segunda-feira, 31 de março de 2008

Levante de leopardos | Extractos




Ler não apenas deformou sua imaginação; seqüestrou-a.
[Susan Sontag DQ Questão de ênfase tradução de Rubens Figueiredo São Paulo: Companhia das Letras, 2005]


Ele não saíra do lugar, mas já não era o mesmo jumento. Pois entre as patas traseiras, ereto, pendia um membro enorme. Era mais rijo que o bastão com que o ameaçavam na noite anterior. Na fração de tempo em que eu lhe dera as costas, dera-se nele uma alteração assombrosa. Não sei o que ele viu, ouviu ou farejou. Não sei o que lhe passou pela cabeça. Mas aquela criatura miserável, velha e fraca, que mal se agüentava nas pernas e só servia para diálogos obstinados, mais enxovalhada que os outros jumentos de Marrakech, aquele ser que era menos do que nada, sem carnes, sem forças, quase sem pele, ainda guardava em si tanto desejo, que a mera visão daquilo me livrou da imagem de sua miséria. Penso nele com freqüência. Penso em quanto dele ainda estava ali quando eu já não via nada. Quisera que todos os flagelados preservassem o desejo em meio à miséria.
[Elias Canetti As vozes de Marrakech tradução de Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2006]


Como sabê-lo inteiramente, e possuí-la sem nenhum vislumbre de memória, sem nenhuma intromissão dos seres que já havia amado e que provavelmente haviam lacerado sua alma com fundas marcas? E foi só a este sentimento de ciúme, total na sua força e na sua masculinidade, que eu compreendi que se achava definitivamente extinto o que em mim existia de infantil. Outro ser começava a se erguer no meu íntimo, agressivo, imperioso, cheio de fome e de sede de absoluto, como um animal que repontasse de selvas primitivas.
[Lúcio Cardoso Crônica da casa assassinada Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000]


Um temperamento meio nervoso, meio bilioso, assim é o mais favorável às evoluções de semelhante embriaguez; acrescentemos um espírito culto, habituado aos estudos da forma e da cor; um coração terno, fatigado pela infelicidade, mas ainda pronto para o rejuvenescimento; iremos, se ainda quiserem, até o ponto de admitir antigas culpas e, o que deve resultar em uma natureza facilmente excitável, senão remorsos positivos, ao menos o arrependimento do tempo profanado e mal-empregado.
[Charles Baudelaire Poema do haxixe tradução de Alexandre Ribondi Os paraísos artificiais O ópio e Poema do haxixe Porto Alegre: L&PM, 1986]


Somos, todos nós, guardados e engordados para a morte;
vara de porcos, nos trucidam sem razão.
[Paladas Poemas da antologia grega ou palatina tradução de José Paulo Paes São Paulo: Companhia das Letras, 1995]


E é uma grande coisa morrer em nossa própria cama, embora seja melhor ainda morrer de botas. Por maior que seja a gentileza e a eficiência, em toda morte em hospital haverá algum detalhe cruel e sórdido, algo talvez pequeno demais para ser contado, mas que deixa recordações terrivelmente dolorosas, que surgem da pressa, da aglomeração, da impessoalidade de um lugar em que todos os dias pessoas morrem entre estranhos.
[George Orwell Como morrem os pobre Dentro da baleia e outros ensaios tradução de José Antonio Arantes São Paulo: Companhia das Letras, 2005]


ou: levante de leopardos
fulvas miniaturas de furor
cada faísca despede uma
boca numinosa
[Haroldo de Campos aproximações ao topázio Signatia quase coelum São Paulo: Perspectiva, 1979]

Um comentário:

napoleão de paiva disse...

Caro Mário,
Que belos excertos. A princípio me rendi ao ‘jumento de Marrakech’, de Canetti, e ao ‘animal de selvas primitivas’, de Lúcio Cardoso. Numa segunda leitura, vi que tinha lido pouco: ’e é uma grande coisa morrer em nossa própria cama’, de Orwell, e ‘um coração fatigado de infelicidade e pronto para o rejuvenescimento’, de Baudelaire, são provas fulgurantes de que estamos usando pouco (e mal) o que a naturaleza nos legou. Ou estamos mesmo sentenciados ao 'amanuelamento' servido pela onipresente ‘mass media’?
Que nos livre todos os deuses.
Napoleão de Paiva.