terça-feira, 2 de junho de 2009

Na cidade de Paris, 6ème arrondissement, outono de 88
















para m.


Quando eu era louco, não me sentia dentro de mim; que é como dizer: não morava em mim.
Luigi Pirandello Quando eu era louco... in Novelas para um ano – O velho Deus tradução Bruno Berlendis de Carvalho São Paulo Berlendis & Vertecchia 2000


Cada dia mais me permito a loucura

benfazeja.

Então, alguns conselhos

e dois ou três comentários:

Não se deixe enganar

Não passe ridículo

Escreva uma carta hoje à noite e não envie

nunca mais

Não beba vodka

Não morra de tédio

Não corte as unhas

Não lave os cabelos

Deixe a louça por lavar

e um pedaço de queijo na geladeira

Quando for madrugada

descalce todos os sapatos as chinelas os saltos as alpercatas os tamancos de madeira

e suje os pés na terra tentando colher a fruta mais madura que não há

Quando você for louco e a loucura se permitir

– se instalar em sua morada.

Você, que vive em sítio tão congestionado.




(duas garrafas de tinto e pimenta-do-reino nos olhos: é quanto basta para que eu conte do dia frio de outono em que fiquei plantado no jardin du luxembourg: ou foi nas tulherias: quando eu vivia em paris: era outono e nos instalamos em hotel de quinta em rua de ambulantes: era outono e o vento varria folhas para debaixo de velhos citroëns estacionados: era outono e meu casaco nevava: fazia mais frio dentro do que fora do meu casaco dois tamanhos maiores: as mãos congeladas: os pés plantados: você entrou na lojinha desde mil e oitocentos e alguma coisa pregava a fachada e me deixou do lado de fora: le chien andaluz: un perro andalou: seu casaco no tamanho justo capa longa contrastando o batom vermelho-sangue a ponta do seu nariz tão fria seu dedo erguendo o óculo de grau: você comprou uma caixinha de música e girou a manivela minúscula e uma canção dos beatles fez tremer as folhas do jardin du luxembourg: fazia tão frio dentro eu disse: mais que lá fora onde o cãozinho espanhol o rosto moreno sujo sem lavar esperava: eu nunca estive tão só nos setenta e três anos em que vivi em paris: quando eu vivia em paris e era louco por você:)


... aí vem o vinicius e fala, cigarro de cinza longa entre os dedos,

existe sempre uma mulher Pra se ficar pensando Nem sei, nem lembro mais
Vinicius de Moraes A carta que não foi enviada
[fotograma de buñuel, claro]



8 comentários:

finderfinder disse...

Guapo, seas tú y Buñuel. Olé, tú. Sea el perro andaluz y tu obscuro objeto del deseo.
Finder

Maria disse...

... Where am I where can I go?...

Diz disse...

Uauuuuuuuuuuuu
que beleza de texto!
Lindo.
Vc é mto interessante, rapaz.
Queria saber escrever assim.
Bj Laura

midc disse...

thanx, laura, mas quem disse q vc nao escreve? basta conferir no seu lauravive (ou caminhar - link ao lado em faraway, so close)

Diz disse...

midc, tks, Laura :)
PS: vc mora em Natal? vai no lançamento do livro? fico tímida, não conheço as pessoas... tsc tsc tsc

midc disse...

vou sim, certeza, nos vemos la

Mme. S. disse...

amei esse post.

Diz disse...

Oba!
surep