sexta-feira, 16 de maio de 2008

Haja cultura pra cuspir na cultura [130508]


[detalhe distorcido de foto original de giovanni sérgio]


Fala-se muito na Capital do Ryo Grande. Um disse-me-disse dos demônios.

Às vezes acho que a imprensa só existe pra repercutir e ecoar essas fofocas – e se retroalimentar nelas, num processo autofágico onde nada se perde, tudo se recicla, de um extremo a outro do tubo digestivo.

A essa altura da coluna, terceiro parágrafo se iniciando, as almas sebosas e pias – e aquelas que comungam em ambos adjetivos – devem estar aguardando, ansiosas, que eu desça o cacete no Colunismo Social (Capitalize Each Word, que é de bom tom).

Não, neguinhos e neguinhas: vou descer o malho, mesmo, na Cultura, com cê maiúsculo, minúsculo, bold, itálico, o escambau.

Pense numa turma perigosa. Panelinhas, arrumadinhos, turminhas, qui-qui-quis, quó-quó-quós, blá-blá-blás. E tudo edulcorado com o supra-sumo da boçalidade literária. Escrevas errado e serás criticado. Escrevas certo e idem. A conjugação também se aplica para outras atividades [sic] culturais: pintar, atuar, cantar, filmar – e por aí vai.

Ouse criticar um deus, semideus ou entidade menor dita cultural, artística, intelectual, que verás o furdúncio e rebuliço que se propaga feito fogo em pasto seco, esturricado: as vacas sagradas põem-se a mugir e baloiçar os guizos e amolar os chifres pra dar uma carreira no profanador de templos. Ou, se reúne uma reca de marmanjos ou moçoilas pra aplicar uma lição, sova, castigo, no indigitado.

A turma só se entende com tapinhas nas costas e bater de vidros de geléia recheados da velha cerveja doirada, precinho camarada pra quem tem, via de regra, os bolsos vazios.

Lembra aquele papo do sujeito que gasta 200 pro outro não ganhar 20. Dizem que a frase é de Cassiano Arruda Câmara. Ligo pro jornalista: “Não fui o autor, mas o divulgador durante muito tempo, desde os anos 70. Provavelmente foi ouvida em Nova Cruz, coisas da sabedoria popular. Mas continua valendo”, encerra célere o colunista, comentando ainda que esta “minha área”, a Cultural, “é muito árida”, além de diluída no entretenimento e no lazer.

Pois, gosto muito da releitura poética da frase, feita por Adriano de Sousa em “O alvissareiro”: “uma aldeia onde gasta-se 200/ pro galado da oca ao lado não ganhar 20”. As cerejinhas são os termos “aldeia”, “oca”, e o fenomenal “galado” – expressão que é a cara da Província.

Como a Cultura Potyguar é terra desolada, desamparada, paupérrima, favelizada, sempre com o pires nas mãos mendicantes, falar de 200, 20 ou dois mil-réis é besteira: aqui, intelectual não gasta nada pro outro intelectual continuar na penúria. Não gasta porque não tem. Mas faz um estrago danado. Sobem nas tamancas, empinam-se no salto alto, alçam voz e verbo, dedo em riste.

Esporte de intelectual é puxar tapetes. Ou esteiras, ou capachos, ou panos de chão. De preferência, claro, com o inimigo em riba.

E como têm inimigos os intelectuais que sobrevivem às margens do Ryo Grande! Nas Academias, nas Sociedades, nas Associações, nas Fundações, nas Universidades, nos Grêmios, nas guildas, nas calçadas, nas mesas. Lembra aquele poema do Drummond, às avessas: “João odiava Teresa que odiava Raimundo/ que odiava Maria que odiava Joaquim que odiava Lili/ que não odiava ninguém.”

O poema chama-se “Quadrilha”. Pois, pois, de associações com intuito mafioso o Erre-Ene é pródigo.

Quanto à Lili, coitada, que no poema original casava-se com J. Pinto Fernandes, “que não tinha entrado na história”, ih! Esse é o pior de todos!

3 comentários:

lissa disse...

concordo com tudo. em gênero, número e grau.

Moacy Cirne disse...

E eu concordo com Lissa, ou seja, concordo com você. Um abraço.

Anônimo disse...

A saída, diante do posto por você, é não participar, não freqüentar, acredito eu. Imagine se soubesse o que sucede na Universidade intra-muros, muros como metáfora-mor do que hoje (se)representa(se)perante a sociedade, o que está fora.

Gosto do que e como e escreve. Tanto substantivo, aquém adjetivos

Vamos para frente