quarta-feira, 10 de outubro de 2007

“Numa idade sombria e inquietante...”


Conheci Franklin Jorge no tempo em que escritor potiguar para mim não fedia nem cheirava, não era carne nem peixe, nem espinho nem flor: eu me interessava por tudo que fosse o mais distante da capital e acabou-se. Não, não é verdade – quando conheci Franklin Jorge eu já havia subido os degrauzinhos que separavam a sala de Marize Castro da rua, ali, onde cantava O Galo, manjedoura da Cidade dos Reis. Marize, toda segura e dona de si mesma, eu, mais inseguro e tímido que um cão vadio. Um cãozinho vira-latas. Sem abanar o rabo. Sem pedir ossinho. Com uns papéis, datilografados ou impressos naquelas impressoras matriciais duma época. Era um conto, sobre gatos, telhados. Ela publicou. Talvez aqui, nesta altura do texto, eu devesse confessar que esperava que acontecesse algo, e que nada aconteceu. Mas, não. Eu não esperava realmente nada e tudo que eu queria era ficar no meu canto, bem quietinho, sem ser incomodado. Provavelmente eu tinha um medo danado de me transformar num escritor potiguar, publicar aqueles livrinhos horríveis, que não se punham em pé nem deitados, as páginas se desfazendo, as capas horrorosas, a impressão cheirando a pobreza, a lombada batida, chocha, como uma mulher sem bundas (assim, no plural). Acordar manhã cedinho e se descobrir um autor, escritor, poeta (o abismo!) potiguar seria tão pavoroso quanto despertar barata feito o jovem Samsa. Enfim.

Conto tudo isso pra desdizer o dito acima, inicial. Não era a geografia nem nada o motivo do meu desinteresse, além do papel barato. Era o tal do ganha-pão. Eu tinha mergulhado de cabeça no mundo da publicidade pelo salário que ajudava a comprar fraldas e congêneres. Escrevia, e basta. A agência onde eu ralava foi chamada pelo Diário pra fazer a campanha dum novo caderno, cultural. Campainha chocha, sem nádegas etc, mas o pessoal gostou e lembro que FJorge assinou embaixo, não sei se mais na carona pressa etc, no fundo acho que ele não gostou tanto, mas. Ele me olhava assim, com uns olhos perguntadores. Eu não tava nem aí pros escritores e cultores da cultura potiguar, meu negócio eram as fraldas e o leite do bebê, ipsis litteris.

Anos, anos, muitos anos depois, Afonso Martins, que me conhece razoavelmente bem, presenteia minha mulher estrangeira com o Spleen de Jorge. Notem: não a mim, mas a minha mulher, enquanto bicho exótico, gringo. Acho que a dédica dizia algo, pra conhecer melhor nossa cidade. Eu olhei aquele livro potiguar, peixe, carne, alho, caralho, nem. Um dia, como convém a qualquer historieta, o livro me gruda nas mãos e é devorado num piscar de olhos, num bater de cílios, num fôlego de mergulhador das profundas daquele rio lá governado por Caronte.

Continuo desconhecendo Franklin, Jorge, o homem. Mas o escritor dorme na cabeceira ao lado, num altar profano onde meti, olha só, uns dois ou dez autores potiguares, não mais que duas palmas de mão abertas, esqueçam os dedos dos pés que não dá pra tanto.

Dias atrás ele me lê nesses diários náuticos e me envia um texto. É o que segue, abaixo.

Marize? Ah, Marize continua impávida, colossal, no alto céu feito um diamante cor-de-rosa-e-carvão. Gosto muito do seu gostar de Emily Dickinson, do seu gostar de Elizabeth Bishop. Do seu gostar virginal. Já nos encontramos, once upon a time, diante do Hyde Park Gate 22. Ela não me viu. Nem eu a ela. Nos afastamos, cada um pro lado, um restinho de névoa acobertando nossos passos.




2 comentários:

napoleão de paiva disse...

Caro Mário,

Ler Franklin Jorge é sempre um prazer, um aprendizado. Seu texto limpo e apurado tem raízes nesse ‘Retrato do Artista Quando Jovem’ - onde - ainda adolescente, traça o ideário do escritor que será: inconformista, inaugural, arrostador de idéias e convenções, longe do ‘gosto literário comezinho e rotineiro’.
Você cita o seu Spleen de Natal, que, coincidentemente, reli nos últimos dias. Os perfis da proustiana Dona Maria Raimunda, que camuflava a dor nas roupas extravagantes e nos penteados démodés, para os eventos culturais da cidade; e o do dândi do morro, Blecaute, que revela a intolerância de uma sociedade babaca e injusta – pra ficar só nesses dois -, são páginas que marcam pela boa literatura.
Ultimamente só conseguia ler este grande escriba - além dos livros, é claro – na tela do site Cronópios. Que bom vê-lo agora cá entre nós, nas avenidas e esquinas da Cidade dos Reis.
Palmas!
Napoleão de Paiva

midc disse...

napoleão: comentei o spleen também no final de setembro - sob um título blind boys of... FJorge. dê uma olhada nos arquivos aí ao lado.
abraços, midc