sexta-feira, 9 de novembro de 2007

História do olho, segundo Glauco Mattoso




da série FÁBULAS RASAS


Dois cidadãos trepavam pacatamente no Buraco da Maysa. O guarda chegou e foi logo dando o esporro:
- Pouca vergonha! Na via pública! Tamanhos marmanjos!
Antes que o guarda partisse para o uso da força, o passivo, que era uma versão Cassius Clay de Madame Satã, pediu ao parceiro com voz melíflua:
- Tira, Jorge.
Quando o outro saiu de dentro, o crioulão perdeu toda a feminilidade, agarrou o guarda pelos colarinhos e urrou:
- Escuta aqui, maninho, por acaso cê é o dono da cidade?
O guarda, apavorado com a reação, entregou os pontos:
- Não.
- É o dono da rua?
- Não.
- É o dono do cu?
- Não.
Soltando o pescoço do guarda, o crioulo voltou-se para o outro e pediu com voz melíflua:
- Bota, Jorge. (MORALIDADE: Entre bofão e bofete, não metas o cassetete)


[Glauco Mattoso, “O DIREITO DE IR-E-VIR” in Antolorgia – Arte Pornô. Rio de Janeiro: Codecri, 1984]


2 comentários:

napoleão de paiva disse...

Caro Mário,
A abordagem do tema ‘olho’, ou , ‘história do olho’, por vários especialistas neste blog, esta semana, chegou a todas as rodas (no melhor dos sentidos), e quase vira cu-de-mãe-joana.
Isto comprova a preponderância desse sentido sobre os demais, e até certo ponto justifica ‘isso’ de que vivemos no mundo da imagem, portanto, do olho.
Se algum crédulo, a princípio, pensou se tratar de um estudo oftalmológico, logo se deu conta de que o olho em questão não era o do pólo cefálico e sim, o do outro extremo corporal, o pólo caudal.
O interesse pela aula ganhou audiência, o que mostra o prestígio parelho de todos os olhos. Aí espocou a festa.
A propósito: por que será que tudo que se refere ao olho cego (de tantas&tantas lutas, utilidades, glórias, inglórias e serviços prestados), de repente se torna piada, descamba pra zombaria e faz mostrar os dentes?
Felizmente há os de espíritos sensíveis, como o poeta (ah! sempre eles...), que em meio às emanações da ‘flor sulfurosa’ confessou a saudade do livro da ex-mulher, quase chorou a sua falta, e leu um poema ao ‘olho’ – arretado, ou, excitado, para usar suas palavras.
Outro internauta não se conteve e rugiu pra Bocuge. Outros rangeram de desejo pelos mais variados motivos. Sem falar nos que quase subiram aos céus com a voz melíflua do negão Cassius Clay/Madame Satã, de Glauco Matoso: Tira, Jorge!; Bota, Jorge!
Definitivamente, um assunto para um ensaio. Escatológico? Pode ser...‘no entanto, rosa’.
Habilite-se.

midc disse...

e apesar de algumas caras feias, preconceitos e opiniões de q talvez eu esteja com uma certa fixação, digamos 'anal', a história, histórias do olho continuam na próxima semana... quanto ao ensaio, já está aí, mais ou menos seriado e enriquecido com comentários como os seus, com a licença do trocadilho anatômico, do caralho!