domingo, 8 de fevereiro de 2009

Quando fui cavalo


Os cavalos andam enquanto cagam. Não são todos os animais que conseguem andar e cagar ao mesmo tempo. É um excelente negócio, sem desperdício de tempo. A bosta dos cavalos confunde-se com suas pegadas. O casco dos cavalos deixa uma marca profunda e cuneiforme na areia. A bosta dos cavalos não tem a mesma forma, mas há certa semelhança poética entre elas, bosta e pegada. Siga o rastro de um cavalo na areia – como quem entra num yellow cab em Manhattan e diz, altaneiro: “siga aquele carro!” – e você encontrará, cedo ou tarde, bostas de cavalo esparsas. Os cabritos e as cabras, talvez, consigam cagar enquanto andam. As vacas, não. As vacas podem também cagar enquanto pascem, aquela lentidão de passos, o úbere pendente, o rabo a espanar moscas, o pescoço sempre inclinado, o olhar bovino de quem pasta. Mas o mais normal é que caguem paradas. A bosta da vaca é um emplastro pastoso e quase único, desaba de uma só vez e deixa uma marca inconfundível no pasto. A bosta do cavalo, não – é expelida em prestações. E já sai seca. A bosta da vaca precisa que o sol lhe seque, mas só a crosta. Por dentro a bosta da vaca continua mole. A bosta das cabras – dos cabritos, dos bodes – é bem menor que a bosta dos cavalos e das vacas. São bolotas. Bolotinhas. Negras como carvão. A bosta das vacas pode ter várias cores, nuances. A bosta dos cavalos – e dos cabritos, cabras e bodes – é sempre negra. Preta. Retinta. Desconfio que a bosta deles não tem cheiro. Enquanto a da vaca, sim. Cagar enquanto anda é um excelente negócio. Os animais que param para evacuar são ridículos. Pense no homem: se agacha, furtivo. Não sabe cagar enquanto anda. O cão é ainda mais ridículo, adquire uma pose estranha, se dobra sobre si mesmo, arrasta o ânus no chão. Os cavalos não perdem a pose quando cagam – podem cavalgar, saltar obstáculos, ou simplesmente acrescentar um passo depois do outro, enquanto expelem seu cocô bem torneado. A bosta dos cavalos é discreta e não tem cheiro. Não provocam asco, não assemelham à sujeira. O rabo dos cavalos é elegante e farto, diferente do rabo esquálido das vacas, diferente do rabinho minúsculo das cabras, diferente do rabo polishop dos cães servis. Um cavalo só tem medo no olhar, mas duvido que o manifeste enquanto caga. Observe o rastro dos cascos do cavalo na areia da praia. Aqui ele parou, ali ele seguiu em frente e apertou o passo, mais aculá ele refugou. Entre uma estação e outra ele cagou: bostas compactas como umas mangas enegrecidas. Pequenas e ainda verdes, de duras. Me aponte um rabo de cavalo sujo de merda e eu direi: “És um homem afortunado, um entre milhão”. Já o rabo pobre das vacas está sempre sujo de merda. E as moscas lhes volteam o lombo. A bosta do cavalo ignora as moscas. O que é um grande negócio ser indiferente às moscas. Os cavalos, quando morrem, podem apresentar o abdômen inchado. E pútrido e fétido. Mas estão mortos e não são mais cavalos. Um cavalo morto não é um cavalo. Pois os cavalos se caracterizam pela capacidade quase única de cagarem enquanto andam. As cabras, os bodes, especialmente os cabritos, são risonhos e felizes. Têm um quê de desenho animado. A vaca é novela das sete. Os cavalos são épicos – no cinema: Cecil B. de Mille. Na literatura: Homero. Ou Dante. Há cavalos na Divina Comédia? Essa é uma pergunta que um cavalo nunca fará, mas a resposta seguramente será dada por um homem, aquele que se agacha enquanto evacua, que não consegue cagar enquanto caminha. Na música: Bach. Os cavalos exigem órgãos sonoros em igrejas dolentes. Os cavalos merecem sepulcros em catedrais. Os cavalos podem ser góticos. Os cavalos têm reinos – um homem, aquele que caga agachado, pronunciou: “Meu reino por um cavalo”. Não sei se lhe deram cavalo ou reino. Os cavalos, quando dados, cedidos, emprestados, não têm os dentes analisados. Quando o negócio envolve moeda de troca, vinténs, ouro, incenso ou mirra, o negócio é outro. O cavalo vale mais que uma boa esposa. O cavalo se deixa selar, mas se não gostar do bicho em seu lombo, corcoveia e o põe ao chão. Os cavalos não têm ilusões. Ao contrário das vacas, estas por si alucinógenas. A bosta das vacas é uma droga mui desejada por alguns daqueles que cagam parados. Você nunca verá um cavalo passeando de banana bolt.


Disso tudo eu sei e dou fé porque já fui um cavalo.

Um comentário:

lissa disse...

um texto, como direi, escatológico?