terça-feira, 1 de setembro de 2009

Como abandonar um corpo.



[Ouka Lele El espejo]


Para abandonar um corpo deve-se antes calcular seu peso, massa e volume – e as dimensões que ocupa na alma humana. Deve-se saber, ainda, a linha que o costurou – se em algodão cru, se em fio metálico, se em nylon de pesca, ou cipó, ou capim. Apreender os modos e os caminhos dos nós é também de vital importância. Como penetrou na pele, idem. Hoje, sabe-se que os perfurocortantes são especialmente rancorosos.

Para abandonar um corpo deve-se entender qual instrumento responde melhor à necessidade imperiosa de medir sua sombra entre as ranhuras da calçada. Um certo conhecimento musical é válido, e de grande serventia, especialmente quando as sombras são do tipo helicoidal. Sombras do tipo coleóptero, é do conhecimento da gente que vive em laboratórios, são silentes. Sombras que arrastam redemoinhos são particularmente invejosas. Atrás delas é comum, e até esperado, que a matilha arda em febre, sedenta de sangue.

Para deixar um corpo ir – e esse trecho é fundamental – é preciso antes agarrá-lo. Com unhas, se necessárias. As mordidas, mesmo que arruínem o objeto, são permitidas. Os caninos não são mais contundentes que os molares. Atentem para o uso das mãos. Em muitas ocasiões o uso do sartório é de grande valia. Espécie quando traz em sua contratura a memória recorrente do que já foi – e ainda não se foi.

Para deixar um corpo é preciso antes tê-lo recebido.

Em toda a sua intensidade e grandeza. Em toda sua extensão e profundidade.

Para abandonar um corpo é importante manter as mãos suaves e perfumadas. Colher amoras é recomendável. Afrouxar a coleira de cães pode trazer bênçãos. Acreditar no infinito, leva a atalhos.

Muitas linhas têm as mãos. Em suas plantas. A linha da vida, a do tempo, amor, doença. É quando se separam, não em seu encontro, que reside o segredo de bem deixar partir o corpo que se deseja que parta.

Olhar as rugas no espelho ajuda nos casos de corpos antigos. Mudar a disposição dos móveis da sala, naqueles mais novos. Corpos de um dia podem ser mais perigosos do que corpos com muita existência nas costas. (Os cálculos são feitos a partir da angulação das vértebras.)

Para abandonar um corpo deve-se evitar caminhos muito sinuosos, veredas muito afastadas, senderos luminosos. A lua nova é ideal. Em noites de lua plena, esqueça. Apague as luzes, retire os eletrodomésticos das tomadas, ferva água numa chaleira. Após uma noite de mergulho e imersão, aguarde ao menos quarenta dias – para proceder à nova tentativa. Antes disso é não apenas inútil como altamente desaconselhável. Durante a quarentena o exercício da dança mostra-se excelente bálsamo. Se não cura feridas nem acelera cicatrização, ao menos conforta.

É preciso estar descansado, ao abandonar um outro corpo. Há registros de corpos extenuados que se deixaram levar junto ao corpo que se pretendia abandonar. Desconfia-se que esse era o real desejo. O encanto. O alumbramento. Mas são casos perdidos e não devemos com eles nos preocupar.

Esse é um manual para quem precisa abandonar com premência o outro corpo.

Para os que desejam sobreviver.

Para abandonar um corpo é preciso estar atento aos primeiros sinais de degeneração. Recorrência de sonhos. Olhos abertos colhendo estrelas em plena luz do meio-dia. Arrepio n’alma.

Casos em que o sujeito prefira acompanhar o ondular do vento nas pétalas das flores da campina em vez de pedras carregar são condenados, fadados ao fracasso, impossibilitados de solução.

Para abandonar um corpo é obrigatório conhecer o estado da casa onde o corpo reside. A coabitação dificulta, mas mesmo sem esse antecedente, o esforço pode ser maior do que se imagina. Os novos manuais não mais diferenciam casos assim. Os tempos são outros etc. E quando os tempos são outros etc. não adianta insistir em ilusões perdidas, em bosques de replantio, em rearranjos astrais.

Não adianta.

Desmontar uma casa em pedaços que não se unem jamais é tarefa que exige mais cérebro do que músculos. É trabalho de Heracles, apenas pela dificuldade envolvida. A isso nomina-se metáfora. Não se carrega um caminhão de mudanças com metáforas. O abajur dourado? A caixinha de música? A mulher grávida entalhada na madeira? O quadro de Peter? O long-play riscado? Para abandonar um corpo os tempos são outros etc.

Para abandonar um corpo procede-se assim: com uma leve pressão ao contrário, abra os dedos, um após o outro. Feche os olhos. Ouça o vento. Se ele tornar-se excessivamente rumoroso é você quem foi largado. E o corpo abandonado é o seu.



4 comentários:

lissa disse...

belo texto, do início ao fim.

midc disse...

ainda não acabou, lissa, só na ficção

lissa disse...

melhor ainda, então.

Diz disse...

Uauuuu, beleza de texto.