terça-feira, 17 de junho de 2008

A manhã desperta [120608]




Do janelão, assisto o dia se espreguiçar. Nuvens, muitas nuvens, mas nenhum sinal de chuva. Nem um tico de vento – também pudera: os prédios de concreto e pastilhas cerâmicas não balançam. E esses prédios e esse concreto e essas pastilhas estão cada vez mais monopolizando a paisagem.

Eu sei, porque a janela é o meu termômetro da construção civil. A cada semana perco um pouquinho mais do cinturão de morros verdejantes, que se estendia, lânguido, de uma ponta a outra a perder de vista. Um mastodonte estreitou meu ângulo de visão: é como se tivessem trocado, à minha revelia, meu televisor wide screen por um daqueles aparelhos minúsculos e portáteis (coincidentemente semelhante àquele que o porteiro do novo prédio usará em seu cubículo blindado).

Impressiona como um prédio em construção assemelha-se a um prédio em ruínas. Uma carcaça de tijolos vermelhos, ferro e concreto cinza – e um monte de buracos onde as janelas não chegaram. O que lhes empresta um ar de boca cariada. Ou banguela.

Penso em nós, humanos: a distância física entre um feto e um ancião é enorme, tão grande quanto a vida que será vivida e preenchida no percurso.

Já um prédio revela em seu nascimento a sua própria morte e ruína. Num futuro distante que inevitavelmente chegará o quanto antes.

Um prédio em construção é como um monstro revelado. Um vampiro no espelho. Uma velha senhora sem maquiagem e sem jóias (falo daquelas senhoras que não vivem sem uma e outras coisas). É como aquela mulher de Shangri-La, o lugar mítico do filme “Horizonte perdido”, que, por amor, deixa o seu Paraíso natal para aventurar-se no mundo moderno: nem bem se distanciam, o amante descobre que a jovem enamorada é na verdade uma velhinha decrépita e enrugada. Shangri-La a fazia moça, fresca e ardente.

Sem Shangri-La, a vida se apressa em decompor-se. As células degeneram, as rugas multiplicam-se, os músculos enfartam. As pastilhas começam a cair, a ferrugem começa a corroer o osso cinza do concreto.

Mas, não se preocupem, senhoras e senhores de meia-idade: os pássaros ainda cantam, aqui, ali, acolá, não em wide screen, mas em dolby surround. Cantam e festejam a manhã, que se levantou bem cedinho, bem contente e disposta a iluminar este canto do planeta, esquina do continente, trampolim da vitória.

Daqui a pouco chegarão os operários – mas aí o sol estará mais alto e o alborecer será apenas uma lembrança de sonho.

3 comentários:

Lívio Oliveira disse...

Amigo, gosto do que você escreve!

Moacy Cirne disse...

"Um prédio em construção é como um monstro revelado. Um vampiro no espelho". Tudo está dito, aqui, em palavras enxutas. A verdade é que eu amava muito mais a Natal horizontalizada dos velhos tempos. Quando a Cidade dos Reys passou a ser uma lembrança (forte, é verdade) pra mim, estavam construindo o primeiro prédio de oito andares, na Praça da Alegria (também conhecida como Praça pe. João Maria). É isso aí. Um belo texto. Abraços.

Anônimo disse...

E COMO UM JOGO DE XADRES EL JAQUE MATE DE LA REINA CON EL PEON AL REI,Y FINALMENTE LA JUGADA QUEDA EN LA PROSPERIDAD, EL ENVEGECIMIENTO Y LA MUERTE SON REALES ,PARA LA MATERIA QUE NECESITA RENOVARSE Y NACER DESNUDA COMO EVA EN EL EDEN