sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Requiem aeternum



Em São Cristovão, Areia Branca, Rio Grande do Norte, existe um cemitério à beira-mar. Belíssimo. Parece abandonado, com seus túmulos baixos, suas cruzes imitando pequenos cruzeiros, sua ausência de muros, vigia, gente, a não ser aquela sob o barro vermelho. Ao menos era assim quando lá estive anos passados. O sol é inclemente, desaba como um martelo sobre as cores fortes, desmorona contrastes e as velhas pinturas sob as novas, como os mortos sob os pés dos vivos.

De vivos o cemitério guarda poucas recordações: quase que apenas coroas plásticas de flores, de datação indefinida. Como quando lá pisei éramos apenas nós, grupo de viajadores em seis almas, me pareceu um campo santo latino-americano, locação de um filme de Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Também Buñuel, mas prefiro os dois primeiros exemplos enquanto admitem o hibridismo pop que mescla mariachis e vampiros.

Aliás, não parece: é um campo santo latino-americano, como não? Plantando num promontório árido e terroso, vizinho ao mar e também a caveiras de burro, tem aquele exotismo cromático multicolorido mais próximo ao México, por exemplo, que ao verde-bandeira-pau-brasil. Ou às mil e uma cores dos vestidos das índias quéchuas.

Multicolorida, também, é uma seção do cemitério do Verano, em Roma, próximo à basílica de San Lorenzo Fuori Mura. As cores não vêm das flores. É a escala cromática de centenas de brinquedos, que emprestam ao ar naturalmente fúnebre um sentimento estranho que percorre a espinha em doses iguais de felicidade e melancolia: a seção do cemitério onde são enterradas as crianças. Nos cemitérios italianos é comum os túmulos verticais, pequenos prédios, blocos compactos, como gavetas de concreto empilhadas. Os pais vão visitar os filhos e deixam nos nichos naturais uma variedade enorme de brinquedos. Imagino que não são necessariamente os originais dos filhos, mas, justamente, novos brinquedos, que só assim podem chegar aos infantes a cada ano que passa para os que permanecem vivos. Parece uma enorme prateleira povoada de bonecos, bonecas, jogos, carrinhos, aviões, caixinhas de música.

Foi o som alegre de uma dessas caixinhas que me atraiu numa manhã de sábado, aonde a infância não tem fim. Era um som mágico e encantador. Abri um sorriso ao ouvi-lo. Dobrei uma, duas alamedas, como um ratinho de Hamelin. O sorriso se desfez, desajeitado, quando me deparei com a multiplicação dos brinquedos, e uns poucos casais depositando suas flores animadas. Mas a paz logo retornou quando não encontrei em seus semblantes nenhuma dor ou agonia. Apenas a saudade. Plácida, morna, eterna.

Os mortos de São Cristovão à beira-mar e os mortos de Verano fora dos muros antigos de Roma: por que os reuni hoje aqui?



Um comentário:

Rodrigo Levino disse...

isso me remeteu a "everyman", a pantomina encenada no século 19 onde os vivos são chamados a prestar contas aos mortos. título que aliás roth usou no seu último romance. coisa fina, diga-se. recomendo. aposto que em cinquenta anos leremos o "everyman" de roth como hoje lemos ivan ilitch. porque nos fim das contas vivemos nem que seja para calar nossos mortos. ou juntá-los, vez por outra como fez vosmicê. de alguma forma e cada um de nós sabemos o motivo, estamos prestando contas.