sábado, 13 de junho de 2009

Isagoge




Com os restos de palavras suas reconstruí parte do mundo, ou ao menos mais um graveto partido e esquálido para o ninho que nunca edificaremos. Não houve como evitar. Parabéns. Você me disse. E desta vez não retruquei. Eu posso. Você pôde – acrescentando um sic entre parêntesis maternos – (sic).


Ah. Sic. Sick. Sicky. Palavras inglesas. Não minhas. Se é ficção. Se é realidade. A vida não imita a arte, imita a vida, mesmo.


A vida e seus anzóis. A vida e seus anéis. A vida e seus dedos.


A vida e seus comentários.


Todo esse labirinto de palavras. Toda essa teia de não-promessas. Toda essa ferrugem cobrindo sonhos, agasalhando invernos d’alma.


Tudo é desencontro. E desassossego. Você, que está sempre partindo, mala e cuia nas mãos, os vagões açoitando seus cabelos.


Você. O capote escuro, pesado, caindo seus ombros sobre bagagens perdidas. Achados, perdidos, reencontrados.


Neste momento milhares de pessoas embarcam, seguem viagem.


Noutro, milhares de pessoas fizeram o mesmo. Viagem. Farão. Viagem.


Trens cruzam trens. Aéreos passam sobre rotas de outros aéreos. Barcos chapinham seus cascos de aço em oceanos profundos. Um pirata palita o dente. Uma jovem esposa abre a caixinha e descortina brincos de pérolas. Uma senhora, o cê duplo marcando a bolsa, vagueia seu corpo diante de vitrines iluminadas.


Nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que é branco é pérola, nem todo peito é nacarado.


Uma moça serve café.


Outra acabou de mudar-se. Deixou a mala fechada e desceu para tomar um copo de vinho na esquina e não comprar cigarros e olhar pelo clarão da fachada e lembrar o amante quilômetros além, milhas náuticas, bússolas partidas, relógios sem corda.


Apenas eu e você restamos na cidade vazia. Nossos corações batendo forte em esquinas por onde passamos em horários diferentes, em dias diferentes, em vidas diferentes, evitando o encontro, o naufrágio, o acidente, os corpos por resgatar.


É assustador, eu sei.


Já passei por isso. Era preciso uma bicicleta, uma noite fria, uma chuva providencial e uma avenida ao longo de um rio para sentir na realidade o que é ficção, sonho, ilusão. Para desenlear as rotas, desenjaular medos, desencantar recifes.Não sei de suas palavras. Das minhas, soçobro.

2 comentários:

Diz disse...

Legal.
bj Elianne

Maria disse...

as vezes você escreve que até assusta: as palavra ganham vida e parece que tudo acontece aqui ao meu lado...
assim como as aeronaves no espaço...revoada de andorinhas em pequenos povoados...revoada de metralhas em uma caminhda que fiz na mata. Assusta, mas é lindo!