quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Para viver um grande amor




[Paola Zampa, amor sacro-amor profano, digital photo on aluminium, 56x84, 2006]



Para viver um grande amor é necessário antes de tudo estar apaixonado. A premissa parece redundante, inútil, banal, até mesmo pueril, e por conseguinte desnecessária, de tão lógica que é. Mas é imprescindível. Não se vive um grande amor sem paixão. Pode-se viver um médio, pequeno, micro-amor. O que – quem sabe (e provavelmente é, mesmo) – é até mais desejável, enquanto racional e tranqüilo. A placidez, nos grandes amores, só existe em breves momentos. Naqueles onde (e quando e como e por que), cansados de uma entrega integral e íntegra, os corpos se abandonam num abraço frouxo mas firme, os olhos se deixam navegar à deriva nos olhos do outro e vice-versa, jogo de espelhos sem começo, meio ou fim.

Para viver um grande amor deve-se ignorar solenemente o tempo. Deve-se recusar o passado e imaginar que o futuro não existe além daquele momento presente. Deve-se acreditar piamente que será eterno (mesmo com o chato do Vinicius de Moraes martelando na cabeça a terrível conclusão – “enquanto dure”). Sim, porque todo Grande Amor é Eterno. E durável. E duradouro. E infinito (mudança de versos: “que seja eterno, enquanto infinito”). Deve-se confiar – cegamente, como um fiel rejeita a ciência e abraça a fervura quente do milagre – que é possível parar o tempo, os ponteiros e todos os relógios do mundo. Que o mundo, a propósito, não existe além do refúgio criado pelos amantes, para viver seu Grande Amor.

Para viver um grande amor faz-se necessário a mudança para uma ilha deserta. Sem pegadas na areia além das suas. E nem é tão importante que esses passos se repitam na areia lado a lado – eles podem caminhar às vezes mais à frente, às vezes mais atrás, outras trilhando a mesma vereda, que nada mais é senão seus próprios passos. (“Olha! Aqui se confundem. Não se sabe mais qual a marca de quem. Se sobrepuseram. Tornaram-se um.”)

Mas, para viver um grande amor, mesmo numa ilha deserta, é importante saber que não existem ilhas desertas. Então, é imprescindível manter a força dos músculos para outras atividades que não apenas o ato mágico e único do amor. É imperioso dedicar-se à construção de fortes, de paliçadas, de fossos de proteção, de trincheiras, de casamatas. É necessário vestir couraças, armaduras, peitorais, coletes. Até para desvesti-los depois. Ainda que a nudez nos torne frágeis. Vulneráveis, somente um para o outro.

Para viver um grande amor é preciso reconhecer que só esse mesmo grande amor pode decretar seu fim. E, ainda assim, eterno, enquanto infinito.


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tempo | manhã de sexta-feira



[Leonard Cohen, fotografado por não sei quem]


Sol entre nuvens.

Mas as nuvens brilham.

Sol por trás das nuvens.

As nuvens se movem.

Deslizam.

Da esquerda para a direita.

Nuvens grandes. Como seios. Ao deslizarem sobre si mesmas, se arrastam, sem arrastar os coqueiros miúdos e o canto do pássaro.

– Na garganta.

Até os prédios tornam-se minúsculos diante de nuvens tão grandes assim.

Até as palavras somem diante de um silêncio que devora todo o inútil, todo o supérfluo, todo o excesso.

Só o amor merece exceder – gota d’água, tsunami.

As nuvens se espalham sobre a Cidade. Anel, abraço. Não vai chover. É tempo de verão. A manhã amadurece antes do tempo. Sem cair.




segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tempo | manhã de segunda-feira


Sol entre nuvens. E daí?

Já não me movo através das notas do boletim meteorológico.

Apenas uma saudade recorrente, que se alimenta em si mesma.

Em beijos, abraços, corpos.

As ruas da cidade existem para que nelas ande.

Tudo muito buliçoso sob o sol.

Café, cigarros, uma cidade construída à beira-mar.



Tempo | manhã de domingo


O sol brilha, o mar refresca, a areia da praia é quente mas próxima ao mar é molhada.



[2a versão:

Sol reluz, ondas refrescam, areia da praia quente, mas próxima ao mar, molhada. Ao seu lado, melhor.]








sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Tempo | manhã de sexta



Fazer o quê, se o dia acordou luminoso, sol resplandecente, céu sem nuvens, brisa marinha despertando o leito ainda perfumado?

Brilho, clarão, fulgor – a felicidade é um prato que se come, frio ou quente, com a ponta dos dedos. E se beija com a língua.

Os passarinhos cantam.



Sun is shiningThe weather is sweet yeahMakes you wanna move your dancing feetTo the rescueHere I amI want you to know y'allHere I standAs the morning gathers a rainbowI want you to know y'allThat I'm a rainbow with you'Cause I'm a heroLike Robert de NiroI know an Ital Rasta manGot to keep I heightsProtection until timeThe sun is shiningFor you and there's nothing else to doWar is explosiveYou got to demonstrateDon't fight'Cause the sun is shiningFor youThere's nothing else to doAs the morning gathers a rainbowI want you to know nowThat I'm a rainbow with youWoh yeah test the eyeTes' the eye...Fear no evilChannel like a lionChannel like a lionSome say – yeahMoney in my...One on oneMoney in my pocketBut I just can't get your loveSome say – yeahAnd the sun is shiningDon't fightAnd you got soulAnd you're chopping it up aeroFor you...There's nothing else to doSun is shiningThe weather is sweetMakes you wanna moveYour dancing feetTo the rescueHere I amI want you to know y'allHere I standAs the morning gathers a rainbowI want you to knowThat I'm a rainbow with youAs the morning gathers a rainbowI'm rougher than roughRougher than rough'Cause I'm a rainbow with youTougher than toughTougher than toughChannel like a lion – yeahThis is some fashion – yeahChannel like a lion

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Volta ao mundo em 9 músicas


Hoje eu vou me embriagar. Só um pouquinho. Um vinho de quinta na nevera. Um cálice – cálice... se diz copo, verdade? Eu, que detesto reticências, coloquei uma aí, três pontinhos – pois, um copo de vinho, nada de cristal tinitante. Algumas carteiras de Camel. Basta uma, mas nunca se sabe a sede dos pulmões. E Leonard Cohen no computador, que infelizmente não tenho nenhum LP de LC, e tampouco CD player. Ando tão desprovido de música, que é um pecado. Ainda que eu não acredite em pecados. Nenhum. Dia desses me falaram de uma historinha hilária: o rapaz foi na casa da moça. Ia dar uma carona, trabalho qualquer da universidade. Ela perguntou se ele queria subir, beber uma água, enfim, não tinham pressa. Nem ela tinha nenhuma intenção debaixo das pernas, acreditem. Nem todas as mulheres têm intenções primeiras ou segundas baixo ventre. Pois. Ele, ansioso, recusou água, café, o que mais foi oferecido. Pediu um prato. Aliás, perguntou assim: Tem um prato? Ela, claro, tinha um prato, tinha inclusive apenas lavado a louça. Foi lá na cozinha, sacou um do escorredor, branquinho, ainda úmido. Entregou pro rapaz, que parecia cada vez mais louco. Ele tirou um saquinho do bolso. Balançou. Abriu. Começou a despejar o conteúdo no prato – era um prato de sobremesa, não falei? Pois era. De sobremesa. Ou não era? Não importa. Ele começou a despejar o conteúdo do saco e parou assustado: Cê tá louca? Isso aqui tá ainda molhado. Sabe quanto dinheiro você ia me fazer perder? E cheirou suas carreiras e foi a única vez na vida que a moça viu alguém cheirar cocaína. Que tem a ver a história? Nada. Estou me embriagando, avisei. Nenhum pó na house. Nem nas prateleiras que a moça da limpeza semanal passou ontem. Ou foi antontem. Enfim. O vinhozinho é bem ruim. Um gostinho meio delicado, ao mesmo tempo ácido. Olha, não tenho a menor idéia de sabores frutados, odor de carvalho, não sei nem balançar o copo, como em circunavegação, como quem descobrisse o caminho das índias ao fazer o gesto e levar a taça – isso: nem cálice nem copo, o certo é taça – às narinas. Mas vinho tem que ser forte. Seco. E nada de tom rubi, a não ser que seja um rubi quase negro. Em quantas taças estou? A terceira, me parece. Três cigarros ao menos. E Leonard Cohen na vitrola digital.

O chato de morar em apartamento é que você não pode botar o som nas alturas. Quer dizer, pode né? especialmente se você mora no décimo-terceiro andar, o que é bem alto. Mas. Mas já tô a fins de, depois de tomar Manhattan, tomar Berlim. E ouvir um The Clash básico. Straight to hell, boys. Daí que, buscando no goear descubro essa versão, razoável, Moby e tal

Mas prefiro essa, original.

Tem uma faixa que tem a participação de Allen Ginsberg. Procurem. Não vou postar aqui. Ginsberg, de Uivo. E outros poemas. Ginsberg esteve no Marrocos? Não lembro. Burroughs, sim. William. Eu, um dia, ou noite, na City Lights de Firenze: E esse disco de burous na vitrine? O vendedor, chato. Ah! Uilame Barous. Ok. Não levei, no money, no way out. Falar de quê agora? De Sandinista, claro. Disco triplo do Clash, que exigiram fosse vendido pelo preço de um. Desconfio que no Brasil sudaca sacanearam com os caras e venderam um tanto a mais. O Clash era bem político. O que, claro, nesta cidade de reis e rainhas do maracatu tem outra conotação. Ancora un bicchieri per favore. O vinho começa a melhorar. Lalcahol. Vamos de Serge. Conhecem essa?

Tava procurando o disco que ele gravou na Jamaica. Com copa & cozinha, drum & bass, Sly & Shakespear. Ou seja, Sly Dunbar, drums, Robbie Shakespear, sem E, bass. Mauvaises nouvelles des étoiles. Wow. Que título. Encontrei o disco (CD, duplo) numa lojinha furreca lá na Princesa Isabel. Coisa de seis anos atrás. O que é muita sorte. Nisso sou sortudo. Encontrei, também, o LP L’homme a tête de chou, o homem com a cabeça de repolho, o que não é pouca coisa. Onde? no sebo de Jácio, em Morro Branco. Edição original, francesa. Mick Harvey, do Bad Seeds, foi quem melhor debulhou o homem que adorava Gitanes. Tem dois discos, Intoxicated man e Pink elephants, em covers de responsa de Gainsbourg. Nada no goear siginificativo, passo adiante. Sabe lá deus – que não fuma havanas – porquê, encaro uma PJ Harvey. Podia, ia, postar aqui Oh my lover. Não. Vou de The dancer, versão acústica.

Mas o melhor do vinho, sabem? é servir em pé. Porque você assiste o líquido escuro fazer um caos na taça, borbulhar aqui e ali, revolucionar o espaço bojudo num maremoto rosso que não dura muito, mas é uma tempestade fascinante. Experimentem servir o vinho sem excessivo cuidado. Nada de tocar a boca da garrafa na borda da taça – deixem que o vinho escorra pelo gargalho, como num tobogã psicodélico e jorre, literalmente, entre a parede circular de cristal, mesmo que o cristal seja barato e tal. E não deixem nunca que uma moça leve taças ao seu apartamento – um dia ela some, e as taças ficam lá, e permanecem tristes e caladas e começam a se encher de poeira e você não as usa e um dia elas se quebram e você há de descobrir uma explicação trágica para essa perda e perdas, moços, melhor que não sejam explicadas.

Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones, John Bonham. Não precisa de explicações, né?

Também nem precisava de mais, mas vai essa versão, de bônus, bem legal

e olha (ou ouçam) o suingue dessa – The Who – nem parece, mas, ouçam alto:

o vinho é bom, sempre termina bom.


domingo, 11 de outubro de 2009

bilhete encontrado num biscoito chinês da sorte




foi esse o bilhete que encontrei ontem num biscoito chinês da sorte.

Ontem.

Mas só hoje abri.

Comi.

Sabor de nada, cavaco chinês.

Dizia o texto:

“Aja com humildade para que o outro se aproxime.”

É um bom conselho. Independente da atração sobre o outro, e mesmo se um outro houver.

Mastiguei, mastiguei, mastiguei.

Meu avô: recomendava mastigar mais de trinta vezes.

No dezesseis eu já estava pedindo arrego e engolindo tudo, pasta transformada ou não.

Meu avô também ralhou comigo um dia, no roseiral. Tinha um roseiral em sua casa, diante da garagem. Meu avô, quando comprava uma casa, exigia uma garagem. Nunca teve automóvel. É para valorizar o imóvel, dizia. E esta, agora? Diante da garagem, plantou um roseiral. Eu olhava para as rosas, mas as rosas não olhavam para mim. Neste dia, eu era um menino triste. Olhos tristes, boca triste. Que mais, triste? Os dedos? A camiseta? Não era por que as saúvas estavam devorando as rosas e as folhas verdes das roseiras. Sempre hão de existir saúvas num roseiral. Disso eu sabia. Só não sabia que não se podia deixar o chinelo emborcado. Dava azar. Dá azar, meu avô disse. Raios nervosos partiam dos seus olhos. Os adultos podem ser tão cruéis com uma criancinha.

Mas não, não chorei. Em vez, fiquei olhando as chinelas emborcadas. Imaginei que as formigas as transportariam para longe, ainda viradas, longe dos olhos do meu avô.

Se eu agisse com humildade naquele dia meu avô me daria uma surra com as chinelas.

É assim a vida.

Sem essa, biscoitinho da sorte: Não acredito em você.

Mas continuo acreditando em garagens, onde, diante delas, se plantam rosas. Sem perfume.




sábado, 3 de outubro de 2009

City



[Carla Bruttini, Detroit, 2009 Acrilico su tela cm 70 x 100]


Naquele tempo os dias passavam rápidos, como nuvens no céu.

Numa caixa aberta de Mate Leão, passarinho fez ninho.

Ficava no forro, onde cabiam meninos abaixo dos dez anos.

As telhas horizontais, de amianto. Podia-se caminhar sobre elas, sem perigo, mais próximos do céu.

O mundo era tão imenso.

As tardes permaneciam acordadas. Então, as nuvens interrompiam sua marcha e flutuavam, estáticas. O sol aquecia. As pálpebras se buliam, tímidas.

Lá embaixo a cidade quase não existia. As ruas vazias. Os adultos no trabalho. A faina era tão distante e desconhecida. Como os passarinhos, vez ou outra tornavam, nos horários das refeições.

Ele assistia o mundo se mexer, em retalhos de cotidiano. Desconhecia o compasso das horas, a fluidez dos minutos, a velocidade dos segundos.

Por que nunca tentou alçar vôo?



quinta-feira, 1 de outubro de 2009

P O D E R




Agora que ela se foi pode respirar sossegado Pode comer em paz e não mais saltar as refeições Pode dormir o sono dos justos e não mais permanecer insone buscando na linha cruzada do sartório dela o prazer a vida o aconchego Pode assistir filmes na tevê ler livros na poltrona urinar no box beber à vontade o vinho que ficou aberto e sem rolha na geladeira Pode sair de casa tranquilamente às duas e vinte da manhã e voltar com os passarinhos tilintando entre as pedras da calçada Pode e quem diria que isso seria possível? deixar as janelas abertas e a chuva varrer o chão da sala e os tapetes dos quartos Pode fumar em todos os aposentos e tropeçar o cotovelo em um dos infinitos cinzeiros deixando que as cinzas se percam em si mesmas Pode dormir no sofá da sala e deixar a tevê ligada e as luzes acesas e não trocar os lençóis e não fazer a cama e não tirar o lixo pra fora nem o gato de cima do fogão Pode tranquilamente ir ao bar da esquina responder com um sorriso à pergunta do garção por que tinha sumido tanto tempo e saber que sim tanto tempo tinha se passado e nem ele sabia quanto tempo era mas agora sabe e nossa como foi muito tempo desde então Pode também perguntar por aquela morena a de olhos verdes e cabelo índio e nem se preocupar com a resposta porque aquela outra loira já sentou à sua mesa e ele agora pode tocar em seu joelho redondo como se nada fosse e não não é como se nada fosse é apenas o sinal para que mais tarde ela suba ao seu apartamento e se dispa e e e aconteçam coisas maravilhosas que antes não poderiam acontecer porque ela estava ali Agora que ela se foi ele não sabe por que fazer nenhuma dessas coisas Porque ela se foi e ele pode respirar sossegado comer em paz dormir o sono dos justos Mas o ar é muito pesado a comida é sem sal e não há sonho na justiça.




[Robert De Niro The Mission 1986]