quarta-feira, 31 de outubro de 2007
For your eyes only
A moça mais bonita da mesa tem olhos sonhadores.
Um sorriso encantador, desenhado a régua e compasso.
Cabelos negros como as asas da graúna e lisos como os de uma gueixa.
A moça mais bonita da mesa tem as unhas pintadas de vermelho, os braços longos e brancos, maçãs descoradas.
Os olhos escuros, profundamente escuros, redemoinho noir.
Os dentes perfeitos, trançados num sorriso em flor desabrochando.
A moça mais bonita fala com as unhas, com os olhos, com a boca.
Sei até o seu nome (ouvi-o, entre um discurso e outro), e, embora sente próximo à cabeceira, é o centro magnético da mesa comprida – além de a moça mais bela. Para ela são feitos todos os comentários, para ela brilham todos os olhares, para ela dirigem-se todos os garçãos.
A moça mais bonita da mesa está ao alcance dos meus olhos, mas não do meu abraço.
Ainda bem.
Só assim continuará sendo a moça mais bonita da mesa.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Eu vi Tropa de elite
Fui ver Tropa de elite.
Sessão promocional, R$ 7 inteira, R$ 3,5 meia.
O Cinemark botou pra trabalhar um casal de bilheteiros.
Não ligou nem o ar condicionado, coitados, um deles se abanava com um folheto de propaganda.
A fila se arrastava. Composta em sua maioria por jovens estudantes, todos de carteirinha na mão, só pioravam o tempo de espera.
Agora que eu vi o filme, entendo: estavam todos drogados, provavelmente emaconhados, playboyzinhos burgueses alimentando o tráfico à custa de seus vícios: marijuana e os blockbusters exibidos pela tal rede Cinemark.
Arrastavam seus tênis burgueses, suas sandálias havaianas burguesas, suas fardas de colegiais particulares, seus jeans de marca. Sem pressa, tá ligado?
Passei uns vinte minutos na fila.
Fui obrigado a ouvir as pérolas que os imberbes trajando farda de colégio religioso disparavam, às minhas costas, nas minhas oiças:
- Eu já tentei gostar de rock, mas. Presta atenção, presta atenção: todos caras que a gente conhece que ouve rock são todos abestalhados.
- Eu gosto de trilha sonora. Mas, pra ter – é meio ruim de ouvir, é pra ter...
Quantas crianças o morro não perdeu pro tráfico enquanto a estudantada burguesa desembolsava, preguiçosamente, três reais e cinqüenta pra assistir Tropa de elite, O homem que desafiou o cão, Jogos mortais I, II, III, IV e que tais?
Se eu já tivesse visto o filme, ah! Eu chamava na hora o capitão Nascimento. Pra dar um jeito na pivetada de bem e nos dois bilheteiros morosos. Depois, invadia aquelas salas privadas do Cinemark, onde o gerente sempre se esconde quando o cidadão tem algo a reclamar, a-ká-quarenta-e-sete numa mão, a outra fazendo aquele volteio no alto, sinal de circulando, que o Wagner Moura sabe fazer tão bem. O cabeção do gerente ia cair dentro dum saco de pipocas king size, com manteiga, sim, com manteiga! O cara ia sufocar até responder minhas perguntas:
- Por que não colocar mais gente pra trabalhar na bilheteria, especialmente em dia de promoção?
- Por que a pipoca custa tão caro?
- Por que não exibir ao menos numa das salas – uma! – um filmezinho melhor?
Tudo bem, tem Baixio das bestas...
Mas Baixio das besta eu já vi, caralho!
Porra!
Puta que pariu!
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
As bestas

Caio Blat encarna nós, moços e moças nas janelas indiscretas do mundo [foto do site do filme]
Os 9,5 leitores deste blog não devem confiar no subscrito para manter-se atualizados sobre qualquer assunto, aviso.
Quem avisa amigo é, diz o ditado. Eu, não.
Sexta passada, por exemplo, outubro já nos seus estertores, me obrigo a assistir ao Tropa de elite. Não vi nem em dvd pirata. Devo ser o último silvícola que ainda não fez contato com o tal capitão ou comandante Nascimento.
Imbuído deste sentimento de culpa cristã, vou procurar a programação dos únicos cinemas decentes de Cidade dos Reis – todos indecentes, diga-se de passagem.
Tropa de elite tem horários a dar com o rodo: a partir da décima terceira hora o telespectador é mais bem servido que muita linha de ônibus. Eu disse telespectador? É como se deve chamar os freqüentadores dos cinemãos pop corn.
Mas eis que um título, pura poesia, me chama atenção no meio das palomitas: Baixio das bestas. E me desvia da mira do tal Nascimento.
O que eu sabia de Baixio das bestas pra querer ver tanto esse filme?
Pouca coisa:
Que é da turma de Pernambuco, uma espécie de linha cruzada, no celulóide, com o mangue musical de Chico Ciência e companhia.
Que é da linha toda maldade será recompensada – estupros realísticos, prostituição infantil, bas-fond sem maquiagem nem efeitos especiais.
Que os críticos do Sul Maravilha caíram de cacete, no filme e em seu diretor, Cláudio Assis – apesar de prêmios importantes em Brasília etc.
Lembrei especialmente de um artigo da Piauí, naquela seção – “esquina” – onde são desovadas as matérias que eles julgam não merecer as dezenas de páginas que outras merecem e com as quais se traveste de new journalism e que tais.
Lembrei também que deveria me preparar pra ver o filme em meio ao barulho de sacos de pipoca e embalagens plásticas de bombons e ao ruge-ruge da plebe menos interessada que eu nas margens (intelectualóides) da vida.
Fui.
Primeira surpresa, o ingresso a tão somente quatro reais. Brasileiro adora se dar bem, eu inclusive.
Segunda surpresa, o gordinho meio bicha que sentou-se quase, eu falei quase, ao meu lado, e estreou a garganta profunda com um Posso começar a comer? Seguido do fru-fru dos plásticos.
Pois, o rapaz não deu um pio durante todo o filme, o que me desconcentrou um pouco, confesso.
No mais, Baixio das bestas ficou por ali, se equilibrando sem grandes emoções nem perigo algum de despencar prum lado ou outro do muro.
É tão bem feito em seu rudismo agreste, tão realista em suas paisagens canavieiras, tão íntimo o olhar com que veste e despe personagens, tão normais as fisionomias dos atores, noves fora o cabelo cenoura do Matheus Nartche... Nachtenga... bom, vocês sabem o nome – enfim, tudo desce redondo, feito propaganda de cerveja. Só que sem o glamour da propaganda de cerveja, se é que vocês me entendem.
Baixio das bestas me lembrou Ritual dos sádicos, 1970, José Mojica, Zé do Caixão, Joe Coffin. O despertar da besta era o título original, censurado durante décadas. Isso, essa lembrança, antes de sexta-feira. Depois, visto o filme, as semelhanças continuaram através das diferenças: enquanto Ritual é a caricatura de um grupo de pervertidos nos anos 70, em Sumpaulo, Baixio é o retrato de grupo de um grupo de jovens normais nos anos 90 ou 00, na Zona Canavieira, Nordestão brazuca. Um era cinema fantástico, o outro é quase cinedocumentário, realismo, neo-realismo, velho-realismo.
Não é o grande mérito do filme, como me questionou um amigo. Mas é inegável que o retrato de Claúdio Assis para os canaviais, as vilas interioranas, os postos de beira-de-estrada e seus habitantes é um retrato sem retoques. Sem aquela pátina verniz brilhante a que nos acostumou o padrão dito global.
(Parêntesis: o blogueiro lembra-se muito bem quando, décadas atrás, nas ladeiras de Olinda, o repórter da Globo preparava-se para entrar no ar e mandar via éter o mais que famoso carnaval pernambucano e a plebe começava a berrar: O Povo não é bobo, abaixo a Rede Globo! Fecha parêntesis.)
Talvez seja isso o que realmente incomoda a uma fatia dos críticos: o descompasso com a estética edulcorada da emissora do Coronel Marinho; a contramão com que rejeita, e foge até, da estética de um Cidade de Deus, pra citar outra exemplo da exceção que influencia, pós-sucesso, a regra.
A reconstituição da casa do personagem de Caio Blat é exemplar. E só plenamente reconhecível em seus mínimos detalhes por quem vive há tempos no Nordeste. Errado, ainda, classificar os garotos como “agro-boys”. Eles fazem parte, sim, de uma elite, mas sem a distância abismal que vemos no interior de São Paulo, e mesmo no Nordeste.
Também os atores e atrizes – embora alguns, vez em quando “globais” – não têm aquele sotaque ridículo de telenovela mal acochambrada. Os diálogos soam naturais, há um excesso, sim, de palavrões, mas nada que contrarie a realidade do cotidiano.
É preciso ser muito besta pra pensar que o retrato sem retoques de Baixio seja o único de uma região com mil e uma diferenças e outras tantas semelhanças. Mas é inegável que o foco escolhido – mais para satisfazer e em função da estória em si – é apurado e fiel àquela porção e realidade que aborda.
Alguém falou (Ricardo Calil, na Folha) que a estética de Baixio é “a estética do choque e o desejo de transgressão”. Que Assis é um “dos cineastas brasileiros especializados em personagens e situações sórdidas”, embora reconheça ser “o mais talentoso”.
Sinceramente, Baixio choca porque tem uma história chocante a contar. É sórdido porque é sórdida a vida, nos grotões ou nas metrópoles. E só é transgressivo para quem se acostumou tão somente aos adultérios e assassinatos das novelas das oito. Não é um grande filme enquanto Cinema. Não tem arroubos memoráveis, não desconstrói nenhuma linguagem cinematográfica, não ousa, a não ser no tema e no tratamento cru com o qual o aborda. Não acredito que tenha – apesar do início em tons de manifesto contra o ciclo, “civilização do etanol” – a pretensão de tratado sociológico, de denúncia, de auto de inquisição. Não tem o desejo explícito nem implícito de empurrar moral alguma na goela do espectador. Não é imoral, ilegal, nem engorda.
Os bestas | Piauí, RJ; Piauí, SP
Piauí: ambígua como o título, não consegue esconder a acidez com que investe contra os mitos de ontem pra chutar os vira-latas vivos de hoje. [foto do site da revistona]Se não me entusiasmou, Baixio das bestas ao menos me serviu pra desenterrar um texto entravado na goela desde que li a Piauí número 8, maio de 2007, e que foi a gota d’água pra eu deixar de comprar a revistinha cu’l’t (não deixei de todo, nem esse foi o único motivo, mas, diminuí o ritmo).
A crônica (quase policial) da Piauí começa com ares de jornalismo-verdade:
“Na madrugada da última terça-feira do mês passado, Raquel Cristina, de 18 anos, foi morta a tiros quando voltava para casa com um amigo. Ela morava em Afogados da Ingazeira, no interior de Pernambuco. A polícia suspeitava de que a jovem tivesse sido assassinada pelo namorado ciumento, que matou também o amigo que a acompanhava. Pelas contas do Fórum de Mulheres de Pernambuco, Raquel foi a 96a mulher assassinada no Estado nos quatro primeiros meses de 2007. Como explicar que a violência contra mulheres bata recordes em Pernambuco? Como dar forma artística ao horror de sociedades patriarcais e machistas?”
Eu me apresso em retrucar: e que diacho Baixio tem a ver com isso? O articulista da Piauí apressa-se em responder: “Baixio das bestas lida com as duas questões. O filme, que se passa na Zona da Mata pernambucana, mostra o horror com agrado e crueza.”
Não me passou pela cabeça que o diretor pernambucano desejasse “lidar com as duas questões” – nem comentar a violência contra as mulheres, em PE ou alhures, nem tampouco enfatizar o machismo das sociedades patriarcais (tem um “nordestinas” enfaticamente implícito no termo adotado, como se a turma do café fosse mais civilizada). Tampouco vi agrado nenhum em sua representação do “horror”.
O preconceito da revista sul-maravilhosa contra os nordestinos é descarado. A começar do nome adotado, em tom pretensamente engraçadinho e inócuo. Depois de contar o enredo, o autor (anônimo) do artigo continua:
“O filme é tão repulsivo, tão estúpido, tão abjeto, que dá até vontade de interpelar quem o concebeu, o auteur pernambucano Cláudio Assis, diretor de Amarelo manga.”
Notem o uso irônico do francês, desejando um contraste gritante com a origem nordestina do diretor. Mais pra frente o texto ainda refere-se ao filme de Assis como “sua oeuvre”.
A revista, e seu representante, são desde o inicio mal-intencionados: “Marcou-se um almoço na Casa da Suíça, restaurante antigo e simpático no decadente bairro da Glória, no Rio.” Tipo: vamos levar o nordestino, “auteur”, ao Primeiro Mundo. Ora, sem essa aranha: os repórteres andam vendo muito filminhos tipo Pretty woman, e queriam, mesmo, dar uma lição nos paraíbas, levar a classe baixa ao paraíso para que se apercebam do devido lugar. Os adjetivos pululam, como sapinhos na lagoa, nem um deles à toa: “antigo”, “simpático”, “decadente”.
Texto original, sem subtítulos: “Assis chegou um pouco atrasado. Com 46 anos, vestia o uniforme dos adolescentes filhinhos-de-papai: jeans, camiseta estampada fora da calça e boné enterrado na testa. Demonstrou também os modos (estudadamente) mal-educados de um púbere mimado, pois almoçou sem tirar o boné e pontuou todas as frases com palavrões. Pediu um steak tartare, que nunca havia provado.”
Querem os subtítulos? “Nordestino mal-educado pobre desejoso de ser quem não é não apenas em relação à idade mas também à classe social comporta-se naturalmente mal cagando já na entrada enquanto dos pretos espera-se ao menos que aguardem a saída para justificar suas origens territoriais”.
Aliás, que merda é steak tartare? Eu nunca provei. Abaixo-assinado aí nos comentários pra quem também não provou.
Ah, mas a revista não dá ponto sem nó – a explicação do prato vem sutilmente no parágrafo seguinte, acompanhada da bandeira hasteada do preconceito:
“Como era de se prever (em se tratando de um pernambucano macho paca) adorou o prato de carne crua.”
A explicação, para os desvarios do ingnorante cineasta, é lógica – além de nordestino, tem idéias esquerdistas: “Como também era de se imaginar, Assis se disse um artista de esquerda. Na juventude, chegou a freqüentar uma organização comunista. ‘Saí do partido porque não queriam que eu fumasse maconha, bebesse e falasse palavrão’, afirmou. ‘Ora, eu sou um homem do povo, bebo e falo palavrões.’”
Destaco, ainda, outros fragmentos do texto do legítimo auteur piauiense dos baixios do Leblon e Gávea:
“Foi com amolação que ouviu o argumento de que Baixio das bestas se compraz em mostrar a nudez da garota Auxiliadora, interpretada pela atriz Mariah Teixeira (que é maior de idade, mas parece uma adolescente). O cineasta não se agüentou, e interrompeu: ‘Mas eu quis mostrar o que é a exploração!’ Mas, então, por que a câmera se deleita em exibi-la, durante um tempão, tomando banho de rio, só de calcinha? ‘Porque eu precisava mostrá-la no espaço dela’, respondeu. Ficou definitivamente agastado quando lhe foi dito que a cena é uma exploração, é manipulativa, baixa e resvala na pornografia de inspiração pedófila. ‘A pedofilia está em você’, atacou. Assim, não há debate intelectual que vá adiante. Briga de homem cheira a sangue.
Não, meninos, não. Haverá quem se excite com a adulta com ares púberes. Eu, inclusive. Não por parecer uma menina, mas por ser uma mulher nua, e a nudez é excitante, inútil dizer que não é. E não é a mesma editora Abril, que comercializa e distribui a Piauí, a redentora de centenas de mães brasileiras cujas filhinhas expõem suas vergonhas na cara de milhares de leitores e assinantes ao custo de dez, doze reais, preço de capa?
Mas a tal da cena, na opinião do subscrito, é totalmente inserida no roteiro: ela acontece quando a menina começa a despertar, ainda mais conscientemente, sua própria sexualidade, antes um mero objeto do prazer voyeurístico da macharia. E antecipa a ruptura que acontecerá na seqüência, quando ela se livra do avô sacana, pra cair na vida de puta de beira de estrada – uma independência obviamente discutível, mas natural. Ou alguém acredita que mulher bulida, em Nazaré das Farinhas, Sorocaba ou Copacabana pode ainda encontrar um príncipe encantado?
Ainda: debate intelectual? O dândi sulista, jornalista refinado, contra o brucutu pau-de-arara, caga-lona? (A propósito e em tempo: no sítio da Piauí a matéria vem assinada, ao contrário da edição impressa, por Mario Sergio Conti).
“O cineasta, que tomou duas taças de vinho, parecia feliz da vida com o que tinha a dizer, no filme e no almoço.” Opa. Recado a quem ouse denunciar os males do país: nada de vinho, nada de sorriso na cara, nada que contrarie o discurso engajado.
Piauí ainda tem tempo de denunciar o macho pernambucano, que teve a ousadia de vencer no estrangeiro conquistando prêmios para o tal Cinema Nacional (que recusa-se a sair do eixo Rio-Sp), acusando-o de refocilar-se (tragam-me o Houaiss, please) “no sadismo misógino”, sintonizado que está “com o imaginário perverso dos tempos que correm”.
E conclui, com a pretensa chave-de-ouro do jornalismo-verdade, este, sim, legitimamente engajée: “Pobre Raquel Cristina, que vivia na realidade.”
Raquel Cristina é a coitada lá de cima, que entrou no texto de gaiata, na tentativa nobre do articulista anônimo de mostrar a Cláudio Assis como se faz jornalismo-denúncia.
A propósito: o país já acabou com as saúvas?
Revista Piauí. Editora Alvinegra. Rua do Russel 270 4º andar Rio de Janeiro. Avenida 9 de julho 5966 cj 21 São Paulo. www.revistapiaui.com.br
Baixio das bestas. Filmado em Pernambuco.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Tradição

Aos olhos da ciência nenhum desejo é inalcançável, nenhum segredo inviolável, nenhum mistério insondável, nenhuma conta imensurável. E poderíamos seguir nos adjetivos-áveis por léguas sem cansaço se eu não quisesse revelar logo a deixa para esse palavrório: pois, pigarro de quem limpa a garganta, nas páginas virtuais leio que os gays ganham 23% menos que os hetero. Vou investigar, que sou da turma do jornalismo investigativo (em Cidade dos Reis a coisa resume-se a navegar nos triplos dabliús): a manchete muda, de cara – são os homens gays, meninos, não as lésbicas, quem ganham menos.
E por que ganham menos? Por conta da discriminação dos patrões, ora bolas! O almocreve entra lá, todo lânguido e faceiro, o empregador o mantém à distância por trás do birô e tasca-lhe a língua ferina: quer dar o fiofó, meu rei? Queimar a rodela, a rosquinha? Pois, 23% a menos nos seus rendimentos.
Como os chatos dos patrões chegaram a esse valor não se explica. Se fosse no país do jogo do bicho (no masculino, por favor, que o blog é politicamente correto), 1% a mais e as contas bateriam.
Já os bissexuais não entraram na pesquisa, feita por uma universidade americana num período de dois anos. Suponho que ganhem menos, sim, mas noves fora os chutes, digamos, uns 11,5%.
Por falar em gays e preconceitos, semana passada mandei o carro pra lavar, que já estava pedindo o dedo dum daqueles meninos de antigamente a escrever na poeira do vidro: por favor me lavem! Limpa daqui, aspira dali, mexeram, os safados da equipe a jato, no amplificador do som – resultado: um barulho surdo e ininteligível de caixa estourada. Uma semana depois, que o tempo urge infelizmente pra outras melodias e notas que não as musicais, levo o som, carro e tudo obviamente, ao técnico. Mexe daqui, bole dacolá, o som explode, pra vizinhança toda ouvir, o cd que estava, pois, no cd player – que eu já nem lembrava qual fosse.
Era Realce, de Gil.
Era a faixa 3, Super-Homem, A Canção, justo no trecho, o super bass, mega bass, bom the bass, ativadíssimo:
Que nada / Minha porção mulher, que até então se resguardara / É a porção melhor que trago em mim agora...
Confesso que fiquei encabulado.
Senti-me como um gay a quem, de repente, no meio da rua, lhe tolhem, não do armário, mas o armário inteiro, vupt. O danado do armário onde até então ele, justamente, se resguardara.
Confesso que, eu, que não me considero um cara preconceituoso, tenho amigos que, agora sei, ganham vinte e três por cento menos etc, enfim, confesso que me perguntei a mim mesmo, entredentes: que porra esse disco tá fazendo aí?
O técnico, pelo visto e ouvido, também sentiu-se incomodado: apressou a pular a faixa, para, olha só, Tradição:
Conheci uma moça que era do Barbalho...
E respiramos todos aliviados. Em meio à potência viril de mil e tantos watts, nenhum por cento menos, nenhuma purpurina mais.
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Crônicas de mortes anunciadas
Para Odilon Garcia
Inexorável, como o tempo, a Cidade Velha vai ficando pra trás.
Como seus velhos, incapazes de seguir adiante, sem forças pra cumprir os dísticos Velociter e o da cachorra Aparecida, o de “correr sempre para a frente”.
Aliás, não ficam pra trás: são derrubados, destronados, desconsagrados, sem dó nem piedade, a não ser aquele pouquinho que paira como névoa tênue nos velórios que se sucedem a toque de caixa, fast funeral.
Como as velhas casas, derrubadas da noite para o dia para dar lugar, primeiro, a um terreno vazio, limpo e asséptico e terrivelmente plano, um breve clarão, clareira, entre o erguer-se impetuoso de novos prédios e o apagar-se das ruínas renovadas que assombram quem ainda resiste de pé; depois, para receber as gaiolas de aço, vidro e concreto com seus desejos explícitos de ascensão social.
A nova cidade não nasce: é edificada sobre os escombros da velha, sobre as memórias que não mais brotarão, sepultadas para sempre nos cemitérios, última morada da Urbe, real, viva. A cidade lembrada por Cascudo, citando Pierre Lavendan, como “um ser vivo”, e que, “como todos os seres, ela nasce, ela cresce, ela morre”, rejeita a si própria, refuta a própria orfandade, abraça um futuro que ignora qualquer sombra ou semelhança com o passado.
Se em 1946, Cascudo afirmava “A Cidade do Natal é uma perspectiva indefinida”, meio século depois a perspectiva é das piores. O novo ser vivo nem clone de si mesmo pretende ser. É apenas o fake do fake do fake.
terça-feira, 23 de outubro de 2007
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Canto de sala
Natal, 10-8-56
OTONIEL
NEWTON NAVARRO
"VERGONHOSA situação a nossa deante daquele homem calado e doente, sentado num canto de sala, preso da doença e da injustiça dos homens. Vergonha para todos nós a situação desse homem. Ferido pelo mundo e pelos homens aguarda, solitário, numa sala humilde a sua grande hora. Não tem desespero. Tem um olhar de distância e uma palavra de ternura ainda, para os que aparecem na sua casa. O Grande Poeta! O príncipe da poesia potiguar! O meu grande Otoniel Menezes... Ah, velho e ingrato mundo! Tortuoso mundo em que o poeta vive das suas tristezas e dos seus pesares.
Que fez ele, o cantor magistral da Praieira contra os homens e contra a Cidade? Que mal ou que maldição escreveu a sua pena de humildade e de beleza contra ti, minha cidade do Natal? Que ferida riscou ele em tua carne de sentimento para que o maltrates tanto na sua desdita? Otoniel Menezes, penso demoradamente em ti, nesta tarde. Quero ser teu irmão na desventura com que os homens de poder premiaram o teu grande e fecundo coração de Poeta. Estou ao lado nesta sala calada em que meditas. Quero para mim um pouco dessa mágoa que faz sombra em teu rosto. Participo dessa melancolia com que olhas do alto do teu silêncio ferido as torres da Cidade Perdida a que deste a melhor parte da tua alma. Meu irmão mais velho, Otoniel Menezes, sinto a tua alma junto a minha, os teus versos soluçam em meus ouvidos. Mas há uma solidão enorme que nos cerca. Os homens renunciaram a missão de ter vergonha. Não te olham, não te agradecem, fecham os olhos para a beleza dos teus cânticos. Adoeço de mágoa. Fecho janelas desesperadas que se abrem para um mundo vil e sujo. Pobre Cidade minha. Tanto que te quiz e ainda te quero, que mão pesada jogas sobre a cabeça encanecida do teu Cantor maior! Vergonhoso gesto dos teus mandatários tirando da mão trêmula do Poeta o pouco com que lhe premiaram o valor e a pureza dos seus versos. Ingrata Cidade que mataste Itajubá e feriste Jorge Fernandes, pára um pouco a mão impiedosa que rasga a alma do Poeta de Praieira. Já sofreu demais este homem. Deixa ao menos que nos seus dias finais possa ele cantar como fazia, o teu encanto de mulher entre um rio e um mar e sustentando entre as mãos um sol vivo e verânico, como uma rosa de fogo."
Que fez ele, o cantor magistral da Praieira contra os homens e contra a Cidade? Que mal ou que maldição escreveu a sua pena de humildade e de beleza contra ti, minha cidade do Natal? Que ferida riscou ele em tua carne de sentimento para que o maltrates tanto na sua desdita? Otoniel Menezes, penso demoradamente em ti, nesta tarde. Quero ser teu irmão na desventura com que os homens de poder premiaram o teu grande e fecundo coração de Poeta. Estou ao lado nesta sala calada em que meditas. Quero para mim um pouco dessa mágoa que faz sombra em teu rosto. Participo dessa melancolia com que olhas do alto do teu silêncio ferido as torres da Cidade Perdida a que deste a melhor parte da tua alma. Meu irmão mais velho, Otoniel Menezes, sinto a tua alma junto a minha, os teus versos soluçam em meus ouvidos. Mas há uma solidão enorme que nos cerca. Os homens renunciaram a missão de ter vergonha. Não te olham, não te agradecem, fecham os olhos para a beleza dos teus cânticos. Adoeço de mágoa. Fecho janelas desesperadas que se abrem para um mundo vil e sujo. Pobre Cidade minha. Tanto que te quiz e ainda te quero, que mão pesada jogas sobre a cabeça encanecida do teu Cantor maior! Vergonhoso gesto dos teus mandatários tirando da mão trêmula do Poeta o pouco com que lhe premiaram o valor e a pureza dos seus versos. Ingrata Cidade que mataste Itajubá e feriste Jorge Fernandes, pára um pouco a mão impiedosa que rasga a alma do Poeta de Praieira. Já sofreu demais este homem. Deixa ao menos que nos seus dias finais possa ele cantar como fazia, o teu encanto de mulher entre um rio e um mar e sustentando entre as mãos um sol vivo e verânico, como uma rosa de fogo."
As torres da Cidade Perdida
Mais adiante, em outro recorte, Navarro homenageia o ingresso de Veríssimo de Melo na Academia, e volta a citar Othoniel: “A Academia já começava a ser injusta, como injusta continua a ser para com o nosso Príncipe Otoniel Menezes, que por mais incrível que pareça sofre hoje, além da injustiça literária (para que liga muito pouco) uma injustiça maior: o quase desemprego”.
Sanderson Negreiros já havia homenageado o autor de Praieira no dia 7, mesmo agosto 56, publicando UM POEMA PARA OTONIEL MENEZES: “Distante, já ouvimos o rumor / aflito dos pássaros da treva. / [...] Velho Otoniel, poeta sofrido / [...] Venho e virei, inseguro na voz, / inquieto no meu desígnio, / saudar o destino de tua mensagem / agora testemunho ardente de minha carne.”
E Myriam Coeli de Araújo, sem data, provavelmente mesmo período, intitulado OTONIEL: “Nosso grande amigo Otoniel, nosso irmão de Poesia, sofre a injustiça dos homens sentado em sua cadeira na sala da casinha humilde, acompanhado de sua tristeza, de seus livros e de sua Maria que lhe é o maior bem”.
Por que diabos falo em Othoniel – prefiro a grafia com agá – se este morreu em 69, se Navarro morreu em 91, se Dona Salete, que nem poeta era, ora bolas, morreu em 07? Ela, Maria Salete de Souza, professora da Escolinha Cândido Portinari, que casou com o poeta em 1980. Ela, que no hospital – me contou Taciano Arruda – perguntava e pedia pela cachorrinha “Cidinha”, Aparecida, como a cadela de Beira-rio – aquela outra, que não queria mais voltar pra Redinha, por temor ou desprezo ao outro lado do rio.
Porque, porque, porque. São tantos porquês. Tantas respostas. Releiam NN, meio século atrás: “Ingrata Cidade que mataste Itajubá e feriste Jorge Fernandes, pára um pouco a mão impiedosa que rasga a alma do Poeta de Praieira”. Releiam Jorge: “Eu avancei para muita coisa e terminei em nada”. Releiam Itajubá: “Natal, quando eu morrer, apaga-me da lembrança”.
Esqueçam aquela ponte, de nada para lugar algum. Esqueçam Navarro, Luís Carlos Guimarães, Berilo Wanderley, Oswaldo Lamartine, preparem-se para esquecer outros, tantos quantos hão-de, preparem-se para apagar o que importa do incômodo da lembrança.
Parem de perturbar os mortos com essas homenagens post-mortem, com esses títulos vazios, com esses descerrares de placas de bronze, ouro-de-tolo. Aprendam com Aparecida, da Redinha, de Beira-rio: “Ganha o alto da duna, vadeia por entre o mato ralo, alcança o emaranhado das redes estendidas ao sol, atira-se, entotecida por entre as velas que enxugam, e ganha, por fim, a proteção das primeiras casas. O coração pulsa violento. Meio palmo de língua roçando a areia e os olhos nublados. Não tenta olhar para trás. O certo é correr sempre para a frente”.
sábado, 20 de outubro de 2007
Navarro
Morreu hoje Salete Navarro, viúva do pintor, poeta, cronista, boêmio e homem de mil e uma qualidades Newton Navarro.
Não conseguiu vencer a doença que a atingia, cruelmente, como todas as doenças.
Tampouco conseguiu ver inaugurada a ponte sobre o Potengi, que leva, levará, o nome de NN. Sabe Deus quando. Uma demora inexplicável, da parte dos responsáveis por sua construção. Uma indiferença generalizada e apática da tribo nativa que se espreme às suas margens, droit, gauche.
Não se pode dizer que morreu abandonada, como quase morreria Newton, se não fosse a intervenção, à época, do amigo Taciano Arruda, que pediu a intervenção do primo, Cassiano Arruda, que por sua vez falou com o governador de então, José Agripino, que providenciou a transferência de NN do Walfredo Gurgel para a Casa de Saúde São Lucas, num jogo de dominó surreal que findaria na sua morte, pois, em 91.
Em 10 de agosto de 1956, o próprio Navarro publicaria uma crônica lamentando o descaso da Cidade dos Reis com Othoniel Menezes. Começava assim: “Vergonhosa situação a nossa deante daquele homem calado e doente, sentado num canto de sala, preso da doença e da injustiça dos homens.”
Publicarei a crônica, na íntegra, segunda. Aliás, achada num livro de recortes que pertenceu a Protásio Melo e estava largado num vuco-vuco da 15, poucos dias depois de sua morte.
Dona Salete Navarro era a última guardiã da obra de Newton. Vivia amargurada diante do descaso dos conterrâneos com o legado enorme deixado pelo poeta. Eu bem que tentei, uma edição selecionada das crônicas navarrianas. Custaria infinitamente menos que qualquer prego, parafuso, canapé servido quando do futuro e mais que provável coquetel de inauguração. Fui incapaz. Também Diógenes da Cunha Lima pelejou junto a uma das construtoras da ponte para que se criasse um memorial em homenagem a Newton. Nada.
A muito custo deram-lhe o nome – que briga, desde antes do primeiro automóvel cruzá-la – com outros batismos: Ponte de Todos, Ponte Forte-Redinha.
Dona Salete Navarro. Estive semana passada no hospital. Sofria. Agora, me vem em mente uma idéia terrível. Se o sofrimento, além do físico, não teria sido atenuado: quem sabe se a convidariam para a inauguração? Ou, se restaria sentada, num canto de sala, onde esperam os poetas, suas viúvas, a hora final, antes da última pá de cal do esquecimento?
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Lamentando o eterno movimento dos barcos

Trânsito
A moça usava um vestidinho vaporoso, de vapor barato, o vento moldando as pernas compridas, os saltos cruzando os joelhos no alto dos mosaicos da calçada em chamas, as mãos remexendo os cabelos que balançavam o vento e espalhavam brasas ao longo da avenida, ali, raspando o meio-fio, os paralelepípedos cortantes do meio-fio, fim de tarde.
Não sei como, imaginei que ela tinha acabado de sair do cabeleireiro, perfumada, lavada, cheirosa como só as mulheres de vestidinhos vaporosos são capazes e possíveis de sair do cabeleireiro.
Não sei por quê.
Só sei que eu virei a cabeça.
A moça usava um vestidinho vaporoso, de vapor barato, o vento moldando as pernas compridas, os saltos cruzando os joelhos no alto dos mosaicos da calçada em chamas, as mãos remexendo os cabelos que balançavam o vento e espalhavam brasas ao longo da avenida, ali, raspando o meio-fio, os paralelepípedos cortantes do meio-fio, fim de tarde.
Não sei como, imaginei que ela tinha acabado de sair do cabeleireiro, perfumada, lavada, cheirosa como só as mulheres de vestidinhos vaporosos são capazes e possíveis de sair do cabeleireiro.
Não sei por quê.
Só sei que eu virei a cabeça.
Futebol
Devo se o único selvagem da Terra dos Papagaios que não está vendo (viu, quando você ler esta nota) o jogo do Brasil, aka Seleção Brasileira. Nem sei o placar. Se amanhã der de cara nalgum sítio náutico, tudo bem. 11 homens e uma bola – do lado de cá. Mais 11 e a mesma bola – do lado de lá. Um punhado no banco – lá e cá. Massagista, preparador físico, técnico. Juízes e bandeirinhas. E a torcida. Leve um homem e um boi ao matadouro, já ensinava Torquato. Junte homens e bois num só rebanho, aí já viu: a merda é grande. É tudo que eu sei do football. Além do fato que Nelson Rodrigues – ou seria Otto Lara Resende? – o chamava ludopédio.
Amor
“– Por que, meu Deus, eu me casei?”
A frase – talvez a mais repetida depois do clássico euteamo – poderia ter saído da boca de Paul McCartney. A resposta, dizem os comunicólogos, vai custar os olhos da cara: 51 milhões de dólares.
É a mesma frase presente na página 52 de Madame Bovary, edição comemorativa dos 150 anos, editora Nova Alexandria, 07.
Nunca é demais lembrar o subtítulo: costumes de província.
Samba
A televisão me deixou menos burro: ontem, no TELECINE cult, descubro que Che Guevara e Omar Sharif eram a mesma pessoa. Filminho besta com pinta de documentário fake. Não tenho paciência de ver o final, o mocinho morre etc. Saiu da vida pra entrar na história – não, esse era o Getúlio Dornelles. Me vem em mente uma confusão dos diabos: El Che, El Kharish, o Capitão Nascimento, Luciano Huck, a revista Veja, a Rolling Stone, Faustão, a Fidelidade Partidária, Renan, Mônica, La Galisteu, O Jovem Faria, Paul, Heather, o Ponte Preta...
Sei que existe um elo unindo todos eles.
Eu sei.
Só não me lembro.
Tropel
Aliás, procurem no Google as figurinhas fáceis:
Capitão Nascimento: 800 mil resultados em 0,09 segundos.
Luciano Huck: 481 mil em 0,07.
Renan Mônica: 832 mil, 0,15.
Galisteu Faria: 19.100, 0,16.
Do jeito que a coisa vai, perigas ver: na próxima capa da Playboy, em vez do sólito IBOPE, o marmanjo do BOPE. Ôps: é campeão – um milhão seiscentos e vinte mil resultados em zero vírgula zero oito segundos!
Mas, como o Brasil é bem menor que o mundo – ao contrário do que pensam muitos silvícolas – o casal, ex-casal, Paul, Heather, sai na frente: 4 milhões 670 mil em 0,12 segundos.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
terça-feira, 16 de outubro de 2007
As aventuras do Sr. F. | 1
O Senhor F. é boa pinta.
O Senhor F. é um cara legal.
O Senhor F. tem charm, tchans, tchuns.
O Senhor F. usa botas de couro, argolas nas duas orelhas, cabelo cortado rente, camiseta casual de cem reais.
A barriga do Senhor F. já dá sinais da exuberância que rege as vértebras da sua coluna – lordose, vinte e pouquinhos graus, imperceptível, a não ser pelas dores.
A barriga do Senhor F. é sutilmente proeminente.
O Senhor F. é todo proeminente.
A conta bancária do Senhor F. é pra lá de proeminente.
O Senhor F. é um publicitário.
O Senhor F. gostaria de ser o publicitário.
No momento, por enquanto, o Senhor F. é apenas um publicitário, um dos muitos que se multiplicam como coelhos nas pastagens urbanas do Brasilbusiness.
E que, como coelhos que são, saltam de lá pra cá, de cá pra lá.
Não, o Senhor F. não tem olhos vermelhos.
O Senhor F. já teve L.E.R.
O Senhor F. não gosta de ler.
O Senhor F. não gosta de ler, a não ser jornais de publicidade, revistas de publicidade, livros de publicidade. Quanto mais figurinhas, melhor.
O Senhor F. sabe bem a diferença – de cor, de salteado lebrino – entre publicidade e propaganda.
O Senhor F. franze a pele da testa, arqueando uma sobrancelha, diante de um interlocutor que não saiba dessas diferenças.
Que não saiba o que é L.E.R. – Lesão por Esforço Repetitivo – e que não saiba do equivalente em inglês, R.S.I. – Repetitive Strain Injury.
Por exemplo: o Senhor F. gostaria de ter um S.U.V.
O Senhor F. sabe que é a sigla – em inglês – para Sport Utility Vehicle.
É sempre mais interessante consumir algo quando se é bem informado, contrair uma doença, inclusive.
O Senhor F.
O Senhor F. usa laptops, notebooks, palmhands, celular com câmera.
O Senhor F. não sai de casa sem eles, não entra em casa sem eles, não sobe na cama sem eles, nem na hora da foda. O Senhor F. não fode a mulher, claro.
O Senhor F. é feliz.
E, ao contrário da maioria dos comuns mortais, sabe.
Viva o Senhor F!
Viva!
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
3 poemas, 1 poeta de Turim
BEBIDA COTIDIANA
Quatro gotas
de autocomiseração
acrescento hoje
a esta amara poção
ALMA
Das muitas palavras
que recebi
poucas conservei:
a capacidade da alma era pouca.
Hoje
aprendi três palavras.
O progresso da alma é lento.
COMO REALMENTE ACONTECERAM AS COISAS
A serpente
da inocência
encontrou o pecado
e o comeu.
Tradução MIDC
MARINELLA GROSA. Geometrie dell’atesa. Pasian di Prato: Campanotto Editore, 1996
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Notas cegas

Rei caolho
Augusto Lula dá a dica e eu repasso aqui: quem quiser adentrar um pouco na cabeça dum diretor de cinema durante o processo de filmagem pode acessar http://www.blogdeblindness.blogspot.com/: o blog de Fernando Meirelles sobre as filmagens de Blindness, baseado, inspirado, extraído do livro de Saramago, Ensaio sobre a cegueira.
Rei caolho dois
Adriano de Sousa, num post-operatório delicado, me dá notícias terríveis que, não, não posso contar aqui. O rapaz continua arredio e inquieto com a mesmice potiguara. Desconfio que sua convalescença é mera desculpa pra não atualizar seu blog.
Rei caolho três [e Rainha Caolha]
Ontem, momentos después de saber da demissão de Tácito Costa – em seu substantivo plural – deito os olhos em matéria do JH sobre o show do dia da criança: Marina Elali in concert. Música pra bebês. Artes da Fundação Zé Augusto. Como dois e dois são cinco, já entoavam os Reis Roberto y Caetano, deduzo: será ela a nova editora da Preá? As metamorfoses continuarão – de galo pra preá, de preá pra sabiá?
Rainha Caolha dois
Em terra onde a diretora do único Teatro (com tê maiúsculo e secular) é uma colunista social, tudo é possível e faz sentido. Aliás, se confiarmos no sítio do TAM, este ano as portas ficaram fechadas – a agenda não vai além de dezembro 06.
Rainha Caolha três
Não temos pão? Aos brioches, então.
Augusto Lula dá a dica e eu repasso aqui: quem quiser adentrar um pouco na cabeça dum diretor de cinema durante o processo de filmagem pode acessar http://www.blogdeblindness.blogspot.com/: o blog de Fernando Meirelles sobre as filmagens de Blindness, baseado, inspirado, extraído do livro de Saramago, Ensaio sobre a cegueira.
Rei caolho dois
Adriano de Sousa, num post-operatório delicado, me dá notícias terríveis que, não, não posso contar aqui. O rapaz continua arredio e inquieto com a mesmice potiguara. Desconfio que sua convalescença é mera desculpa pra não atualizar seu blog.
Rei caolho três [e Rainha Caolha]
Ontem, momentos después de saber da demissão de Tácito Costa – em seu substantivo plural – deito os olhos em matéria do JH sobre o show do dia da criança: Marina Elali in concert. Música pra bebês. Artes da Fundação Zé Augusto. Como dois e dois são cinco, já entoavam os Reis Roberto y Caetano, deduzo: será ela a nova editora da Preá? As metamorfoses continuarão – de galo pra preá, de preá pra sabiá?
Rainha Caolha dois
Em terra onde a diretora do único Teatro (com tê maiúsculo e secular) é uma colunista social, tudo é possível e faz sentido. Aliás, se confiarmos no sítio do TAM, este ano as portas ficaram fechadas – a agenda não vai além de dezembro 06.
Rainha Caolha três
Não temos pão? Aos brioches, então.
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
“Numa idade sombria e inquietante...”
Conheci Franklin Jorge no tempo em que escritor potiguar para mim não fedia nem cheirava, não era carne nem peixe, nem espinho nem flor: eu me interessava por tudo que fosse o mais distante da capital e acabou-se. Não, não é verdade – quando conheci Franklin Jorge eu já havia subido os degrauzinhos que separavam a sala de Marize Castro da rua, ali, onde cantava O Galo, manjedoura da Cidade dos Reis. Marize, toda segura e dona de si mesma, eu, mais inseguro e tímido que um cão vadio. Um cãozinho vira-latas. Sem abanar o rabo. Sem pedir ossinho. Com uns papéis, datilografados ou impressos naquelas impressoras matriciais duma época. Era um conto, sobre gatos, telhados. Ela publicou. Talvez aqui, nesta altura do texto, eu devesse confessar que esperava que acontecesse algo, e que nada aconteceu. Mas, não. Eu não esperava realmente nada e tudo que eu queria era ficar no meu canto, bem quietinho, sem ser incomodado. Provavelmente eu tinha um medo danado de me transformar num escritor potiguar, publicar aqueles livrinhos horríveis, que não se punham em pé nem deitados, as páginas se desfazendo, as capas horrorosas, a impressão cheirando a pobreza, a lombada batida, chocha, como uma mulher sem bundas (assim, no plural). Acordar manhã cedinho e se descobrir um autor, escritor, poeta (o abismo!) potiguar seria tão pavoroso quanto despertar barata feito o jovem Samsa. Enfim.
Conto tudo isso pra desdizer o dito acima, inicial. Não era a geografia nem nada o motivo do meu desinteresse, além do papel barato. Era o tal do ganha-pão. Eu tinha mergulhado de cabeça no mundo da publicidade pelo salário que ajudava a comprar fraldas e congêneres. Escrevia, e basta. A agência onde eu ralava foi chamada pelo Diário pra fazer a campanha dum novo caderno, cultural. Campainha chocha, sem nádegas etc, mas o pessoal gostou e lembro que FJorge assinou embaixo, não sei se mais na carona pressa etc, no fundo acho que ele não gostou tanto, mas. Ele me olhava assim, com uns olhos perguntadores. Eu não tava nem aí pros escritores e cultores da cultura potiguar, meu negócio eram as fraldas e o leite do bebê, ipsis litteris.
Anos, anos, muitos anos depois, Afonso Martins, que me conhece razoavelmente bem, presenteia minha mulher estrangeira com o Spleen de Jorge. Notem: não a mim, mas a minha mulher, enquanto bicho exótico, gringo. Acho que a dédica dizia algo, pra conhecer melhor nossa cidade. Eu olhei aquele livro potiguar, peixe, carne, alho, caralho, nem. Um dia, como convém a qualquer historieta, o livro me gruda nas mãos e é devorado num piscar de olhos, num bater de cílios, num fôlego de mergulhador das profundas daquele rio lá governado por Caronte.
Continuo desconhecendo Franklin, Jorge, o homem. Mas o escritor dorme na cabeceira ao lado, num altar profano onde meti, olha só, uns dois ou dez autores potiguares, não mais que duas palmas de mão abertas, esqueçam os dedos dos pés que não dá pra tanto.
Dias atrás ele me lê nesses diários náuticos e me envia um texto. É o que segue, abaixo.
Marize? Ah, Marize continua impávida, colossal, no alto céu feito um diamante cor-de-rosa-e-carvão. Gosto muito do seu gostar de Emily Dickinson, do seu gostar de Elizabeth Bishop. Do seu gostar virginal. Já nos encontramos, once upon a time, diante do Hyde Park Gate 22. Ela não me viu. Nem eu a ela. Nos afastamos, cada um pro lado, um restinho de névoa acobertando nossos passos.
“Numa idade sombria e inquietante, temerário estrangeiro na terra dos homens...”
RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM
"Numa idade sombria e inquietante, temerário estrangeiro na terra dos homens, eu sentia o remorso das horas perdidas quando, vagando à noite pelas ruas desertas de minha cidade, pensava na escolha solene e irremissível que fizera em segredo – a de tornar-me escritor --, persuadido de que, pensando e escrevendo, me tornaria diferente dos muitos que se rendiam ao convencionalismo e à habitual cotidianidade. Era o meu segredo. O segredo que sabe ter todo adolescente, vivendo em seu mundo próprio, fustigado pelas incertezas que nos assediam.
Uma idade muito próxima daquela em que a minha avó me levara ao Grande Hotel para conhecer Glauce Rocha, que quis saber o que eu pretendia ser na vida e eu lhe respondi, num rompante de tímido, “escritor ou nada”, resposta que a surpreendera e que me fez merecedor de dois beijos da grande dama do teatro, que então se apresentava no Theatro Alberto Maranhão.
Notei sobre sua cama exemplares dos jornais “Tribuna do Norte” e “Diário de Natal” e dois ou três livros sobre uma mesa. “Escritor ou nada”, repetiu Glauce, numa voz rouca e lenta, sem disfarçar o seu aturdimento diante da convicção de um jovem inexperiente. Ao nos despedirmos ela me presenteou com um pequeno volume encadernado em couro, contendo em letras de ouro o nome de Vauvernagues, cujas máximas deliciavam a minha avó. Antes de entregá-lo ela rabiscou rapidamente uma dedicatória ao seu “valente escritor natalense...”
Empolgado pelos sentidos e ansioso por agir e realizar, via-me retratado especialmente em dois personagens de Thomas Mann, que eu adotara como modelo de escritor cônscio do que cria, desde que começara a ler sua obra que me fora emprestada por Dona Maria Eugênia [Maceira Montenegro], cuja biblioteca quase infinita me proporcionara o acesso a um mundo novo de idéias e experiência feito.
Desde os meus catorze anos eu já intuíra misteriosamente que os meus modelos seriam muito diversos daqueles que satisfaziam ao gosto literário comezinho e rotineiro dos meus companheiros com veleidades literárias. Embora ainda uma criança, em tudo ignorante da vida, horrorizava-me toda a forma de vulgaridade e de conformismo que via expandir-se entre meus colegas de escola que também sonhavam com as letras, sem perceberem minimamente o grau de responsabilidade e de compromisso que o ato de escrever acarreta para quem se atreve a fazê-lo. Tudo isso eu percebia de maneira confusa, subjetiva, misteriosa, sem explicações.
Aos dezesseis ou dezessete anos, dominado por uma espécie de obstinação viril que o obstáculo redobra, empenhava-me em ser diferente dos muitos que conformavam sua maneira de viver e pensar com o exemplo comum. Buscava, pois, o raro, o difícil, o contraditório, o que jaz sob camadas profundas, uma coisa ou algo enfim que não se deixa usufruir por todo mundo. Por isso, ao mesmo tempo em que cortejava a solidão, refletia numas palavras que lera em Tonio Kroger, tornadas como que para mim uma espécie de credo estético. Seria preciso morrer para o mundo, eu repetia em silêncio, para afinal tornar-me um perfeito criador... Mas, como?
Incerto quanto a melhor forma de alcançar o futuro, sabia com total segurança o que não desejava, como desperdiçar o Tempo, para mim, o bem mais precioso e irrecuperável, quando mal aproveitado em gratificações banais. Ao mesmo tempo intuía que de alguma forma imperceptível e sutil era trabalhado por ele. Fascinava-me, por isso mesmo, a metafísica, a busca da essência mesma da vida, a vertigem do nada, o gosto pelo existencialismo. Quantos tormentos para tão curta vida.
Em minha adolescência inquieta e fatigada, queria, pois, ser Hamlet, Hans Haller, Raskolnikov, Vinteuil, Stephen Dedalus, Julien Sorel, o escritor inominado de “Almas Mortas”, presciente da inutilidade de tudo e, no entanto, fiel ao dever de construir uma justificativa para a própria existência...Uma obra enfim que me justificasse no futuro... Em síntese, a prova concreta de que aproveitara bem o meu tempo. Um artista em processo, ávido de experiências, eu ignorava ainda que para descrever um crepúsculo, conforme a lição prodigada por Borges que eu ainda não lera, faz-se necessário ver mil crepúsculos e refletir sobre eles."
Franklin Jorge
[Escritor e jornalista]
terça-feira, 9 de outubro de 2007
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