sábado, 8 de setembro de 2007

Ratatouille



O “consultor gastronômico local” contratado pelo governo do estado para dar de comer aos empresários da Fiesp, citado por Mônica Bergamo, hoje na Folha [aqui, para assinantes], e entendido por Ailton Medeiros [aqui, para qualquer um] como paulista, não é uma coisa nem outra: François Schimitt tem casa na badalada praia de Pipa há pelo menos dez anos, já foi casado com natalense e teve um bistrô no CCAB de Petrópolis – Vatel, como convém a um bom chefe francês.

Ah! e nas horas vagas, o rapaz, muito além do fogão, pilota pranchas de surf – acima e abaixo, na Baía dos Golfinhos (no meu tempo, Curral do Canto), dois anos atrás.



some girls are bigger than others

From ice-age...

words by Morrissey


recorded in England, Winter 1985


some girls mothers are bigger than others girls mothers


... to the dole-age

words by Morrissey

recorded in England, Winter 1985


sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Nos passos do Pastor


Parece que foi ontem.

Foi.

Eu digito o nome, mágico, sonoro, quase miragem: J-o-h-n-d-o-s-P-a-s-s-o-s.

“Pósto” – verbozinho infame, presente do indicativo de postar, o que me faz sentir mais ou menos um galinha depenada cacarejando ninhos histéricos; posto, enfim, e me dou um passeio ao centro da Cidade dos Reis.

Casario baixo, ruas estreitas, pouca gente nas ruas estreitas, muitos carros estacionados nas ruas estreitas.

A avenida Rio Branco abre-se como uma clareira uma explosão luminosa um clarão de ônibus tossindo fumo negro.

Atravessar a Rio Branco fora da faixa de pedestres é quase um esporte local. Bem pouco aventureiro, ressalte-se.

Sem a parada d’ônibus em frente, o Sebo Encarnado não existe. Ao menos por inteiro. Tanto quanto os livros desmantelados, equilibrando-se bêbados uns sobre os outros, uns entre os outros, derramando-se das estantes como água duma torneira esquecida aberta, os passageiros que esperam na parada em frente, são eles e elas o verdadeiro espírito do Sebo. Elas mais que eles, que espiar a mulher alheia é esporte maciçamente masculino.

A janela aberta do mundo.

A clarabóia, o periscópio gigante, pulmão artificial das entranhas de papel e bolor.

O Sebo Encarnado é uma caverna.

Abimael Silva é seu pastor.

E nada nos faltará.

Nos escombros da caverna tem um armarinho desconjuntado. Não lembro se de madeira ou de metal. Não lembro se com ferrolho ou desprotegido.

É a cartola de mágico do livreiro.

Ele ergue-se da sua espreguiçadeira, as havaianas contraídas em passos rápidos, inclina-se e de lá sai com um volume na mão, já lendo.

O senhor é meu pastor e nada me faltará.

Uma vez, de lá saiu A cozinha africana, de LCC, edição única de Angola; oitenta reais na estante virtual.

E outros. Tudo tão raro, tão jóia, despertando, alardeando nossa cobiça, que preferimos vezes nem perguntar se o mimo pode ser vendido.

Pois, ontem, o livreiro tira da cartola o nosso senhor dos Passos. E dane-se a recitar as passagens onde o americano flana por uma Natal que conhecemos de memória e apenas nela.

- Quanto?

- É da casa. Mas podemos tirar uma xerox pros amigos.

O senhor é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, com um bom livro nas mãos.

E surge o Marechal Porpa. E diz que esteve com John dos Passos. Que o levou para conhecer Aluízio Alves. Que publicou reportagem de primeira página na Tribuna do Norte. Que existe uma revista americana com AA na capa. Que esteve cinco vezes na América e esqueceu de procurar o tal magazine. Que Aluízio dispensou um candidato, dos cinco, seis que o acompanhava em campanha, pra acomodar o escritor no aviãozinho. Que John dos Passos falava português.

O Marechal carrega o último exemplar das pelejas de Ojuara, edição portuguesa, não deu nem tempo de espiar. Os outros foram para Vicente Serejo e, parece, Woden Madruga.

Desço a Rio Branco, a Rua Grande duma época passada. Quero fotografar o ônibus de Binladen, invenção wodenmadruguiana. Sumiu. Uma e dez da tarde de quinta, seis de setembro.

Me pergunto se foi o departamento de trânsito de Cidade dos Reis ou se foi a CIA.

Onde andará Binladen?

Noitinha, Lívio Oliveira esparrama seus hai-kais num negócio de livros acondicionado no centro nervoso da City. Promove o encontro de amigos e inimigos, de conhecidos e desconhecidos, de Fernando com João:

“Viver é muito
perigoso.
É preciso
saber onde
vai dar
o barco.”

Onde andará Binladen? Qual calçada estaciona seu ônibus mágico? Quem pastoreará as mocinhas subindo nos ônibus da parada vermelha?

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Dois diálogos à distância de meio século

Ponta do Mel, RN


Banho de mar em Ponta Negra, década de 50.

Os dois padres dentro d’água.

Um, mais calmo, reflexivo, mais ligado às cousas do espírito, sorriso beatífico sempre estampado no ar.

O outro, inquieto, agitado, poucas palavras, uma máquina para trabalhar.

“Um dínamo”, reconheceria o primeiro a respeito do segundo. E com um “ar de Savonarola”, poderia acrescentar o escritor americano John dos Passos (como realmente o descreveria em seu livro O Brasil desperta, Record, 1964).

Pois, estão os dois padres mergulhados nas águas de uma Ponta Negra bem diferente da atual. Onda pra cá, onda pra lá, os imagino num fim de tarde, maré baixa e águas mornas. Lá pras tantas o primeiro diz pro segundo:

- Fulano! Olha aquela jangada! Como é poético...

O outro, sem pestanejar:

- Sabe, Sicrano, hoje instalei no Bom Pastor o primeiro WC.

Eram Dom Nivaldo Monte e Dom Eugênio Salles. Em tudo diferentes, além das personalidades ímpares: o primeiro era de família pobre e dizia, sem constrangimento, ter passado fome na infância. O segundo era filho de desembargador e chegou a ser arcebispo do Rio de Janeiro, além de uma das vozes mais ouvidas nas entranhas do Vaticano.

Quem duvidar, basta dar uma espiada no livro do padre Alceu Ferrari, Igreja e desenvolvimento: o movimento de Natal (Fundação José Augusto, 1969).

Ontem, Diógenes da Cunha Lima lançou O semeador de alegrias, biografia de Dom Nivaldo. Ontem, o repórter da Tribuna ainda cutucou o autor:

- Mas, não é uma biografia tradicional. É mais um trabalho pessoal, uma coletânea de depoimentos...

O biógrafo informal Diógenes, que não é besta, poético como o Pe. Nivaldo e rápido como o Pe. Eugênio:

- Dom Nivaldo merece muito mais que um só livro. Esse é só o primeiro. Deixo a biografia conclusiva para os outros que virão depois...

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

um artigo requentado [não requintado] em forno a gás [not microwaves]





  • Cozinha. Antes relegada a uma simples extensão do quartinho de empregada – e unido a este pela área de serviço – a cozinha vem adquirindo ares de Casa-Grande, se distanciando cada vez mais da Senzala. Quando o ex-presidente FHC quis dar uma de politicamente (in)correto, saiu-se com um “até eu tenho um pé na cozinha”.

    As negras gordas e beiçudas, pano amarrado na cabeça, estilo Tia Nastácia, de Monteiro Lobato, se transformaram nos modernos chefs, jaqueta branca com botões laterais e o indefectível nome bordado no peito. E aquele estranho chapéu, misto de panetone com cogumelo atômico. Todos brancos, alvos, imaculados – claro.

    Agora que somos todos gourmets, não custa dar uma repassada em textos literários e celulóides que se debruçam sobre o tema, que nem os grandes chefes, colher de pau na mão e dedo mergulhado no tacho sobre o fogo.

    Pra começar, O perfeito cozinheiro das almas desse mundo. Oswald de Andrade para saciar o apetite dos modernos de décadas passadas (cada década tem seu moderno que merece). A edição fac-similar é da década passada. Não tem nada a ver com cozinha, mas o título é lindo. Os mestres-cucas, comandados por Oswald, imaginaram coletivamente o diário de uma normalista, aka Miss Ciclone. Tudo escrito, colado, pintado e desenhado numa garçonnière no centro de São Paulo. O ano era 1918. O aluguel subiu, os pais descobriram o excesso de faltas na Escola Normal e Miss Ciclone voltou pro interior paulista.

    Dez anos se passaram e a cozinha da perfeição se transforma na Revista da Antropofagia, que publica o Manifesto Antropófago, lido pela primeira vez na casa de Mário de Andrade. O mesmo Mário que em carta à Cascudo, 26-XI-1925, revelava sua inapetência, decorrência de “doença que não mata mas maltrata”, agravada pela falta de saúde financeira (“Estou carecendo de arames para pagar o médico...”): “Agora bateu mais esta rebordosa! Fiquei abatido, palavra. Comendo arroz sem sal e no azeite e quasi que nada mais. Na miserinha de bolachas e leite”.

    Daí para Nelson Pereira dos Santos requentar o caldo da nouvelle cuisine com o cinema novo são quase cinqüenta anos. Como era gostoso meu francês (1971), dizem, causou mal-estar em Cannes, com os índios cozinhando o compatriota. A receita é de Hans Staden: “Golpeiam o prisioneiro na nuca, de modo que lhe saltam os miolos, e imediatamente levam-lhe as mulheres, o morto para o fogo, raspam-lhe toda a pele, fazendo-o inteiramente branco, e tapando-lhe o ânus com um pau a fim de que nada dele se escape”.

    O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, de Peter Greenaway, embrulharia muitos estômagos em 1989. O enredo está quase todo no título: um mafioso banca restaurante sofisticado, em busca da ascensão social. Sua mulher acaba nos braços de um livreiro, cliente solitário do restaurante barroco. O cozinheiro acoberta os amantes, que trepam com apetite voraz na despensa do estabelecimento. O final – bom, o final é naturalmente antropofágico. E pessimista-otimista: impedidos de circularem livremente num mundo de baixa cultura, os livros só alcançam a redenção e a eternidade em ritual místico-religioso – bebei o meu sangue, comei minha carne, etc.

    Pouco visto e comentado, Comendo os ricos (1987, Peter Richardson) faz humor negro ao contar a história de um garçom negro – ops! – que ao ser demitido junta-se a outros desempregados para caçarem porcos capitalistas...

    Vivos! (1992) é mais cru, realista, e, digamos, menos “artístico”. Vai direto aos fatos: baseado em fato real, sobreviventes de um desastre aéreo nos Andes dedicam-se, famélicos, ao canibalismo.

    Também na base do “canibalismo por necessidade”, A narrativa de A. Gordon Pym (Cosac & Naif, 2002), do mestre Edgar Allan Poe. O narrador, não ainda no auge da fome, mastiga pedaços de couro retirados de malas – na seqüência, tira a sorte com palitinhos, junto com seus três colegas de naufrágio: “quem tirasse da minha mão a mais curta das lascas morreria para a preservação do resto”. O relato é curto: “Baste dizer que, tendo em alguma medida aplacado no sangue da vítima a sede ardente que nos consumia, (...) devoramos o resto do corpo, pedaço a pedaço, ao longo dos quatro dias para sempre memoráveis de 17, 18, 19 e 20 de julho”.

    Achou tétrico? Há quem ache o mesmo do hábito carnívoro dos humanos mamíferos: “Vou falar abertamente: estamos cercados por uma empresa de degradação, crueldade e morte que rivaliza com qualquer coisa que o Terceiro Reich tenha sido capaz de fazer, que na verdade supera o que ele fez, porque em nosso caso trata-se de uma empresa interminável, que se auto-reproduz, trazendo incessantemente ao mundo coelhos, ratos, aves e gado com o propósito de matá-los”. É a voz da escritora Elizabeth Costello, personagem de J. M. Coetzee, em A vida dos animais (Companhia das Letras, 2002). Imperdível.

    Swift não aconselhou os ricos comerem criancinhas pobres?

    Não à toa, Glauber Rocha em carta escrita em 1976 cita o cozinheiro perfeito: “Oswald fala que a antropofagia em alto-astral produz sexo, amor, arte”. Pra concluir, glauberianamente incompreensível, “o vatapá (palavra que remete a um sentido não expresso por causa da censura) concluiu o meu exílio”.

    Recorro ao Dicionário do Folclore Brasileiro em busca do tal sentido não expresso para "vatapá", mas Cascudo não dá nada mais que a receita e a origem do nome. Em compensação o Dicionário fala muito sobre comida e bebida, sem esquecer “a Velha do Chapéu Grande”, que é como os sertanejos chamam a fome, e o jejum obrigatório da sexta-feira da Paixão, numa época quando as tradições ainda persistiam. Companheiro, lembra Cascudo, vem de cum panis. “Comer junto é aliar-se”. Quer saber como preparar um crambambali? O folclorista cita Richard Burton e dá a receita: “Derrame numa panela grande e funda uma garrafa de boa aguardente branca, junte uma quantidade suficiente de açúcar, esquente, e deixe fervendo. Junte gradualmente uma garrafa de Porto, e, quando o fogo decrescer, junte um pouco de canela e umas poucas fatias de lima”.

    “O lugar que eu mais gosto neste mundo é a cozinha”. Assim começa Kitchen (Nova Fronteira, 1995), de Banana Yoshimoto. Parece que o livro fez um sucesso danado mundo afora. Mikage Sakurai, a protagonista, é órfã de pai e mãe, perdeu o avô quando concluiu o segundo grau e a avó quando começa a relatar seu encontro com Yushi e Eriko. É um livro de poucas páginas, pouco mais de cem. Curto. Fino. Simples. Como um sashimi. Ou como a definição de Mikage para cozinha – “um lugar onde se faz comida”.

    Do lugar onde é feita, a comida deve ser servida. “Abaixo dos candelabros, abaixo das armações de cinco andares que elevavam para o teto as pirâmides dos ‘doces de enfeitar’ que nunca se consumiam, estendia-se a monótona opulência dos table à thé dos grandes bailes: cor de coral os camarões cozidos em vida, viscosos e cor de cera os chaud-froids de vitela, cor de aço os barbos imersos em molhos espessos, os perus que o calor do forno dourara, os pastéis de foie gras, rosados sob couraças de gelatina, as desossadas narcejas reclinadas sobre túmulos de pão torrado cor de âmbar e enfeitadas com as próprias vísceras trituradas, galantinas cor de aurora, dezenas de outras cruéis e coloridas delícias.” O menu do Príncipe de Lampedusa come-se com os olhos, em tecnicolor. O Leopardo continua, com os doces: “Aí imensos babà cor de canela como o pelo dos cavalos, monts-blancs nevados de nata, beignets Dauphin que as amêndoas mosqueavam de branco e o pistacio de verde, colinas de profiteroles de chocolate, morenas e gordas como o humo das planícies de Catânia, (...) parfaits rosados, parfaits cor de champanha, parfaits marrons que se desfaziam estalando, quando as colher os dividia (...)”.

    Baseado no último conto de Os dublineses, de Joyce, John Huston filma, em 1987, Os vivos e os mortos. Não se perde no menu cintilante, como Lampedusa. Mas, dos 88 minutos de projeção, ao menos 60 são dedicados ao jantar, onde os convidados expõem, às vezes em silêncio, às vezes recitando uma poesia, seus ajustes de contas com o passado. Enquanto uma das velhinhas anfitriãs começa a cantar uma canção, a câmera de Huston se afasta, sobe as escadas, quase flutua sobre objetos do cotidiano, revelando uma intimidade cruelmente banal e sem sentido, e volta, desta vez para acompanhar os personagens à mesa.

    O último filme de Huston tem uma incrível semelhança com outro filme lançado nos cinemas na época, não apenas por girar sua ação em torno da mesa, mas pela delicadeza com que são conduzidos. As velhinhas de A festa de Babette (1988) são o oposto social das tias dublinenses: são pobres, exageradamente religiosas e vivem num vilarejo esquálido nos confins da Noruega. O dinamarquês Gabriel Axel se inspira em Isak Dinesen, ao contar a história de uma francesa fugida de Paris durante a Comuna. Acolhida pelas irmãs e pela minúscula comunidade luterana, Babette parece expiar seus pecados parisienses com um estoicismo revelador. Durante mais de uma década cozinha e come o que comem seus anfitriões: uma dieta à base de sopa de pão, cerveja e bacalhau seco. Mas ao ganhar na loteria, resolve oferecer um jantar inesquecível para a pequena comunidade, gastando todo o dinheiro. O menu:
  • sopa de tartaruga ao Xerez,
  • Blinis Demidoff (recheadas com caviar e nata),
  • codornas (recheadas com foie gras e trufas).

Para beber, Veuve Cliquot e Clos Vougeot.

Sobremesa: baba au rhum.

No final, uma das irmãs, ao descobrir que Babette gastou toda a fortuna na ceia, exclama: “Mas, Babette! Agora você é pobre novamente!” Ao que responde a cozinheira: “Uma artista jamais será pobre”.

Pobre mesmo é o ator que interpreta o bom ladrão no set do filme bíblico. A família vai visitá-lo e ele lhes dá seu lanche. Consegue um outro, logo devorado pelo cachorro da atriz principal. O sujeito consegue vender o cão, e, com o dinheiro, compra ricota. É alvo da chacota da equipe, que deixa que ele coma os restos da cena da última ceia. O bom ladrão, literalmente, morre na cruz, empanzinado: A Ricota (La Ricotta, episódio dirigido por Pasolini em RoGopaG, 1963).

Outro italiano, Marco Ferreri, reúne quatro amigos numa mansão para comer até morrer, em A comilança (1973).

Em 1948, Hitchcock encara o que confessou a François Truffaut ter sido “uma cilada”: filmar Festim diabólico num único plano-sequência. Jovens estudantes matam um colega e convidam James Stewart para um coquetel.

Em Adivinhe quem vem para jantar (1967), Sidney Poitier é o namorado black da mocinha branca, convidado para jantar com os pais burgueses.

Em O discreto charme da burguesia (1972), Luis Buñuel convida seis burgueses à mesa, obviamente numa ceia surreal e inexistente, onde o anfitrião sai para um jantar de negócios, a esposa pensa que os convidados chegaram um dia antes, e estes se assombram diante da mesa nua e a lareira apagada. Havia feito quase o mesmo em O anjo exterminador, dez anos antes.

A década de 90 foi plena de filmes cujo menu mesclava água com açúcar, em maior ou menor proporção – e, às vezes, com alguns acertos. O mais famoso foi, indiscutivelmente, Como água para chocolate (1992), de Alfonso Arau. Bonitinho, mas ordinário, o filme é cheio de referências ao suposto realismo fantástico, que norte-americanos e europeus acreditam fazer parte do cardápio cotidiano de nosotros, abajo da grande muralha texana.

Ang Lee, ele mesmo uma presença amarela no grande melting pot, filma O banquete de casamento, em 1993 (homossexualismo, imigração chinesa nos EUA) e Comer, beber, viver, um ano depois. Neste último, um chef enfrenta seu maior pesadelo – a perda do paladar.

E pensar que se poderia dizer que tudo começa com O encouraçado Potemkin, de 1925, com os marinheiros da embarcação soviética se revoltando quando lhes servem carne podre. Daí para a escadaria de Odessa são muitos degraus e um carrinho de bebê citado por muitos.

Mas o melhor filme sobre comida não sei o título nem o diretor. Vi numa madrugada, na tv italiana: numa espécie de spa, os clientes franceses comem os empregados portugueses, ironicamente representados como uma época se representavam os negros – aqueles, com o pé e as mãos na cozinha: ignorantes, estúpidos, serviçais. A África começa logo abaixo dos Pirineus, diziam (?) os franceses.

Que dizem agora, quando o mais badalado restaurante do mundo está na... África? El Bulli, Costa Brava espanhola, 160 km de Barcelona. Até Ignácio de Loyola Brandão, na Vogue No 324, se rendeu aos encantos da “gastronomia desconstrutivista” de Ferran Adriá e seu espetacular jantar que mistura circo hi-tech com desfile de moda – ah! e, é claro, comida (Loylola, mais cerimonioso, se refere ao conjunto como teatro).

Bolinha de estragão,

  • oliva esférica,
  • barbapapá que se va,
  • caramelo de azeite de abóbora,
  • bocadillo esférico,
  • caviar esférico de melão,
  • El Bullíaire,
  • leche elétrica,
  • ravióli esférico de ervilhas,
  • salada de ervilhas na menta,
  • sopa de azeite de oliva com laranja sanguínea,
  • nube de palomitas
... ufa! São 33 pratos, 155 euros por pessoa, dois anos na fila de espera. Pra beber,


  • caipirinha-nitro com concentrado de estragão,

  • Brut Natura Grande Reserve 2000 Cava Auguste Torelló,

  • Gramona Sauvignon Blanc, Finca Eis Camp,

  • Enéas 2001,

  • PX de Añada 2002.
Não me perguntem que vinhos são esses – mas, convenhamos, só em citar nomes tão sonoros qualquer texto adquire ar pseudoliterário (a caipirinha, coitada, é feita com 51, de Pirassununga para o Mundo). Eu falei em ares literários? Loylola: “Breve pausa, nos entregam um balão de borracha. Um dos garçons com uma tesoura corta a boca, recebemos uma lufada fresca sobre nosso rosto: é o ar da natureza, com forte aroma de laranja fluindo junto ao nariz”.

Não sei por que, me veio em mente a abertura de Zero (Codecri, 1979): “José mata ratos num cinema poeira”. E lá pras tantas: “Agora eu queria cagar na mão e jogar na cara desses oito homens, para eles verem como é bom comer bosta. Essa bosta que eu / todo mundo / ando comendo na mão deles”.


[cozinhado em 2005, requentado e servido em 2007]

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Gaveta


Alguém ainda lembra da Transbrasil?



E da Vasp?



Alguém ainda lembra da propaganda livre de cigarros?



E do cigarro de palha?



Alguém ainda lembra dos excessos de loucura?


E das ilusões perdidas?


Alguém ainda lembra do maio de 68?



E do surrealismo?



Alguém ainda lembra das fotonovelas?


E do homem-aranha da Ebal?



Alguém ainda lembra de Pepeu Gomes?


E de quem beliscou Paulinho?



Alguém ainda lembra do Chernobyl?


segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Aniversário Birthday Compleanno Cumpleaños Γενεθλεια



Um mês de blog.
Não, não parece que foi ontem.
Às vezes cansa.
Stendhal – ou qualquer outra celebridade literária, não me façam procurar no gúgol – dizia que pretendia apenas cem leitores.
É mais ou menos o que eu amealhei nesses trinta dias.
Meados da quinzena, me chega um email, desses, que nos fazem cafuné nas costelas, gaiolinha de ossos do coração.
O autor dispensa apresentações, poeta de muitas poesias e dois livros minimamente recomendáveis, fáceis de encontrar nas boas casas do ramo, como se diz.
Guardei o email com carinho, esperando este natalício. Salvei-o, como se diz em linguagem náutica – ou foi ele quem me fisgou. Com um ledor como este – e vocês, noventa e nove em ação – quem precisa de outros novecentos?

“Meu caro Mário,
Nessa de navegar ‘em demanda de portos inexistentes’, dei com os costados na cidade dos reis, sítio site lugar de muitas palavras, muita conversa, veredas de terra e água, onde se chega onde se sai num vapt-mouse-vupt. O pastorador do pedaço - intendente, alcaide, dono, blogueiro, que nome tenha –, atende pelo apodo de midc, que muito estranho seria se não estivéssemos em tempos de agora. Ademais deu pra intuir logo na primeira ronda que ‘tiras, vigaristas e ricaços’, ao contrário de todas as cidades, aqui não mandam - como pensava Hammett.

Numa sentada saí vendo tudo, pois nem é preciso caminhar para se chegar ao café majestic, à confeitaria atheneu, à cova da onça, sorveteria cruzeiro, cine rio grande, politeama, vox discos e à livraria cosmopolita. Não digo que seja um passeio rápido, é uma viagem mesmo, sobretudo se se quiser como eu ver os detalhes desses lugares tantos, suas linhas e entrelinhas, sua arquitetura que faz bem aos olhos.

O que lá vi escrito segue as linhas do que se vive hoje. Bate com o mundo presente. Os ritmos, o compasso, os anseios, as escolhas estéticas, o pensamento agudo, o lirismo subjacente, a atualidade das curvas de Niemeyer, a inteligência inaugural, o verbo sem estrago. Seria isso a modernidade? Que seja!

Walflan de Queiroz, o ‘poeta maldito’, em companhia do grande Newton Navarro faz qualquer sensibilidade pedir um genuflexório para se sentir mais à vontade. O galo, os peixes, marinheiros e barcos de Newton são maiores do que todas as pontes e, quase ninguém, hoje, sabe deles. A interioridade do poeta bendito carece se dar conhecida fora da cidade dos reis, pensei.

O mundo de uppsala, stockholm, alexandria, pirangi, cidade dos reis, parece ser o mesmo, pois, em todas as manhãs de sábado, igual ouvi o ronco da enceradeira e o cheiro vegetal recendendo nas narinas - em décadas. Pedro Nava, quando pisou as pedras desencontradas da praça de Veneza, foi mandado num átimo de volta à casa da avó no Ceará, à cozinha de cimento esburacado, sessenta anos depois...

O brilho da coroa dos reis da cidade não é maior do que doidice de quem encontrei por acaso: Carlo Sarno. Que sujeito! O esbarrão – sim, foi numa esquina, apressados, ao sol das três da tarde, também -, me deu de conhecer o baiano-calabrês, com as mãos plenas de especiarias, quiçá para o preparo de um prato inigualável. Sequer me perguntou o nome, mas logo disse que vinha dos alrededores da cidade aonde fora colher as ervas e, de quebra, dar nome aos bois – lá em cima daquela serra. Contou-me, num silêncio de segredo que, os homens de hoje, o que mais temem, é dar nome aos bois. Fiquei pensando.

Depois me disseram, às suas costas, que também era pescador, pastor (isso já falei, não?), ditador, louco, e que tinha ficado com o braço da guitarra de Jimi Hendrix, naquela tarde de woodstock. Ou foi com a guitarra, em pedaços, de blowup? Parei. Com inveja.

O burburinho na parada de ônibus não é para embarcar ou desembarcar, e sim, para comprar CDs - o mercado mais acessível e menos glamouroso. Mais adiante dei com o point da jovem guarda, a Vox Discos. Aqui uma profusão de cabelos desgrenhados, de alegres túnicas indianas, envoltos numa onda da fragrância inconfundível: patchouli. A bela adolescente, talvez no ‘êxtase inolvidável do primeiro soutien’ ou num desejo repentino de dizer-se (coisa da idade, sim?), larga o bolachão de Led Zeppelin - o vinil, bolacha preta, LP, lembra-se? –, e começa a ler em voz alta ‘The Quietest Moments’.

Crônica, conto, ou os dois – o texto? Quedei-me com o discorrido. Sabe o ideal da redação, apregoado nos cursos de português e de literatura - tão velho e tão atual, acima de qualquer primarismo - da busca incessante pela perfeita harmonia entre o conteúdo e a forma? Pois bem, estava ali, todo. Magistralmente.

Estar aqui agora digitando este e-mail é preciso que se esqueça o que foi ouvido ali. Senão a vontade mesmo é de botar a viola no saco. De jogar a toalha. Dá no mesmo, não?

Chegar à cidade dos reis não é nada difícil. Por terra, por ar, por mar ou por rio – desde que com músculos bastante para afastar os peixes asfixiados pelo descaso. Um caminho entretanto me parece mais fácil: cidadedosreis.blogspot.com

Um grande abraço e proveitosa viagem."


Napoleão de Paiva









domingo, 2 de setembro de 2007

Tomorrow’s parties / Novos vizinhos / Um flâneur na cidade


Os links para as Lonjuras desta cidadela dos reis mudaram derna’d’ontem – saíram Nazarian, Cora Rónai e o todo prosa Sérgio Rodrigues (continuam recomendáveis); entraram uma livraria, um sebo-antiquário e uma editora.

Vale a pena clicar.

Amanhã o pediatra de adultos, Napoleão Paiva, passeia por aqui.

Vale mais que a pena conferir.

Napoleão é tudo, menos turista acidental.

um verso de Lou Reed



"Para cada criança de quinta há um palhaço de domingo"




Domingão do Enfastiadão


Domingo sim domingo não ainda insisto em desperdiçar R$ 6,25 comprando três dos principais (sic) jornais do Elefante sem Memória.

(Sim, o blogueiro não confia em notícias virtuais, menos ainda em blogs.)

Não é amarração – em um mês, quatro domingões, dá pra comprar um livro.

Noves fora as colunas sociais sempre borbulhantes e ou borbulhadas, aproveita-se pouco ou quase nada.

Na peneira restou a frase de Dorian Gray Caldas, em entrevista à Sheyla Azevedo:

“Caminho para a morte como um boi velho.”

sábado, 1 de setembro de 2007

Findou agosto e não vi nenhuma pitangueira florando


Findou agosto e não vi nenhuma pitangueira florando.

Deus queira que setembro me apresente pitangas rubras.

Tive um dia uma pitangueira, noutra casa, noutro sítio, noutra lonjura.

Nem eram minhas casa, terra e distância – e, portanto, tampouco a pitangueira. A quem encontrei já crescida, um eu e meio de altura.

Mas cuidei-a com tal esmero e carinho, com tal zelo e gosto, que a bichinha florava não só nos desgostos de agosto, mas nos desgostos do ano inteiro.

E seu sumo encarnado, filete de corpo líquido, me escorria do canto dos lábios, atraindo a ponta da língua numa vertigem doce.

Em redor de seu tronco tramelado construí uma serpente de paralelepípedos enrodilhados. Aqui e ali a grama brotando de propositadamente.

Como uma serpente regurgitando a si mesminha.

De costas para o poente, um bebedoiro. Para os cães, para a matilha, para os passarinhos de asas céleres e bicos musicais.

A qualquer hora do dia, nas mais quentes, nas mais frescas, se me deixava podá-la. Como se brisa fosse a lâmina afiada.

Tenho uma pitangueira cá onde vivo agora.

Mas não é aquela.

E, claro, nem mesmo eu.

Minha filha, manhã cedinho:


“Um mágico nunca revela os seus segredos.”

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Os Dez Mandamentos de Juvenal Antunes


I
Nunca te cases, nem mesmo com uma agonizante rica.
II
Não furtes pouco, que é muito feio.
III
Adora tuas produções artísticas, embora não valham nada.
IV
Foge das crianças, masculinas ou femininas. Elas em geral são crisálidas de borboletas venenosas. O mundo sempre contou com mais bandidos que homens de bem. E esses bandidos foram maternalmente acalentados no berço! Imagina a mãe de Napoleão, Alexandre, César Bórgia, Nero, Messalina, Lampião, Antônio Silvino, Juvenal Antunes, Vicente Inácio Pereira, Judas, Padre Cícero, Getúlio Vargas e tantos outros, cantarolando para adormecer esses monstros, alimentando-os com o leite das próprias tetas!
V
Ama os vícios. Só têm o defeito de custar dinheiro. Quando este é muito, aqueles ficam doirados.
VI
Não mates nunca, não por amor à espécie humana, medo do inferno ou respeito às leis, mas porque isso é inútil. Matas um malvado, nascem dois.
VII
Sê bacharel, vagabundo, médico, parteiro, negociante ou coisa pior. Mas, não sejas tolo.
VIII
Ama o dinheiro. Faze como o imperador Vespasiano, que achava cheirosas as moedas recebidas do imposto das sentinas.
IX
Não queiras saber da mulher do próximo nem do distante. Não vale a pena. Deixa que os outros as degradem. Aproveitarás depois, calmamente, sem perigos, o fruto do crime alheio.
X
Só trabalhes quando te pagarem. De graça não faças nem uma graça.

Juvenal Antunes de Oliveira foi o único poeta potiguar a chegar na tela da Globo.

(Depois de morto e de Marina Elali, é certo, mas, enfim.)

Nasceu em Ceará-Mirim, 29 de abril de 1883, no engenho Oiteiro, eternizado no livro de memórias de sua irmã, Madalena Antunes.

Formou-se em Direito, no Recife, e veio morar em Açu e Natal.

O irmão mais velho, oficial do glorioso exército nacional, não gostou da vida boêmia de Juvenal na Província e carregou o coitado para Belém, de onde logo o poeta partiu para o Acre.

Nunca casou. Viajando para o Rio Grande do Norte, morreu em Manaus, a 30 de abril de 1941, um dia antes do 1º de maio, Dia do Trabaho.

Logo ele, autor de O elogio da preguiça.

Seu decálogo são conselhos a um sobrinho, de partida para o Rio de Janeiro, a quem ainda alertava: “é preciso algum talento e muita coragem para praticar este programa.”

As informações sobre a sua vida e obra dificilmente chegariam aos dias de hoje sem a dedicação constante de sua irmã, e de Esmeraldo Siqueira, que reuniu cartas e textos inéditos do poeta num livrinho fundamental – Um boêmio inolvidável (Rio de Janeiro: Pongetti, 1968).

reprise


“Secretário meu faz tudo o que quer, só não faz o que eu não quero.”

Dinarte Mariz, 1903-1984 [citado por Diógenes da Cunha Lima, em Solidão, solidões: uma biografia de Dinarte Mariz. Brasília: Senado Federal, 2001]




Dicionário Ilustrado de Política


Política, segundo Djalma Marinho
“Em política, o pior inimigo é o mais recente.”
Política, segundo Dinarte Mariz
“Política é como revolução: quem ganha é herói. Quem perde é bandido.”
Política, segundo Teodorico Bezerra
“Política é feita de tudo que é bom: música, foguetão, dança e mulher.”

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Bom dia, Babilônia, bom dia, tristeza, bom dia Vietnã, bom dia tempo reencontrado




“Então me abraça forte e me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo”


O blog, blogueiro, coluna, quinta coluna, enfim, o subscrito, recomenda ao despertar a audição de: Tempo perdido, faixa 6 de Dois, Legião Urbana. 1986, Emi-Odeon.

Procurem nas prateleiras empoeiradas , desarrumadas, desconjuntadas, cascavilhem nos sebos, baixem o santo náutico.

Renato Russo em sua melhor forma, antes de virar um santo messiânico, cantando a história de todos nós que nos amávamos tanto, quando éramos jovens e não sabíamos – aqui e na companhia de uma outra Legião (com o dístico URBANA LEGIO OMNIA VINCIT), rejuvenesce qualquer manhã tão cinza.

Até porque começa com os versos:


“Todos os dias quando acordo...”


Há quem prefira a academia, pra caçar o tempo perdido.

(Há quanto tempo você não se apaixona?)

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

smoke, no smoke
















Dia internacional de combate ao fumo.

Os jornais estão cheios de publicidade contra.

Exagero meu.

Eu é que estou cheio de jornais e de jornais contendo publicidade contra o fumo.

Na verdade, acho que não passam de três anúncios.

Todos de planos de saúde, que, claro, querem economizar no tratamento futuro dos cancerosos.

Um diz (afirma, acredita, jura de pés juntos) que o cigarro é “uma arma de fogo tão potente que até a sua fumaça mata”.

Eu procurei entre os dedos do rapaz da foto a chave de um automóvel qualquer, mas, não; a arma que o senhor redator pensou era outra: entre os dedos, o polegar emulando o gatilho de um colt, tava lá um cigarro, tão branquinho, apenas aceso, que logo me veio vontade de fumar.

Outro anúncio – esse de página inteira – pergunta: “Você tá queimando o quê?”

Êpa! Que indiscrição é essa, me’irmão?

Veio-me logo em mente a página dos poetas elétricos (26.08):

“O baseado dá de cara com o espelho em brasa que lhe diz:
- SORRIA! VOCÊ ESTÁ SENDO FUMADO!”
[Carito, “O papel de cada um”]


Veio-me logo em mente Cascudo fumando um charutão.

E Orson Welles.

E Sylvia Kristel em Emmanuelle.

E Serge Gainsbourg fumando Gitanes, e seus fãs depositando em frente de sua casa em Paris milhares de maços azuis. E os vizinhos, todos bons burgueses, torcendo o nariz.

E Italo Svevo e a consciência de Zeno: "Já que me faz mal, nunca mais hei de fumar, mas antes disso quero fazê-lo pela última vez."

E Clarice Lispector incendiando-se.

E o tratado de Cabrera Infante, Fumaça pura, dedicado ao pai, "que aos 84 anos ainda não fuma".

E "o fumador de cigarros por profissão adequada", Fernando Pessoa, dividido entre a lealdade que prestava "À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que quase tudo é sonho, como coisa real por dentro."

E a capa de Catch a fire, Marley.

E Smoke e Blue in the face, dois filminhos legais de Wayne Wang inspirados em Paul Auster (principalmente pra quem não quer parar de fumar).

Sem cigarro, Tom Waits não existiria. Ao menos com a sua voz, ou seja, não existiria mesmo.

No caso de Waits tem também a bebida. Combinação mais que plausível. Perfeita. Vejam o que aconteceu com Marguerite Duras:

“Depois parei de fumar e só consegui fazê-lo voltando a beber.”

Marguerite Duras é escritora, daquelas que sabem escrever, o que é cada vez mais raro. Vai direto na canela, no osso, sem dó:

“Desde que comecei a beber, tornei-me alcoólatra.”

Lembra O amante, outra frase fantástica logo na primeira página:

Muito cedo em minha vida ficou tarde demais.”

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Contracorrente / uma tradução

recorte de jornal espanhol, década de 80

Em junho de 68, um mês apenas após o mítico maio francês (e no mundo todo), Pier Paolo Pasolini, escreveu uma poesia aos jovens romanos, depois de um violento confronto numa manifestação estudantil.

Expulso do Partido Comunista Italiano (PCI) alguns anos antes, enquanto homossexual, Pasolini foi, além de poeta, um dos mais importantes diretores do cinema italiano.

Na falta – ou desconhecimento meu – de uma tradução com certeza melhor, vai a minha, livre, como os versos de Pier Paolo:

O PCI para os jovens!

É triste. A polêmica contra
o PCI aconteceu na primeira metade
do decênio passado. Vocês estão atrasados, meninos
Agora, os jornalistas de todo o mundo (inclusive
aqueles das televisões)
puxam (como acredito que ainda se diz no ambiente
universitário) o saco de vocês. Eu, não, amigos.
Vocês têm a cara de filhinhos de papai.
A boa raça não mente.
Vocês têm o mesmo olhar malvado.
Vocês são amedrontados, inseguros, desesperados,
(certo) mas sabem também ser
prepotentes, chantagistas e seguros:
prerrogativas pequeno burguesas, amigos.
Quando ontem em Valle Giulia vocês brigaram
com os policiais, eu estava do lado dos policiais!
Porque os policiais são filhos de pobres.
Vêm da periferia, rural ou urbana que seja.
Quanto a mim, conheço muito bem
a maneira como foram meninos e rapazes,
o precioso um real, o pai ainda garotão também ele,
por conta da miséria, que não transmite autoridade.
A mãe, dura como um estivador, ou frágil,
porque doente, como um passarinho;
os tantos irmãos, a casinha
em meio à horta de erva-cidreira (em terrenos
alheios, loteados); os baixios
nas cloacas; ou os apartamentos nos grandes
conjuntos habitacionais, etc. etc.
E, depois, vejam como os vestem: como palhaços,
com aquele tecido áspero que cheira a quentinha,
repartição pública e povo. Pior de tudo, naturalmente,
é o estado psicológico ao qual são reduzidos,
(por mil reais ao mês):
sem sorrisos,
sem amizade com o mundo,
separados,
excluídos (numa exclusão sem igual);
humilhados pela perda da qualidade de homens
por aquela de soldados (ser odiados os fazem odiar).
Têm vinte anos, a idade de vocês, caros e caras.
Estamos de acordo, obviamente, contra a instituição da polícia.
Mas descarreguem sua ira contra a magistratura, e vocês vão ver!
Os jovens policiais
a quem vocês, por sacro vandalismo (de eletiva tradição
ressurgimental)
de filhinhos de papai, bateram,
pertencem a uma outra classe social.
Em Valle Giulia, ontem, aconteceu assim um fragmento
de luta de classe: e vocês, amigos (ainda que do lado
justo) eram os ricos,
enquanto os policiais (que estavam do lado
errado) eram os pobres. Bela vitória, então,
a de vocês! Nestes casos,
amigos, aos policiais se dão flores.
[...]


Traduzido por MIDC a partir de texto publicado em pagine corsare

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Fernando & Sabino


“Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz.” Gênesis, 8, 21
“O meu arco tenho posto nas nuvens; este será por sinal da aliança entre mim e a terra.” Gênesis, 9, 13



Petrópolis espia Mãe Luiza: uma aliança possível?

Não me canso de falar em Sabino, incomode a quem possa incomodar e independente de quem goste e idolatre-o: continuo achando que ele está muito além disso tudo, do bem e do mal, do paganismo e do fundamentalismo cristão, da direita e da esquerda, do reacionarismo e do esquerdismo superficial, ambos em plantão permanente. Daí que repercuto o que vier dele ou sobre ele (fazei isto em memória de mim, segundo Lucas, 23, 19). Como o e-mail do deputado Fernando Mineiro, que reproduzo, a seguir:

Caríssimo,

Lendo o texto [ver post “Um artigo inédito”, 14 agosto], aumentou a sensação do quanto Sabino nos faz falta. Aliás, nestes tempos de impactos, lembro dele, vez em quando. Bem sabemos de que lado ele estaria...
O conheci no início dos anos oitenta, quando morei em Mãe Luiza (81 e 85) e ele já estava lá, partilhando o pão com os do morro. Companheiro.
A sua simplicidade poderia levar os desavisados a confundi-lo com um simplório. Os que o conhecemos, bem sabemos de seu profundo humanismo. Culto, sem nenhuma afetação, Sabino
vivia antenado e tinha opiniões/visões/opiniões//projetos sobre o mundo.
Foi dele que ouvi, no começo dos oitenta, reflexões sobre a obra de Gramsci. Conceitos como contra-hegemonia, guerra de posição e guerra de movimento, intelectual orgânico, relação entre cultura e transformação sócio-política, entre outros temas caros à elaboração gramsciniana, eram-lhes familiar. Aliás, à época, ele traduziu e me emprestou um belo texto do Gramsci (acho que um fragmento de Cartas do Cárcere) sobre educação.
Naquela época, ele também me passou um livro que me ajudou sobremaneira o olhar/buscar/entender o eterno processo de transição brasileira. Refiro-me a O Leopardo, obra de Lampedusa – um profundo olhar sobre a decadência da monarquia e a ascensão da burguesia italianas. É desta obra a frase que se tornou famosa “mude-se alguma coisa, para que tudo fique como está”. Dele também a indicação do filme O Leopardo (acho que de Visconti, anos 60). Sabino foi articulador, entre outros movimentos, da Pastoral Operária, da Consulta Popular, das Assembléias Sociais. Seu compromisso, assumido à luz de profunda radicalidade cristã, era a emancipação dos setores populares.
Com ele, participei de vários encontros, debatendo os mais variados temas.
Foi dele que recebi um telefonema fundamental para minha resistência ao massacre sofrido pelo PT em 2005. Numa tarde de agosto de 2005, após dar uma entrevista a uma rede de televisão sobre a crise do PT, em que afirmava a necessidade de se separar os erros individuais da instituição partidária e afirmava que, a partir de nossos próprios erros, os adversários queriam mesmo era a jugular do PT e do Governo Lula, recebi uma ligação de Sabino me dizendo: “Você não pode desistir, porque temos um projeto muito maior e o que está em jogo é a história da luta de nosso povo. Brincando me disse que, mesmo que eu não acreditasse em orações, ele estava ali orando e torcendo para que nós, petistas, tivéssemos força para suportar e resistir.
A última vez que o vi e conversei com ele foi após um ato de protesto contra a violência contra as mulheres, na praça sete de setembro. Ele estava animado, esperançoso. Aliás, como sempre. Alguém se lembra de ter visto Sabino passar algum tipo de desânimo? Perguntei pela saúde e ele, naquele jeito relaxado consigo mesmo: “Tô bem, tô me cuidando, vou levando”. Até mesmo quando se internou, foi escondido.
Dias depois, viajou à Itália e se foi de vez, sem se despedir ou se despedindo, a seu jeito. Se foi como viveu: discreto.
E aqui vou rememorando isto, ao ler este texto.
E ficamos aqui, na cidade dos reis/rainhas/príncipes/princesas. Com uma saudade imensa de quem nos ensinou a resistência e o orgulho plebeus.
É isso.

Mineiro