
Ah! e nas horas vagas, o rapaz, muito além do fogão, pilota pranchas de surf – acima e abaixo, na Baía dos Golfinhos (no meu tempo, Curral do Canto), dois anos atrás.

Ponta do Mel, RN
Para beber, Veuve Cliquot e Clos Vougeot.
Sobremesa: baba au rhum.
No final, uma das irmãs, ao descobrir que Babette gastou toda a fortuna na ceia, exclama: “Mas, Babette! Agora você é pobre novamente!” Ao que responde a cozinheira: “Uma artista jamais será pobre”.
Pobre mesmo é o ator que interpreta o bom ladrão no set do filme bíblico. A família vai visitá-lo e ele lhes dá seu lanche. Consegue um outro, logo devorado pelo cachorro da atriz principal. O sujeito consegue vender o cão, e, com o dinheiro, compra ricota. É alvo da chacota da equipe, que deixa que ele coma os restos da cena da última ceia. O bom ladrão, literalmente, morre na cruz, empanzinado: A Ricota (La Ricotta, episódio dirigido por Pasolini em RoGopaG, 1963).
Outro italiano, Marco Ferreri, reúne quatro amigos numa mansão para comer até morrer, em A comilança (1973).
Em 1948, Hitchcock encara o que confessou a François Truffaut ter sido “uma cilada”: filmar Festim diabólico num único plano-sequência. Jovens estudantes matam um colega e convidam James Stewart para um coquetel.
Em Adivinhe quem vem para jantar (1967), Sidney Poitier é o namorado black da mocinha branca, convidado para jantar com os pais burgueses.
Em O discreto charme da burguesia (1972), Luis Buñuel convida seis burgueses à mesa, obviamente numa ceia surreal e inexistente, onde o anfitrião sai para um jantar de negócios, a esposa pensa que os convidados chegaram um dia antes, e estes se assombram diante da mesa nua e a lareira apagada. Havia feito quase o mesmo em O anjo exterminador, dez anos antes.
A década de 90 foi plena de filmes cujo menu mesclava água com açúcar, em maior ou menor proporção – e, às vezes, com alguns acertos. O mais famoso foi, indiscutivelmente, Como água para chocolate (1992), de Alfonso Arau. Bonitinho, mas ordinário, o filme é cheio de referências ao suposto realismo fantástico, que norte-americanos e europeus acreditam fazer parte do cardápio cotidiano de nosotros, abajo da grande muralha texana.
Ang Lee, ele mesmo uma presença amarela no grande melting pot, filma O banquete de casamento, em 1993 (homossexualismo, imigração chinesa nos EUA) e Comer, beber, viver, um ano depois. Neste último, um chef enfrenta seu maior pesadelo – a perda do paladar.
E pensar que se poderia dizer que tudo começa com O encouraçado Potemkin, de 1925, com os marinheiros da embarcação soviética se revoltando quando lhes servem carne podre. Daí para a escadaria de Odessa são muitos degraus e um carrinho de bebê citado por muitos.
Mas o melhor filme sobre comida não sei o título nem o diretor. Vi numa madrugada, na tv italiana: numa espécie de spa, os clientes franceses comem os empregados portugueses, ironicamente representados como uma época se representavam os negros – aqueles, com o pé e as mãos na cozinha: ignorantes, estúpidos, serviçais. A África começa logo abaixo dos Pirineus, diziam (?) os franceses.
Que dizem agora, quando o mais badalado restaurante do mundo está na... África? El Bulli, Costa Brava espanhola, 160 km de Barcelona. Até Ignácio de Loyola Brandão, na Vogue No 324, se rendeu aos encantos da “gastronomia desconstrutivista” de Ferran Adriá e seu espetacular jantar que mistura circo hi-tech com desfile de moda – ah! e, é claro, comida (Loylola, mais cerimonioso, se refere ao conjunto como teatro).
Bolinha de estragão,














Dia internacional de combate ao fumo.
Os jornais estão cheios de publicidade contra.
Exagero meu.
Eu é que estou cheio de jornais e de jornais contendo publicidade contra o fumo.
Na verdade, acho que não passam de três anúncios.
Todos de planos de saúde, que, claro, querem economizar no tratamento futuro dos cancerosos.
Um diz (afirma, acredita, jura de pés juntos) que o cigarro é “uma arma de fogo tão potente que até a sua fumaça mata”.
Eu procurei entre os dedos do rapaz da foto a chave de um automóvel qualquer, mas, não; a arma que o senhor redator pensou era outra: entre os dedos, o polegar emulando o gatilho de um colt, tava lá um cigarro, tão branquinho, apenas aceso, que logo me veio vontade de fumar.
Outro anúncio – esse de página inteira – pergunta: “Você tá queimando o quê?”
Êpa! Que indiscrição é essa, me’irmão?
Veio-me logo em mente a página dos poetas elétricos (26.08):
“O baseado dá de cara com o espelho em brasa que lhe diz:
- SORRIA! VOCÊ ESTÁ SENDO FUMADO!”
[Carito, “O papel de cada um”]
Veio-me logo em mente Cascudo fumando um charutão.
E Orson Welles.
E Sylvia Kristel em Emmanuelle.
E Serge Gainsbourg fumando Gitanes, e seus fãs depositando em frente de sua casa em Paris milhares de maços azuis. E os vizinhos, todos bons burgueses, torcendo o nariz.
E Italo Svevo e a consciência de Zeno: "Já que me faz mal, nunca mais hei de fumar, mas antes disso quero fazê-lo pela última vez."
E Clarice Lispector incendiando-se.
E o tratado de Cabrera Infante, Fumaça pura, dedicado ao pai, "que aos 84 anos ainda não fuma".
E "o fumador de cigarros por profissão adequada", Fernando Pessoa, dividido entre a lealdade que prestava "À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que quase tudo é sonho, como coisa real por dentro."
E a capa de Catch a fire, Marley.