quinta-feira, 1 de outubro de 2009

P O D E R




Agora que ela se foi pode respirar sossegado Pode comer em paz e não mais saltar as refeições Pode dormir o sono dos justos e não mais permanecer insone buscando na linha cruzada do sartório dela o prazer a vida o aconchego Pode assistir filmes na tevê ler livros na poltrona urinar no box beber à vontade o vinho que ficou aberto e sem rolha na geladeira Pode sair de casa tranquilamente às duas e vinte da manhã e voltar com os passarinhos tilintando entre as pedras da calçada Pode e quem diria que isso seria possível? deixar as janelas abertas e a chuva varrer o chão da sala e os tapetes dos quartos Pode fumar em todos os aposentos e tropeçar o cotovelo em um dos infinitos cinzeiros deixando que as cinzas se percam em si mesmas Pode dormir no sofá da sala e deixar a tevê ligada e as luzes acesas e não trocar os lençóis e não fazer a cama e não tirar o lixo pra fora nem o gato de cima do fogão Pode tranquilamente ir ao bar da esquina responder com um sorriso à pergunta do garção por que tinha sumido tanto tempo e saber que sim tanto tempo tinha se passado e nem ele sabia quanto tempo era mas agora sabe e nossa como foi muito tempo desde então Pode também perguntar por aquela morena a de olhos verdes e cabelo índio e nem se preocupar com a resposta porque aquela outra loira já sentou à sua mesa e ele agora pode tocar em seu joelho redondo como se nada fosse e não não é como se nada fosse é apenas o sinal para que mais tarde ela suba ao seu apartamento e se dispa e e e aconteçam coisas maravilhosas que antes não poderiam acontecer porque ela estava ali Agora que ela se foi ele não sabe por que fazer nenhuma dessas coisas Porque ela se foi e ele pode respirar sossegado comer em paz dormir o sono dos justos Mas o ar é muito pesado a comida é sem sal e não há sonho na justiça.




[Robert De Niro The Mission 1986]



3 comentários:

Mme. S. disse...

essa sua mulher que está sempre partindo sem nunca ir embora (PS.: a sobrescrita não gosta muito de usar as palavras nunca e sempre... pede licença poética, neste caso). beijos querido.

midc disse...

e não é q vc resumiu bem a epopéia, sheyla? nunca e sempre parecem nomes de pétalas: bemequer-malmequer. beijos, desculpa pela pressa do outro dia qdo vc ligou...

Sara Warjde disse...

"Poder"?
Prefiro "direito"