tempo. Apressou-se a desmarcar compromissos, a enfatiotar o corpitcho em vestidos de gala, a espantar a naftalina, a encomendar os acepipes reais.

A duquesa de York, Sarah Ferguson em Cidade dos Reis!

Pouca importa que a moça – como a maioria dos nobres ingleses – seja totalmente desprovida de glamour.

Pouca importa que seja branca como uma vela, mal-vestida como uma senhora inglesa, sem graça, sabor, carisma. Sem aplomb, para homenagear os de além Mancha.

Pouca importa que confundiram York com Nova, pois, York, segundo a língua ferina de A. Medeiros. Pouca importa o comentário pouco sutil de outro A. Medeiros, insinuando que a menina Madeleine também por cá deu seus costados.

As colunas informam o encontro da realeza, capitã-mor e duquesa, assim:

“Foi um final de tarde de gentilezas e troca de presentes.”

Hora propícia, pois, para o escambo civilizatório.

Dona Wilma presenteou livros, da autoria do seu governo. A duquesa de York presenteou livros, de sua própria autoria.

Um calafrio percorreu a espinha dorsal do mercado editorial.

O livro da moça chama-se Little red christmas story. Traduzido, poderia ser assim: Um conto de Natal do Pequeno Vermelho. Não é Dickens, mas. O exército vermelho adorou.

Já a imprensa, plebéia, não se acanhou em citar partes anatômicas da duquesa com termos pouco nobres: “A duquesa saboreou Rondelli de frango com catupiry e molho de nozes, mais suco de abacaxi com hortelã (ela disse ter amado); maaasss...batendo brincalhona no culote para dizer que não quer engordar, rejeitou os doces: cheesecake de goiaba e doce de banana.”

Ficamos assim sabendo que a nobreza tem, sim, culote.

Nem o nobre Antônio Houaiss consegue emprestar um pouco mais de realeza ao termo: “culote. excesso de gordura na face externa da parte coxofemoral.”

A imprensa, plebéia e alcoviteira, não se acanhou em insinuar um possível matrimônio unindo os De Faria com os Ferguson: “Ao ver [o] neto da governadora [...] 'Fergie', como é conhecida na Inglaterra, disse que tem duas filhas (as princesas Beatrice e Eugenie) e que da próxima vez que vier a Natal (nos próximos meses) trará as herdeiras para conhecê-lo”.

Muito cuidado com as little princess, rapazes. Vai que elas somem por aqui e a Rainha, Deus a salve, declara guerra a esta Cidadela Real.

Mas, deixando de lado a corte, meu delírio gastronômico continuou, lá pelas horas felizes do entardecer, no conjunto Ponta Negra, restaurante basco. O dono é dos mais simpáticos e indiferente ao fato que, debaixo do Equador e na esquina do continente, a língua oficial ainda é o português.

Um casal de espanhóis foge da culinária dos nativos e enfia-se na casa de pastos conterrânea. Ele, vermelho como um camarão. Ela, doida pra entabular conversa com os silvícolas. Repete à exaustão a descoberta: “raparigo”, “rapariga” tem um outro senso, longe das terras de Espanha, areias de Portugal. Uma mulata inzoneira, acompanhando em silêncio constrangedor um loirinho (seria um principezinho, desgarrado do convescote real?), sorri, meio sem graça.

Coitadas dessas moças negras, afro-potiguaras. Não podem nem sentar-se à mesa com um mancebo nórdico que os olhares preconceituosos já questionam o amor que desconhece as barreiras lingüísticas.

Isso foi na sexta. Sábado me dou um descanso, quebro um dente comendo pipocas. Noite baixa, dou com os costados na Vila, ali pelos lados onde a duchess hospeda-se. As meninas nativas enchem a cara. Gerações e gerações de sex, drugs, suor e cerveja. Mudamos, casa de um importante figurão da alta cultura potyguar. Mais cerveja, em banda de lata e cascos marrons. A turma reunida se dá conta que vinte anos se passaram desde os primeiros encontros. Mezzo do mezzo cammin di nostra vita. Ninguém fala da presença de Fergie, solenemente ignorada.

Inauguro o domingo com uma cerveja na praia de Pirangi, nem sombra de holandeses quanto mais de sararás inglesas. Continuo pelos lados de Cidade dos Reis, circuito Elizabeth Arden, Afonso Pena, Ladeira do Sol. Ainda não chegou, na banca CidadedoSol, a edição do Pequeno Vermelho. Saltamos, invés, do cavalo branco pros doze anos dum malte qualquer. A malta longe, longe. Os jornalecos descansam na garagem. Leio-os, ainda embalado em nuvens de álcool, na longa jornada noite adentro. Um ex-senador dá adeus à política, nas páginas dos dois maiores. Marjorie Estiano, também. A plebe ignara espreme-se num trem da CBTU. O padre Marcelo ora por nós. Isso, num. No outro, Raniere no gol: “Estamos no caminho. Basta seguir vencendo em casa.” Poderia ser outro Raniere, o autor dos versos. Também deveria ser outro o entrevistado da página três da Tribuna, onde lê-se, alto da página: ENTREVISTA / Rosalba Ciarlini”. E pegue o retrato do ex-senador... Geraldo Melo. Lá pela página onze do caderno Cidades (já estou noutro periódico) a importante manchete: “Explode o consumo de bolo.

E os culotes?

Assim não dá.

Sarah Ferguson para 2010. Urgente.