quarta-feira, 25 de junho de 2008

Meu reino




Também eu tive o meu reino, minha pasárgada, meu são saruê de devoção fervorosa, minha cocagne e minha cocaigne.

Era um pequeno, minúsculo principado à beira-mar – embora o oceano mais próximo distasse algumas centenas de quilômetros dali, e as ondas eram tão somente labirínticas linhas férreas, o marulhar os apitos compridos dos trens, e a vegetação uma floresta de antenas de TV.

Ficava no alto de um velho palácio, de paredes robustas, de porta dupla de madeira pesada, de escadarias largas e suaves, sem elevador para encurtar o caminho, porque assim era mais saborosa e desejada a chegada.

Lá em cima, vencida uma pequena porta de ferro, abria-se um terraço sem pompa ou circunstância – esquálido, ferruginoso, de pedra. E, no entanto, era ali que o horizonte vinha derramar-se. O céu, literalmente, era o limite.

Girando um ângulo à esquerda, como escondido em silente surpresa, meu reino – como um oásis acolhedor em meio ao deserto.

Meu reino não tinha muralhas, mas um pequeno muro e um portãozinho de ferro com direito a batente e sino de anunciação.

Era ali que, muitas vezes e quase sempre, nos fins de tarde de outono ou em manhãs primaveris, eu sentava-me para receber o sol na cara e nos pés descalços. E sonhava com mares antes navegados, com praias onde mergulhei entre sargaços e estrelas, com a areia alva onde enterrava os pés no abrigo quente das horas.

Cruzado o portão, não se deixava toda esperança, nem alguma ou nenhuma: ali, a esperança era uma certeza, não uma possibilidade. Era real, não uma alegoria. Era prosa e poesia, era fato e fantasia.

Do mesmo tamanho da casa era o jardim. Quando ali cheguei, as plantas estavam secas e sem água. Limpei cada vaso, cada prato plástico sob os vasos, cada planta e arbusto. Livrei-me das folhas secas e da terra esturricada. Alegrei-o com regas fartas seu esplendor. Filtrei o sol com os pingos da vida.

Ali comíamos. Ali bebíamos. Ali vivíamos. Os tomates eram frescos e vermelhos como o fogo. As verduras brilhavam sob o sol. O azeite era farto e abundante. O sal, a pimenta, a noz-moscada, as alcaparras, o vinagre, o manjericão. Os pimentões, verdes e vermelhos. O pão árabe, fresquinho. A rosetta diária sobre a mesa de tábuas gastas e vividas, consumidas pelo tempo que parecia não ter fim.

Uma velha espreguiçadeira para as noites quentes de verão e para as tardes frias ensolaradas.

O jornal dobrado, as folhas bulindo ao vento, espalhando somente as boas novas.

E a casa. De fachada simples como um haicai. Uma porta de vidro. Uma janela de vidro. O telhado de duas águas unindo-se quase ao centro.

Tão minúsculo o seu interior que bastava entrar para que se enxergasse o tudo: uma cama larga e quente de casal, um telefone vermelho de parede, prateleiras com toda espécie de objetos de uma inutilidade importantíssima, uma estante com livros e pastas, um baú para as roupas, uma mesa dobrável – para escrever cartas e acender velas, porque naquele tempo o dia não findava sem uma carta sobre a mesa ou uma vela bruxuleando sombras.

O banheiro mínimo num canto, e a cozinha estreita no outro – seu teto era tão baixo que nas primeiras semanas eu batia com freqüência a testa na trave de madeira. E disso achava graça, porque não havia espaço naquela casa para outro que não fosse o riso e a alegria.

A música sempre ligada, numa rádio com o sintomático nome de “Cidade Futura”, ou no girar contínuo de fitas cassete em profusão.

Mas o melhor da casa era quem nela vivia. Os tempos eram difíceis, o dinheiro escasso, o inverno rigoroso. Depois de uma noite dura de trabalho, com a manhã anunciando-se entre as pontes, eu cruzava a cidade e o frio gélido da madrugada sobre uma moto de baixíssima potência.

Ligeiramente embriagada, semi-aquecida debaixo de um casaco pesado, luvas e gorro de lã, a alma descortinava paralelepípedos e asfalto, sinais e postes de luz. Abria, aos pulos, o portão de madeira do palácio, subia apressada os oito lances de escada, desembocava no aberto do terraço, empurrava sem esforço o portão de ferro, fazendo soar minimamente o sino e entrava sob as colchas onde uma outra alma sonhava.

Juntas, mergulhadas uma na outra, aqueciam os corpos e a certeza do amor.


[desenhos de egon schiele]
PROSA
“Diz a lenda que o tempo adormeceu na hora mais agradável do dia e na estação mais prazerosa do ano”
Manguel e Guadalupi
Dicionário de lugares imaginários
VERSO
“No Céu que mais a sua luz favorece
estive”
Dante Alighieri
“Paraíso”

3 comentários:

lissa disse...

já tinha lido no jornal de hoje matutino, e tb acho: o texto é lindo mesmo, merecia estar por aqui.

Anônimo disse...

E eu que procurava algo praos ouvidos...

midc disse...

nao entendi, anônimo...