segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Crônica de Natal





Supra-sumo do gênero, a Crônica de Natal renova-se a cada ano, infatigável como a árvore, os presentes, o papai Noel e, em menor escala, os presépios.

Leio nas folhas a banalidade da tristeza no período, normalmente efervescente. “O Natal é uma data diferente do restante do ano, em que alguns sentimentos são impostos, um discurso geral de amor e paz. E muitas vezes a pessoa não se sente assim, ou não está bem – com ela mesma ou a família – e constata que não pode mentir. É daí que surge a tristeza”, explica a psicanalista Odete Bezerra ao Jornal de Hoje, de 22 e 23 de dezembro.

O problema do Natal – segundo a (pouco) humilde (ora, vão se catar!) opinião do subscrito – é a sua proximidade com o fim do ano: réveillon e ceia natalina se atravancam, se sobrepõem, se engalfinham, numa proximidade que chega a ser promíscua com todo seu farfalhar de risos, guizos de renas, espocar de champanhas e consumismo febril embalado em papéis multicoloridos. No curto espaço de sete dias, o cidadão que não quer sentir-se marginalizado e tratado qual um chato de galochas, deve descalçar, pois, as ditas cujas e vestir, na seqüência, uma camisa encarnada e outra branca – de preferência com um dourado PAZ em letras garrafais brilhando no peito.

Deve encarar, também, uma despesa muito além do 13º, dando presentes (“lembrancinhas”) até para aqueles a quem não dignou olhares ou palavras durante todo ano – a começar pelo porteiro do prédio.

Para os brasileiros, terra onde, sabe-se, Deus nasceu, o qüiproquó aumenta com a chegada do verão, que por sua vez se interpõe ao carnaval (que nos honra com o título de “país do”) e coincide com as férias escolares. Resultado: finda-se mais um ano onde pouco fizemos, pouco ganhamos, pouco comemos e pouco amamos, para começar, só dois meses depois o tal do Ano Novo tão celebrado.

Não sei o que incomoda aos mais novos, nem se algum incômodo têm. Quanto aos mais ou menos velhos, entre os quais me incluo, bem na coluna do meio, zebrado, a ladainha é a mesma: bom mesmo eram os natais de antigamente, um presentinho singelo embaixo da cama (quase nunca o Forte Apache ou o Autorama), a Missa do Galo (que detestávamos ir, cabelinho repartido e roupas engalanadas pra ouvir o sermão literal do padre), a família reunida (a quem olhávamos estranhados e que nos retribuía com o mesmo olhar de desaprovação).

De famílias fizemos umas duas, três, alguns filhos espalhados pelo país e pelo mundo, o que complica o momento das apresentações para aquela velha tia que não se modernizou. De presentes esbanjamos o que temos e o que não temos graças às infinitas prestações, suaves no afã da compra, pesadas o resto do ano. Da Missa, do Galo, da Galinha, da Meia-Noite, do Meio-Dia, guardamos fiel e consagrada distância, mais preocupados com o menu e o rótulo do vinho, connaisseur que somos dos mistérios eternos que nos resumem: quem somos, de onde viemos, para aonde vamos.

E, ainda assim, um pouco hipócritas, um pouco sinceros, espalhamos lá e cá, como flores em festa pastoril as palavras que repito aqui, hipocritamente sincero: FELIZ NATAL A TODOS!

2 comentários:

Anônimo disse...

Cuidado, existe um papai Noel na porta principal e a Natal do passado é sempre melhor do que os natais de hoje em dia. No fim do ano os provincianos sentem uma irresistível vontade de cantar uma linda manhã parnasiana. Na cidade dos reis, depois dos quarenta, todos ficam memorialistas cheios de saudade. Dia 23, 1630h, ouvindo Arnaldo Baptista.

Carito disse...

Pé na tábua embaixo da cama... fé na tábua de passar tempo... a missa, a premissa... e pós... em nome de pai, de mãe, dos nossos avós... que a familha seja uma boa porção de Natal cercada de Felizes Anos Novos por todos os lados... Até já!