quinta-feira, 31 de julho de 2008

A.M./ P.M. [310708]





Ainda trago nas costas as cicatrizes/ das asas que me foram postas.// Não há invenção mais cruel que os altares. – Ada Lima, em seu blog ant’ontem, às 2h45. P.M.


Sebastião Vicente, desde Brasília, andou comparando Ada com Marize – Castro, claro. Acha que as estréias literárias das duas poetas – à distância de duas décadas – têm a marca do berço esplêndido: ambos os livros nasceram clássicos.


Além: que Marize, ao tirar a poeira da poesia potyguar, de certo modo abriu alas para Ada, liberando-a da faxina pesada – e que, na ausência de pó nas estantes, a novata possivelmente ecoa e reprocessa a pioneira.


Não sei. Sei não.


Que “Marrons crepons marfins” é ícone e totem desde o nascimento, é fato – ainda mais passados vinte anos.


Que “Menina gauche” é obra – literalmente prima – pronta, definitiva, acabada e sem necessidade de correções ou maturações, é inquestionável.


Mas é incerto comparar uma e outra – até porque Ada Lima ainda não cumpriu o tempo regulamentar para uma entronização mais apurada, coisa que o correr do tempo já permitiu à Marize.


Existe ainda, na minha pouco humilde opinião (me antecipo às hienas e aos barões assinalados), uma diferença básica entre as duas: enquanto a poesia de Marize parte das entranhas para brilhar e explodir fora do corpo do poema num diálogo intenso com seus próprios ícones e totens (toda uma mitologia, clássica e literária), Ada Lima encerra-se em si mesma e conversa – e discute, e questiona – sua própria intimidade.


A poesia de Castro diz muito de suas leituras. A de Lima não revela nada, além dela mesma – e, mesmo assim... Enquanto a primeira usa do mito e do enigma pra se desnudar, sem pudor, a segunda aparentemente se expõe numa poesia que mais esconde, sem esclarecer totalmente (ou clarear) o enigma e mistério. O universo de Marize é exterior, amplo, e costura séculos segundo o bordado dos seus interesses e paixões: da Grécia antiga ao número 22 do Hyde Park Gate, endereço de Virginia Woolf, quase tudo em Marize é geografia e paisagem revisitadas. O mundo de Ada é interior, quase uterino. E mínimo – mas de um minimalismo espantoso, sendo capaz de desenhar, em poucos versos, um inteiro romance: Apenas deságüe em mim/ e faça surgir/ um coração/ em meu ventre.


Quando surgiu, em meados dos anos 80, também Marize foi comparada à outra poeta – Ana Cristina César. Moacir Amâncio acrescentaria ainda outros dois nomes femininos à lista: Orides Fontela e Adélia Prado.


O próprio Sebastião sabe que a década era particularmente sensível a outros espíritos que o novo século prefere ignorar – “quando todos éramos dark”, acentua o jornalista e também poeta. Mas o período subseqüente à anistia política era também pop, solar e libertário – e permaneceu assim até quando a AIDS deixou de ser uma sombra distante para se tornar uma ameaça real.

Daí vieram outras décadas, a de 90 e esta que está por encerrar-se – e Ada Lima, tão próxima e tão longe do hoje, tão próxima e tão distante de Marize, de Zila, de Diva... ou de Auta, Palmyra, Nísia...


Ainda bem que Ada já sabe que todo altar é invenção. E crueldade.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

De laranjas e morcegos [280708]


[Mel Ramos]


A culpa foi da Sukita.



E do gelo na Sukita.



Na pressa de não perder a última sessão legendada da noite, bebi rápido demais o refrigerante laranja. Umas seis pedras de gelo flutuavam no líquido cor-de-Fanta. Me lembrei das cenas finais de “Frankenstein” – o livro, não o filme. (Ah, o gelo se quebrando no pólo extremo da Terra, o monstro em fuga irada...)



Daí que fui assistir ao novo filme de Batman.



Daí que, bexiga cheia, fui assistir ao último filme de Batman.



Na verdade, a bexiga não estava tão cheia, digamos que na reserva. Mas, por esses mistérios abissais do corpo humano, a cada minuto que passava, a cada nova seqüência de músculos e testosterona na goela rouca do morcegão fantasiado, o tanque enchia-se de um líquido cor-de-Fanta-e-Sukita.



Que não era nem Fanta nem Sukita.



Entrar no cinema com uma reserva de mijo na bexiga é sacanagem. Uma maldade. Puro preconceito. Que nem entrar no cinema com aquela reserva de desconfiança – mau-humor com os elogios rasgados à atuação de Heath Ledger. O sobrescrito é avesso a muito confete e serpentina. Ainda mais que o elogiado já bateu as botas (aquelas de caubói de “Brokeback Mountain”) e daí entrou diretinho pro reino dos céus aqui na terra. Feito o corvo Brandon Lee. The Crow parte II, The Joker parte I.



Todo contido no filme de Ang Lee, Ledger solta a franga como o novo Coringa no novo filme do Batman. Metade do mérito é do maquiador, que deve ter visto alguma foto de Dercy Gonçalves na internet. Bateu a peruca de Javier Bardem. Superou também no quesito maldade.



A outra metade do mérito é a sacada de mastigar a saliva, como se quisesse molhar a cicatriz do seu riso literalmente rasgado. Como se saboreasse por antecipação o gostinho da Maldade. Com “M” maiúsculo.



Verdade seja dita: é uma interpretação de responsa. Tão boa que, metido no corpo nauseabundo do vilão, Ledger tinha mais é que morrer depois: não apenas parecia – era já um defunto vivo. O corpanzil (1,85 metro, me informa o Google), a cacunda, as roupas sujas e esfarrapadas, os cabelos ensebados – tudo que o ator incorporou pro seu personagem insinua que a qualquer momento um pedaço de dedo, braço, ombro, carne, pode se separar do corpo e ir ao chão. Assim: o retorno dos mortos-vivos num leprosário. Asilo Arkham.



Mas, voltemos pra poltrona onde me instalei e onde me mexi e remexi prum lado e pro outro, tentando esquecer que tinha bexiga – e que a danada não estava enchendo cada vez mais. Não por nada, pela caridade! O filme era bom, mas o ar condicionado, a Sukita, os cubinhos de gelo... Um aperreio.



Entre uma cruzada de pernas e outra, comecei a gostar mais de Harry Dent do que do Jokerman. E falo do personagem, não do ator (que atuou no interessante “Na companhia dos homens”, de Neil LaBute). O promotor público de Gotham City. Nosso De Sanctis. Nosso Jambo.



(Feito Macalé & Capinam, também eu nasci em Gotham City. Aos 15 anos. Caça às bruxas nos telhados, morcego na porta principal.)



Gostei mais de outras coisas, também:



– Da voz rouca do Senhor Wayne, quando travestido. Meio esquisita, verdade, mas.



– Da cara de doninha assustada da namorada do Batman. Meio feia, verdade, mas.



– Do bigodinho discreto de Gary Oldman, incorporando à perfeição o Comissário Gordon dos quadrinhos originais.



– Do meio-sorriso de Michael Caine, no auge da sua carreira, mais de cem filmes nas costas, incluindo “O cônsul honorário”, baseado em Graham Greene.



Não, não gostei de Morgan Freeman: assim, assado – Morgan Freeman demais.



(Gostei também do bizarro triângulo amoroso – e não falo de Batman-Rachel-Dent, mas de Batman-Coringa-Duas Caras.)



A verdade é que a gente vai ficando velho e vai perdendo ternura & empolgação: entra numa sala sem saber quase nada do que a maioria da plebe mais imberbe sabe – os bastidores das filmagens, antes mesmo das filmagens; os primeiros cinco minutos, antes mesmo da estréia; o nome do diretor (que eu não sabia e continuo não associando a nada e a ninguém); o nome dos atores (conheço só os com mais de trinta e dois dentes); até o nome do filme – vergonha – tive que perguntar pro fã de carteirinha Alex de Souza. Chama-se “O cavaleiro das trevas”.



(Devo ter a revista em algum lugar, bem guardadinha – mas isto aqui é outra coisa, crianças: é cinemão arrasa-quarteirão e Avid Dollars. É pipoca de ouro, diamante, platina, como uma tela de Salvador Dalí falsificada por Salvador Dalí.)



E não vai ser essa coluna que vai dizer ou desdizer se o filme é bom ou não é bom.



Daí que me resta esvaziar a bexiga nem bem o mais recente filme do Batman termina.



E, enquanto dava as clássicas balançadinhas, nem me lembrava mais como terminou.


sábado, 26 de julho de 2008

Por esse amor eu faria de um tudo, coisas
certas e erradas. Cometeria desatinos. Passaria a semana inteira comendo carne
vermelha. Jogaria latas de cerveja na rua pela janela do carro. Faria o caminho
de Santiago a pé, subiria de joelhos a ladeira da Sé de Olinda, iria ao Juazeiro
pagar as promessas que não fiz ao padre Cícero. Deixaria de beber, de fumar, de
falar do próximo quando distante. Compraria dois automóveis, todos dois pra ti,
mesmo sem tostão. Meu caro Antônio, duzentos anos voam, mas ainda assim é muito
tempo.


Essa moça não promete - cumpre.

E, se eu pudesse, voltaria ontem, entre os dinossauros do parque, pra trocar umas idéias, pra entornar umas quantas cicarelis, pra ajudar a cortar, picotar, rasgar, triturar o retrato na parede da bolsa.

Quem sabe teria sugerido a cura pelo fogo. Chamas em lugar de lágrimas.

Tears for fears.

Ashes to ashes.

Melhor, não. A paixão é um despenhadeiro. Infinito antes da queda.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

água e sal






















só pra lembrar que eu sei que eu deixei isso aqui às moscas. prometo ao menos dar notícias quando souber qual a nova frequência de atualizações. sorry.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O poder dos sonhos [090708]












Na noite de um dia difícil eu fui dormir sem o peso que uma decisão difícil conseguiu tirar, aos trancos, das minhas costas, mas ainda com a dor que o esforço causou. Nos músculos, na alma.



Na manhã seguinte, num repente, eu me dei conta que havia sonhado com meu pai, com quem raramente sonho desde que ele morreu alguns meses atrás.



No sonho ele estava bem, e não havia sinal ou lembrança de que estivesse morto. Estava com todos nós, com sua mulher e filhos – mas já não vivia com nós. Continuava o mesmo velhinho simpático e tranqüilo dos últimos anos e tinha arrumado um trabalho à beira-mar. Estava feliz, embora com a o olhar melancólico das pessoas que pensam demais. De quem olha ao longe e vê o que normalmente não se consegue enxergar quando se olha muito de perto.




Nós estávamos todos contentes, porque ele estava entre nós. Acompanhei-o, ao seu novo trabalho: ele me contou do que fazia, de como passava os dias, tudo muito simples e tranqüilo, como um dia fresco de verão. Céu azul, nuvens brancas, sol cálido. Me contou das pessoas que o visitavam, alguns conhecidos, outros estrangeiros. Me surpreendeu que agora falasse outras línguas, ele, que improvisava todas as línguas do mundo, com ironia e prazer numa babel própria e ruidosa.



No sonho, fiquei observando ele encerrar mais um dia de trabalho, arrumar suas coisas e partir, numa estrada de barro e poeira encarnada. Estava muito mais forte e seguro.




Ao despertar, não me recordei de imediato do sonho. Foi preciso alguns minutos para que ele ocupasse novamente um lugar na minha imaginação – e revi, e senti, o que tinha sonhado.



E percebi que toda a dor e sofrimento que a sua ausência diária me provoca não é nada diante da certeza de que ele estará sempre comigo. Sendo quem sempre foi: o melhor amigo, o melhor companheiro, meu pai.



terça-feira, 8 de julho de 2008

Sobre o perdão

Pra quem passou batido ou não leu, vai uma “Irlandesa” das páginas iniciais da CartaCapital de 27 último. Assinada por Billy Culleton, que noves fora o nome, nasceu na Argentina, é naturalizado brasileiro, jornalista e professor universitário em Santa Catarina.

Em nome da paz

Cidade de Derry, Irlanda do Norte, maio de 1972. Richard Moore, de 10 anos, volta da escola ao lado de três colegas. Os meninos que passam correndo diante de um posto das forças britânicas fazem gestos desafiadores para os soldados. A corrida de Richard é interrompida quando alguém, a partir do posto, atira balas de borracha no rosto do jovem, que cai no chão.

Dias depois, no hospital, o diagnóstico: os tiros deixaram Richard cego. O fato revolta a comunidade, mas a família tenta manter a calma. Os pais o consolam. Falta-lhe, porém, coragem para contar a eles exatamente o que se passara. Richard imagina que tudo voltará à normalidade após lhe tirarem os curativos dos olhos.

O menino fica duas semanas internado. Pouco antes de sua saída, o irmão mais velho o leva para uma caminhada pelos jardins do hospital e, constrangido, informa-lhe sobre o futuro na escuridão. Nos dias subseqüentes, Richard volta à escola e tenta retomar a vida. Passam-se 36 anos. “Nunca ouvi meus pais falarem mal dos soldados responsáveis pelo fato”, conta Richard Moore, sentado na poltrona da sede da ONG Children in Crossfire (Crianças sob Fogo Cruzado), fundada por ele, em 1996, para oferecer apoio a menores vítimas de guerras em todo o mundo.

Hoje, Moore leva uma vida normal, dentro de suas limitações. Formou-se em Administração, casou-se e teve dois filhos. Na década de 1980, recebeu uma indenização do governo britânico. Com a metade do dinheiro comprou uma casa. Com a outra, um pub.

Após fundar a ONG, dedicou-se integralmente ao projeto de apoio às crianças mutiladas. Viajou pelo mundo arrecadando e distribuindo recursos. Mas uma idéia fixa o acompanhava havia mais de 30 anos: quem fora o soldado que atirara nele? Como seria ficar frente a frente com o algoz?

Não lhe restavam mágoas, mas ele sentia a necessidade de passar a limpo o fato que mudou sua vida. Após meses de procura, o soldado – identificado apenas como Charles – foi localizado na Escócia. Moore escreveu-lhe uma carta sobre sua vida ao longo das últimas três décadas. “Perguntei-lhe, sem ressentimentos, se ele se lembrava por que atirara em mim.”

Semanas depois, recebeu a resposta. Em tom frio, Charles justificava o ato em razão de estar cumprindo sua função como soldado da Grã-Bretanha. Não se sentia culpado. Reconhecia, porém, que, se soubesse das conseqüências, não teria atirado. Moore sentiu-se aliviado por ter recebido uma resposta de Charles. Na carta seguinte, pediu um encontro pessoal, que foi aceito. Semanas depois, dirigiu-se à Escócia.

A conversa durou quatro horas e meia. Sentados um diante do outro, relembraram os fatos e falaram de suas vidas. Charles demonstrou franqueza e abertura, mas voltou a justificar o ato e não falou em arrependimento. Moore ouviu seu discurso e buscou o momento adequado para expor o que estava atravessado em sua garganta havia anos: “Eu perdôo você”, disse-lhe. Ambos choraram.

“Perdoar é uma experiência fantástica. Foi a melhor coisa que fiz em minha vida”, garante o irlandês, acrescentando por que o gesto tirara um enorme peso de suas costas. “Imagine isto: a pessoa responsável por tanto sofrimento, que tanto prejudicara a mim e a minha família, estava sentada à minha frente, sentindo o meu perdão.”

Na verdade, explica, não apenas ele perdoava seu agressor. Seus pais também o faziam por meio dele: “Meus pais sofreram mais do que eu, tendo de conviver com um filho cego”.

A partir da visita à Escócia, houve uma grande empatia entre o algoz e a vítima e os encontros começaram a ser mais freqüentes, em Derry ou na Escócia. Atualmente, são como velhos amigos. Encontram-se ao menos duas vezes ao ano. Contam histórias, tomam cerveja e riem juntos. O programa preferido é passear. Quem vê ambos andando juntos, o cego segurando o braço do homem mais velho, recebendo orientação para caminhar pelas ruas e ouvindo atentamente a descrição daquilo que está ao seu redor, jamais conseguiria imaginar a maneira pela qual a parceria se formou. “Perdoar é um presente que a gente dá a si mesmo, independentemente de o outro aceitar”, insiste Moore.

A relação entre o soldado e o “garoto cego” se transformou em um símbolo do processo de reconciliação que vive a Irlanda do Norte. Contra todas as previsões, um ano depois do início da administração conjunta entre católicos e protestantes, é possível sentir que a paz será duradoura.

Em maio de 2007, o país, de 1,7 milhão de habitantes, testemunhou a instalação de um governo que conseguiu o aparentemente impossível: a união de dois grupos inimigos havia séculos e que se enfrentavam violentamente há 40 anos, o Exército Republicano Irlandês (IRA) e o Partido Unionista. Os primeiros lutavam pela união com a República da Irlanda, enquanto os outros queriam a manutenção do domínio britânico na região. Era a guerra secular entre católicos e protestantes, descendentes de irlandeses e de ingleses, respectivamente.

Um acordo de paz estabeleceu que protestantes e católicos deveriam governar juntos. O grupo vitorioso em uma votação democrática indicaria o primeiro-ministro, e o segundo colocado, o vice. Em março do ano passado, a população elegeu seus representantes para o Parlamento. Nas urnas, os protestantes tiveram 55% dos votos e os católicos, 45%. Assim, o pastor protestante Ian Paisley, de 82 anos, assumiu como primeiro-ministro, e o católico Martin McGuinness transformou-se em seu vice. Era o fim de quatro séculos de domínio exclusivo da Grã-Bretanha.

De forma inédita, dois inimigos ferrenhos começavam a governar o país. Paisley, um dos mais radicais defensores do extermínio da população católica irlandesa, administrava o governo juntamente com McGuinness, um dos fundadores do IRA, responsável pela morte de milhares de protestantes britânicos. Algo sem igual na história contemporânea. Era como se, na década passada, os territórios palestinos fossem governados por Ariel Sharon e Yasser Arafat juntos.

Ao contrário de Richard e Charles, Paisley e McGuinness não se sentam à mesma mesa e se limitam a trocar algumas palavras em eventos formais. Seus assessores fazem as negociações necessárias. É difícil esconder a repulsa mútua. [Billy Culleton]

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Baricco na Capela Sistina, escutando Tom Waits



Meu leitor e amigo, Capri, que não é o ilhéu nem o da calça, pediu em comentário de post abaixo a publicação da tradução que fiz de crônica de Alessandro Baricco em sua coluna no italiano La Stampa, meados da década que passou. Não estava nos planos, mas como Capri não pede, eu obedeço com fervor. Com vocês Alessandro Baricco:


"A Capela Sistina, antes de vê-la, você sente. Tipo confeito de hortelã: sente no nariz, e nas orelhas. Você chega através de um corredor que gira e sobe e desce, um corredor estreito e baixo, com as paredes cor de hospital. Todos em fila, arrastando os pés. Quase não existem janelas, o ar é pouco. Inexorável odor de humanidade, herança generosa de centenas de axilas e meias internacionais em peregrinação pia ou em vagabundagem culta. A Capela Sistina, antes de vê-la, você sente: odor de academia de ginástica, de sala de aula do ensino médio no sexto horário, de ônibus no verão. Não que alguém espere coros de querubins na entrada, mas precisam te meter numa espécie de sapateira em forma de corredor?

Quando o nariz se acostuma, explodem as orelhas. Você entra, por uma portinha de nada, e antes de ver qualquer coisa, ouve o rumor uniforme e contínuo de centenas de pessoas imprensadas e acotoveladas que berram baixinho. A acústica da Capela Sistina reconstitui um bíblico e febril estrondo. Estranha impressão. Não tenho grandes experiências no setor, mas você lembra logo de lugares como campos de concentração, ou estádios chilenos, esse tipo de coisa, onde uma fatia da humanidade prepara a ante-sala para qualquer odioso horror. Quando de repente se acendem lúgubres alto-falantes e uma voz grita “Atenção!”, aquilo que você espera é que depois diga “As mulheres à esquerda, os homens à direita”, uma coisa assim. Por sorte, mais moderadamente, pede para fazer silêncio e não tirar fotografias. O barulho diminui, provisoriamente, alguns decibéis. Dando cotoveladas, conquisto um metro quadrado ligeiramente livre. Já que diante daquela confusão é necessário fazer qualquer coisa, ponho os fones de ouvido e ligo o walkman. Baglioni. Não. Annie Lenox. Não. Paolo Conte. Não. Procuro Bruckner, o doce organista que escrevia música para Deus: esqueci de trazer. Resta apenas Tom Waits. Aumento o volume. Levanto os olhos.

Enxaguaram-na, a Capela Sistina. Devolveram-nos o tecnicolor. Tiraram algumas cuecas pudicas e cobriram algumas rachaduras. Parece nova em folha. Eu lembrava o Juízo Final sufocado por uma fuligem negra como o pulmão de um fumante. Dava pra ver pouca coisa, no meio daquele pretume, e talvez o fascínio estivesse exatamente nisso: agora é pleno de meio-tons que são uma maravilha, parece um pouco Laura Ashley, mas ao menos dá pra enxergar, e descobrir um monte de coisas – é como ir ao cinema e por os óculos. O pedaço que eu mais gostava era aquele mais ou menos na metade, onde os corpos salvos e renascidos sobem aos céus e aqueles condenados são empurrados pra baixo, e todos flutuam magicamente no ar exatamente como os astronautas da Nasa, quando nos faziam vê-los na tevê, naquelas naves sem força de gravidade. Tinha sempre um que fazia o palhaço e deixava cair o sanduíche, e o sanduíche flutuava até que alguém o pegava, e todos riam, e devia ser um modo de esquecer que eram como grãos de areia jogados, girando no infinito, solitários como vira-latas. Deve ser culpa de Tom Waits: você deveria pensar em outras coisas, ali, cara a cara com Michelangelo, e com o Juízo Final.

Abaixei Tom Waits, e pensei em outras coisas. Pensei o quão insuportavelmente magnífica é aquela Capela – pensando bem, e sem precisar desviar muito os olhos das cores pastéis. Um monumento obsessivo a um totêmico e ruinoso pesadelo: o pecado. Dali, ninguém sai inocente. Centenas de metros quadrados de imagens te massacram como irresistíveis comerciais empurrando, em promoção, a mais ridícula das mercadorias: o complexo de culpa. Desviando do Juízo Final você termina topando com Adão e Eva, a maçã, a serpente, o castigo. Procure abrigo mais pra lá e você cai no Dilúvio Universal, outro castigo, espetacular, uma limpeza étnica em grande estilo. Até mesmo aquele gesto maravilhoso, Deus e o homem, os dois dedos que apenas se tocam, ícone incomparável, impresso lá em cima, no teto, e para sempre nos olhos de quem o viu, até mesmo ele tem algo de inquietante, parece já um castigo, também, um castigo preventivo – existe algo naquele Deus que nos impede de vê-lo simplesmente bom e pai: tem alguma coisa de animal preparando o bote, traz em si uma inquietude que o perturba. Não é um Deus feliz, aquele.

É um processo terrível, pensando bem: você está ali com a cara pra cima, deixando-se enfeitiçar por toda aquela beleza, além do mais lavada com Omo, e, no entanto, sem se dar conta, um cantinho da sua alma está sendo marcado por uma camada invisível de senso de culpa, que se junta àquelas outras que te espalmaram durante os anos do que se convencionou chamar educação. Tudo para construir, milímetro por milímetro, a catástrofe de uma consciência perenemente em débito, e cronicamente culpada.

Talvez foi apenas porque não tinha sol, e através dos janelões entrava o cinza de um dia de merda. Talvez foi culpa de Tom Waits. De qualquer modo, fugi da Sistina com duas idéias bem simples na cabeça. Primeira: a próxima vez que eu for, vou às oito da manhã, porque aquela multidão é um horror. Segunda: a próxima vez que eu nascer, nasço ateu, e num país onde aqueles que crêem em Deus, crêem num Deus feliz. [Alessandro Baricco]


PROSA
“Qualquer sistema legal moderno teria processado Abraão por maus-tratos contra crianças.”
Richard Dawkins
Deus, um delírio
VERSO
“Eu fiz do Céu azul minha esperança
E dos astros dourados meu tesouro...”
Auta de Souza
“Celeste”

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O primeiro cão [010708]



[Lord Byron, Mary Chaworth e Boatswain, pintados por Ford Madox Brown]




Perto daqui Estão depositados os despojos daquele Que possuía
Beleza sem Vaidade, Força sem Insolência, Coragem sem Ferocidade, E todas as
virtudes do Homem sem seus Vícios. Este elogio, que seria uma Adulação sem
sentido Se escrito fosse sobre Cinzas humanas, É somente um justo tributo à
Memória de BOATSWAIN, um CÃO Que nasceu em Newfoundland em maio de 1803, E
morreu em Newstead, em 18 de novembro de 1808.


Lord Byron


Me deram o primeiro cão quando eu já não precisava dele: a solidão daquele período vagamente obscuro entre a infância e a adolescência cedia espaço às primeiras certezas e afirmações – embora vagas – daquele outro período igualmente ambíguo entre a adolescência e a maturidade.

Daí que batizei-o (batizamos, eu e meu irmão) de Ozzy. Ozzy Osbourne, se é que vocês me entendem. Não? Ozzy (Osbourne) era o vocalista do Black Sabbath. “Paranoid”, “Vol. 4”, “Sabbath Bloody Sabbath”, sacam? Ainda não? Não importa, reza a lenda que Osbourne, na altura do palco feericamente iluminado, abocanhou um morcego com os dentes, em pleno vôo.

Ozzy (o cão) era um dobermann. Preto, raias marrons escuras em pontos estratégicos do seu corpo bem desenhado. Não era, absolutamente, um cão feroz. Brabo. Ou raivoso. Era o cão de um menino que deixava de ser menino – daí que os papéis se inverteram e era ele, o cão, o solitário a precisar de um amigo.

Mas como todo bom companheiro, nunca reclamou. Nunca encheu o saco, nunca latiu chamando atenção, nunca fez aquele cara de cãozinho triste e abandonado, nunca babou clamando carinho.

Foi o cão certo na hora errada. Para ele, para mim.

Quando precisou ser doado – mudança, casa, quintal, apartamento etc – eu lavei as mãos, vergonhosamente, nem ao menos fui despedir-me dele. Disseram que foi para uma fazenda, sítio, granja. Nunca me perguntei, nem a ninguém, se era bem alimentado, bem tratado, bem amado. Um dia, soube que tinha morrido. Dessa vez, nem a mim mesmo perguntei o que eu sentia.

Hoje, nessa manhã tão luminosa e pouco adapta a nostalgias, desejo que tenha ele, ali, em meio às árvores do campo, reencontrado o menino que não fui.


terça-feira, 1 de julho de 2008

No cabaré: A puta e o anarquista


[De Blade Runner]

– O senhor é escritor?

– Eu? Não. Por que pergunta? A senhora gosta de escritores?

– Não, não gosto.

– Por quê? Não são más pessoas.

– São. São más pessoas.

[Roberto Arlt, Luba, in Ricardo Piglia, Nome falso, tradução de Heloisa Jahn, São Paulo: Iluminuras, 1988]

No cabaré: A puta e o anarquista – Momentos depois


[De Blade Runner]

– É melhor que não procuremos razões. O senhor parece, de fato, um escritor. Isso não é incômodo? Os escritores são como o senhor. Primeiro manifestam compaixão, depois se irritam quando a pessoa não se ajoelha diante deles como se fossem Deus. São exigentes.

– Mas como é possível que conheça os escritores? A senhora não lê nada.

– Tem um que costuma vir aqui.

[Roberto Arlt, Luba, in Ricardo Piglia, Nome falso, tradução de Heloisa Jahn, São Paulo: Iluminuras, 1988]

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Arsenic and old lace




Para N.



Lá vem a noite escura beirando silenciosa as cumeeiras do céu. Os nativos se recolhem, em terços, efígies, pelo-sinais. Os aldeões se reúnem diante do aparelho votivo. A luz elétrica grassa pelas torneiras dos apartamentos. Luzes piscam, olhos piscam, a multidão bate palmas diante da façanha do goal keeper. Distante ainda a madrugada, o veneno se apronta para dela bem dispor. Mete camisa de linho, desfaz e refaz o nó da gravata cem vezes até que lhe pareça desigual. Odeia as perfeições, senão. Espana os sapatos de couro negro, amarra com cuidado esmerado o cadarço, abotoa a braguilha. Tem e mantém à mão dois isqueiros baratos. Um verdesmeraldino, o outro fúcsiaberrante. Noutra banda da City, dormita o casal jovem e trigueiro. Fizeram um amor distante, trocaram fluidos arfantes, besuntaram o corpo um do outro de um suor que mais parece d’oiro. Descansam. Os pombinhos. Arrulha daqui, arrulha dacolá, ela é a primeira a levantar-se, pisar descalça as lajotas friinhas do banheiro. Xixi: schhhhhhhhhhhhhhhhhhi. Ele continua a dormir. Uh! Que barulho foi esse? Que barulheira no céu, meninos! Que barulhão ensudercedor! São as trompas, as trombas, as pompas, as pombas, as bombas do apocalipse nau? Yes. Yes. Yes. O barzinho lá nas ribeiras da podridão começa a encher. Poderia dizer, afirmar, sem enfado ou medo: lo-cu-ple-ta-se. O barzinho. Vem entrando pela porta principal, ele, Renatinho, o mais-querido. Camisa florida, gola rulê. Sapatos mocassim, sem meias, mané-gouveia. Cintão de fivela de prata. Déin! Dente de ouro na arcada inferior. Calça de veludo cotelê. Verde-musgo. Muitos dólares no bolso. Regininha e Moniquinha, as gêmeas siamesas já ronronam por ali. Uma meteu o avental, outra esfrega benzinho a baixela de prata. Estão um pouquetito chateadas com Mr. Little Renatô. Transa de dólares que o moço não confiou. Daí o muxoxo com que recebem o belisco no seio – o de Regininha redondo e exuberante, o de Moniquinha altaneiro e igualmente exuberante. Lao Ping prepara as facas. Hoje temos polvo, repararam nas ventosas surreais do bicho? Lao Ping tem sessenta anos. Parece vinte. Um carro parou na esquina. Negro, luzidio, diria-se... como mesmo se diz? – Polido. Isso, grazie, polido. Lá dentro Flora chora. Uma dama e infeliz no casamento. Precisa dizer mais? Precisa. As luvas de Flora combinam com o colar de pérolas verdadeiras. O colar de pérolas verdadeiras combina com a tiara de brilhantes falsos. A tiara de brilhantes falsos combina com os olhos azuis-cristalinos. Seria injustiça dizer que lhe falta uma perna, ainda mais agora que prepara-se para descer, Jorge já abriu a porta e perfilou-se ao lado da macchina, mas, lhe falta uma perna, não vou dizer nem qual, se esquerda ou direita. Mas, caminha como numa passarela de nuvens, Flora. Um longo percurso até a mesa por ela diligentemente reservada um mês atrás. Lao Ping amola as facas. Renatinha chupa a gengiva. Regininha estende o cardápio. Moniquinha observa. Voltando rapidamente para a outra banda da City, vemos o veneno da madrugada acender e tragar com fôlego incrível o vigésimo cigarro do dia. O maço vazio resta no chão. Tem uma lixeira a dois passos. A calçada povoa-se de homens e mulheres dançando como numa coreografia da Broadway. Uau. Os pontos cardiais são quatro – assim, numa outra banda da City o casal de pombinhos já vestiu-se. Sonolento ele, ainda. Espertinha, ainda, ela. Não se deram as mãos quando entraram no ônibus cor-de-prata. E só sentaram-se no mesmo banco porque outro vazio não havia. Dali a pouco pedirão parada, descerão na nove com a quatro, deixarão o tac-toc dos seus saltos na calçada, passarão diante do portãozinho de ferro sempre aberto de Madame Shina, e ele baterá os punhos contra os punhos de Monsieur Dunlop com aquele gestual urbano dos jovens estúpidos. Quando entrarem no apocalipse nau vocês vão ver. Vocês não perdem por esperar.

domingo, 29 de junho de 2008

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Bom dia, Babilônia, bom dia, tristeza, bom dia Vietnã, bom dia sombra


Tem um bocado de tempo que eu não dou bomdia pra canalha e pra turminha legal. A última vez foi em september, fifteenth.

Pois:

O blog, blogueiro, coluna, quinta coluna, enfim, o subscrito, recomenda ao despertar a audição de: Don’t touch my shadow, faixa 5 do Who put the voodoo ‘pon reggae. 1996, Sanctuary Records.

Procurem nas prateleiras empoeiradas, desarrumadas, desconjuntadas, cascavilhem nos sebos, baixem o santo náutico.

Para ouvir, clique aqui.

Lee Scratch Perry carrega a voz de anfetaminas e marijuana, programa eletronicamente o vodu jamaicano, acelera e desacelera, e repete a seu modo o dito de Pessoa em Lisbon revisited: Não me peguem no braço!/ Não gosto que me peguem no braço.

Dub in the jungle pra animar qualquer alma matutina.

Pra somar à academia.

Porque hoje é sexta-feira. E o sol ruge.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Meu reino




Também eu tive o meu reino, minha pasárgada, meu são saruê de devoção fervorosa, minha cocagne e minha cocaigne.

Era um pequeno, minúsculo principado à beira-mar – embora o oceano mais próximo distasse algumas centenas de quilômetros dali, e as ondas eram tão somente labirínticas linhas férreas, o marulhar os apitos compridos dos trens, e a vegetação uma floresta de antenas de TV.

Ficava no alto de um velho palácio, de paredes robustas, de porta dupla de madeira pesada, de escadarias largas e suaves, sem elevador para encurtar o caminho, porque assim era mais saborosa e desejada a chegada.

Lá em cima, vencida uma pequena porta de ferro, abria-se um terraço sem pompa ou circunstância – esquálido, ferruginoso, de pedra. E, no entanto, era ali que o horizonte vinha derramar-se. O céu, literalmente, era o limite.

Girando um ângulo à esquerda, como escondido em silente surpresa, meu reino – como um oásis acolhedor em meio ao deserto.

Meu reino não tinha muralhas, mas um pequeno muro e um portãozinho de ferro com direito a batente e sino de anunciação.

Era ali que, muitas vezes e quase sempre, nos fins de tarde de outono ou em manhãs primaveris, eu sentava-me para receber o sol na cara e nos pés descalços. E sonhava com mares antes navegados, com praias onde mergulhei entre sargaços e estrelas, com a areia alva onde enterrava os pés no abrigo quente das horas.

Cruzado o portão, não se deixava toda esperança, nem alguma ou nenhuma: ali, a esperança era uma certeza, não uma possibilidade. Era real, não uma alegoria. Era prosa e poesia, era fato e fantasia.

Do mesmo tamanho da casa era o jardim. Quando ali cheguei, as plantas estavam secas e sem água. Limpei cada vaso, cada prato plástico sob os vasos, cada planta e arbusto. Livrei-me das folhas secas e da terra esturricada. Alegrei-o com regas fartas seu esplendor. Filtrei o sol com os pingos da vida.

Ali comíamos. Ali bebíamos. Ali vivíamos. Os tomates eram frescos e vermelhos como o fogo. As verduras brilhavam sob o sol. O azeite era farto e abundante. O sal, a pimenta, a noz-moscada, as alcaparras, o vinagre, o manjericão. Os pimentões, verdes e vermelhos. O pão árabe, fresquinho. A rosetta diária sobre a mesa de tábuas gastas e vividas, consumidas pelo tempo que parecia não ter fim.

Uma velha espreguiçadeira para as noites quentes de verão e para as tardes frias ensolaradas.

O jornal dobrado, as folhas bulindo ao vento, espalhando somente as boas novas.

E a casa. De fachada simples como um haicai. Uma porta de vidro. Uma janela de vidro. O telhado de duas águas unindo-se quase ao centro.

Tão minúsculo o seu interior que bastava entrar para que se enxergasse o tudo: uma cama larga e quente de casal, um telefone vermelho de parede, prateleiras com toda espécie de objetos de uma inutilidade importantíssima, uma estante com livros e pastas, um baú para as roupas, uma mesa dobrável – para escrever cartas e acender velas, porque naquele tempo o dia não findava sem uma carta sobre a mesa ou uma vela bruxuleando sombras.

O banheiro mínimo num canto, e a cozinha estreita no outro – seu teto era tão baixo que nas primeiras semanas eu batia com freqüência a testa na trave de madeira. E disso achava graça, porque não havia espaço naquela casa para outro que não fosse o riso e a alegria.

A música sempre ligada, numa rádio com o sintomático nome de “Cidade Futura”, ou no girar contínuo de fitas cassete em profusão.

Mas o melhor da casa era quem nela vivia. Os tempos eram difíceis, o dinheiro escasso, o inverno rigoroso. Depois de uma noite dura de trabalho, com a manhã anunciando-se entre as pontes, eu cruzava a cidade e o frio gélido da madrugada sobre uma moto de baixíssima potência.

Ligeiramente embriagada, semi-aquecida debaixo de um casaco pesado, luvas e gorro de lã, a alma descortinava paralelepípedos e asfalto, sinais e postes de luz. Abria, aos pulos, o portão de madeira do palácio, subia apressada os oito lances de escada, desembocava no aberto do terraço, empurrava sem esforço o portão de ferro, fazendo soar minimamente o sino e entrava sob as colchas onde uma outra alma sonhava.

Juntas, mergulhadas uma na outra, aqueciam os corpos e a certeza do amor.


[desenhos de egon schiele]
PROSA
“Diz a lenda que o tempo adormeceu na hora mais agradável do dia e na estação mais prazerosa do ano”
Manguel e Guadalupi
Dicionário de lugares imaginários
VERSO
“No Céu que mais a sua luz favorece
estive”
Dante Alighieri
“Paraíso”

segunda-feira, 23 de junho de 2008

the city girls' karaoke



When I was seventeen It was a very good year

It was a very good year for small town girls And soft summer nights

We'd hide from the lights On the village green When I was seventeen

When I was twenty-one It was a very good year

It was a very good year for city girls Who lived up the stair

With all that perfumed hair And it came undone When I was twenty-one

When I was thirty-five It was a very good year

It was a very good year for blue-blooded girls Of independent means

We'd ride in limousines Their chauffeurs would drive When I was thirty-five

But now the days are short

I'm in the autumn of the year And now I think of my life as vintage wine

From fine old kegs From the brim to the dregs And it poured sweet and clear

It was a very good year

It was a mess of good years

sábado, 21 de junho de 2008

Vladimir


[Napoleão]


Dândis
são
bacanas



[Volonté, Adriana Calcanhoto, proemas ou o caminho das últimas estrelas, Natal, 2004]


Estragon


[Volonté]



palavra
tronco
e membros.


[Napoleão de Paiva, corpo humano, Apenas chegaram, Alexandria: Barriguda, 1999]

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Francisco Ivan’s Day [180608]


[JJ fotografado por Man Ray]


[e invertido bestamente por midc]




O professor, doutor, Francisco Ivan, apeia de um automóvel imaginário, entra no saguão da Biblioteca Central da cinqüentenária Universidade Federal do Ryo Grande e fala com um, dois, que o saúdam.


A Biblioteca Central tem o nome de Zila Mamede – gostaria de dizer, encimando o frontispício, e que um belo busto da poeta coroa o ingresso. O nome, com certeza está lá, na fachada de linhas baixas e modernas do edifício, bem ao gosto (latino-) americano. Desconheço, invés, o busto.


Mas a noite não é da poeta paraibana afogada entre o Putigy e o Atlântico Sul. A noite é de James Joyce, o irlandês, o dublinense por excelência. O homem que escreveu o “Ulysses” e a ele associou seu nome, quase deixando o grego Homero nas sombras.


Desminto-me: a noite é de Francisco Ivan. Professor. Doutor. Poeta. E puxador do samba do irlandês maluco que é a obra máxima da literatura mundial.


Chico Ivan parece recém-egresso de uma sacristia. A camisa branca, lavada, engomada, não exibe um botão que não esteja dentro da casa correspondente. Na altura dos punhos. Vizinho ao colarinho.


É um tímido. Daqueles que, de tanto lutar com a timidez, parece manter vivo o jeito acanhado que finge ainda possuir.


Está muito cioso do papel que cumpre. De sacristão do papa da literatura acadêmica. Mas Joyce está morto, e Chico Ivan: bem vivo. Para a edição do Bloomsday 2008, foi convidado o poeta Décio Pignatari, uma espécie de bispo dos joyceanos, dos joyceófilos, dos quetais. Sua eminência concreta, o poeta, passou mal, os médicos desaconselharam a viagem ao Ryo Grande.


Chico Ivan viu-se obrigado a ocupar o posto de Pignatari na conferência. Nem por isso: enquanto a vice-reitora cumpre o papel que o cargo exige, Chico Ivan concentra-se. Percorre as palavras que daqui a pouco proferirá. Fecha os olhos, sonha com Joyce e com suas personagens. Espia, pela enésima vez, uma página de sua bíblia, a ponta do indicador relê o que lhe interessa, e retorna ao rosto, pensativo.


É quase uma pré-palestra silenciosa, plena de ritos d’alma.


Quando começa a falar, está de bom humor. Como um peixe dentro d’água. Sabe que metade da platéia, ao menos, é formada por discípulos de sua religião. Outra parte é constituída por pares que o respeitam. Quase, quase, incorpora o showman que de fato é.


Começa chutando a barraca do provincianismo, aquele, que o critica por celebrar autor estrangeiro. Chico Ivan tem sede do universal. Seu lugar é no vaticano e não na igrejinha paroquial. Embora saiba que, para fazer rir a platéia, deve abusar de expressões tipicamente nordestinas: a Igreja moderna é um “canjerê”; o barroco Bernini deveria descer dos céus e dar uma “pisa” naqueles que insistem em macular o Vaticano com telões de plasma e cadeiras de plástico; seria ótimo ler o “Ulysses” (e suas infinitas “putarias”) numa rede – mas, não dá, não dá. É uma enciclopédia que exige outras enciclopédias para a sua leitura, uma bíblia que pede missa em latim, turíbulo, incenso.


Sem traço de pudor ou sombra de vergonha, cita trechos originais do livro, o sotaque distante léguas de Dublin.


Sacro, dessacraliza a própria crença: quando agradece, agradece aos deuses, no plural.


Talvez seja um dos únicos conferencistas que ousa não citar Cascudo, no púlpito.


É então, no auditório-catedral, iluminados pela fluorescência das luzes, que percebemos: quando Chico Ivan fala de Joyce, está falando de si mesmo.


terça-feira, 17 de junho de 2008

A manhã desperta [120608]




Do janelão, assisto o dia se espreguiçar. Nuvens, muitas nuvens, mas nenhum sinal de chuva. Nem um tico de vento – também pudera: os prédios de concreto e pastilhas cerâmicas não balançam. E esses prédios e esse concreto e essas pastilhas estão cada vez mais monopolizando a paisagem.

Eu sei, porque a janela é o meu termômetro da construção civil. A cada semana perco um pouquinho mais do cinturão de morros verdejantes, que se estendia, lânguido, de uma ponta a outra a perder de vista. Um mastodonte estreitou meu ângulo de visão: é como se tivessem trocado, à minha revelia, meu televisor wide screen por um daqueles aparelhos minúsculos e portáteis (coincidentemente semelhante àquele que o porteiro do novo prédio usará em seu cubículo blindado).

Impressiona como um prédio em construção assemelha-se a um prédio em ruínas. Uma carcaça de tijolos vermelhos, ferro e concreto cinza – e um monte de buracos onde as janelas não chegaram. O que lhes empresta um ar de boca cariada. Ou banguela.

Penso em nós, humanos: a distância física entre um feto e um ancião é enorme, tão grande quanto a vida que será vivida e preenchida no percurso.

Já um prédio revela em seu nascimento a sua própria morte e ruína. Num futuro distante que inevitavelmente chegará o quanto antes.

Um prédio em construção é como um monstro revelado. Um vampiro no espelho. Uma velha senhora sem maquiagem e sem jóias (falo daquelas senhoras que não vivem sem uma e outras coisas). É como aquela mulher de Shangri-La, o lugar mítico do filme “Horizonte perdido”, que, por amor, deixa o seu Paraíso natal para aventurar-se no mundo moderno: nem bem se distanciam, o amante descobre que a jovem enamorada é na verdade uma velhinha decrépita e enrugada. Shangri-La a fazia moça, fresca e ardente.

Sem Shangri-La, a vida se apressa em decompor-se. As células degeneram, as rugas multiplicam-se, os músculos enfartam. As pastilhas começam a cair, a ferrugem começa a corroer o osso cinza do concreto.

Mas, não se preocupem, senhoras e senhores de meia-idade: os pássaros ainda cantam, aqui, ali, acolá, não em wide screen, mas em dolby surround. Cantam e festejam a manhã, que se levantou bem cedinho, bem contente e disposta a iluminar este canto do planeta, esquina do continente, trampolim da vitória.

Daqui a pouco chegarão os operários – mas aí o sol estará mais alto e o alborecer será apenas uma lembrança de sonho.

domingo, 15 de junho de 2008

J. P. Barnum



Acabei de ler Seta, de Alessandro Baricco, vigésima edição na Biblioteca Universale Rizzoli Scrittori Contemporanei, a primeira edição se deu em 1996.

Acabei é modo de dizer. Quando acabei, era claro o dia. Agora, o céu tem a cor das asas da graúna, é um poço escuro e profundo. Se nele me debruçar fatalmente serei engolido.

Melhor não arriscar a romper o silêncio que me devora.

Melhor dar um tempo e consultar o Google em busca de luz.

Não, não é melhor. É assustador. Se ir ao Google fosse algo físico através de um espaço real, a esta hora eu estaria com as costas apoiadas numa porta apenas fechada, o coração aos pulos, a alma prestes a ser regurgitada.


Embaixo, o endereço de um blog do Estadão.

Foi um inquietador jogo de espelhos escuros. Apesar de eu ter escrito “acabei” e o sujeito virtual “acabo”. Eu nunca diria que Baricco tem cinqüenta anos, nem cem, nem dez, nem vinte e três. Nem que é um dos principais escritores do seu país ou de país algum.

Nada contra quem escreveu, nem o quê escreveu, muito menos como escreveu. Dou uma olhadinha, chama-se Felipe Machado, e logo abaixo do seu nome está escrito, em maiúsculas: PALAVRA DE HOMEM.

Nossa.

Acho que conheço esse cara de algum lugar.

Não tanto pela foto (a boa-pinta dos caras boa-pintas), senão pelo nome. Globo? Circo Voador?

De repente, parece que fiquei com ciúme do sujeito.

Não que eu queira me justificar perante o júri – até porque o único cara que mereceu escrever aos seus membros chama-se Humbert Humbert –, eu tinha ido ao buscador apenas pra checar se o livro tinha sido traduzido no Brasil. (Foi. Felipão Palavra de Homem me garante.)

Aí alguém não apenas leu o livro, mas escreveu sobre ele. Pior, na contemporaneidade e sincronicidade eterna da internet, “acabou” de ler. Como eu.

Não: ele acaba de ler. Eu acabei.

Se chamarem o professor Pasquale Cipro Neto é capaz de dar-me o torto e a razão ao Machado, melhor deixar quieto.

E eu que tinha todo um roteiro em mente, um plano de fuga bem traçado para escrever o que eu senti, apenas fechado o livrinho, 100 páginas na edição de bolso, presente da minha filha, recém-desembarcada em Cidade dos Reis.

Até o título estava desenhado – tudo aí em cima, escrito, não tirei nada do lugar, não alterei a cena do crime, podem trazer o luminol, derramem o líquido no meu, no seu, no computador, na rede mundial de computadores. (Ah, quanto eu não daria para ser um grande ator e, escondendo o rosto nas mãos – eu deveria ter mãos calosas e grandes – derramaria um choro trágico dos filmes de detective americanos.)

O título, bem, o título, preciso me recompor, faz de conta que me alço (e se me alço não é de uma sala moderna, mas de uma biblioteca vitoriana, com pé direito altíssimo e paredes de livros desde o rodapé), vou até a cozinha (também ampla, onde uma negra gorda de avental e lenço na cabeça me oferece, sim sinhô, chá) e, pois, sorvo meu chá, as pernas cruzadas, o bico da bota apontando o candelabro de cristal, o dedo mindinho empinado onde desponta um anel.

Só uma dúvida: nas plantation americanas, as casas-grandes tinham candelabro na cozinha?

Ah, ah, o título pois: P. T. Barnum (desta vez não vou ao Google). Barnum era o carinha que revolucionou o circo, o grande espetáculo urbano.

Tenho um livro de Baricco – Barnum, cronache dal grande show – presente, talvez, de Alberto Criscuolo. (As pessoas vivem me dando livros de Baricco, minha ex-mulher me trouxe, anos atrás, Senza sangue.)

Na nota do autor que abre o livro – ok, ok, longa pausa e parênteses para explicação necessária:

Esta edição que eu tenho, de Barnum, é de 1999. A primeira é de 1995. Os livros na Itália (também em outros países, mas falo do que conheço relativamente bem) são sempre relançados em edições econômicas, mais ou menos um terço do preço original. Já em 95 a Feltrinelli lançava Barnum pela sua Universale Economica – pois, em 99, quatro anos depois o Barnum da mesma coleção baratinha já estava em sua 12ª edição. Um belo e invejável exemplo para os autores brasileiros.

Retomo:

Na nota do autor que abre o livro, Baricco explica que desde que o diretor do jornal La Stampa o convidou para uma crônica semanal, ele pensou no título: “Barnum como aquele do circo. Porque tudo aquilo que eu via, ao meu redor, me parecia um grande espetáculo de palhaços, domadores e acrobatas; e eu gostei da idéia de tentar descrevê-lo, um pouco a cada vez, assim como vinha.”

Continuo depois.

É domingo. Vou comer uma pizza. No barracão. Com os palhaços, os domadores e os acrobatas.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

ESPECIAL DIA DOS NAMORADOS | Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas





-xxx- 13 fevereiro 1998 (Sexta-feira 13)
-xxx-minha:
Começo te perguntando:
Você ainda é minha?
E explico a pergunta, são 7 dias que você não me escreve – ou pelo menos que não recebo nenhuma mensagem da tua parte. Nem de você, nem de -xxx- .
Porra! Não quero reclamar, mas incomoda pensar que ‘sofro’ mais que você com a nossa ‘S E P A R A Ç Ã O’, ausência de contatos, olho no olho, boca na boca, meu pau na tua bucetinha.
E a mente é malvada, nos sacaneia, nos traz dúvidas e ciúmes, nos faz interpretar sinais abstratos como fatos concretos: ‘Não dormi ontem, aconteceu alguma coisa?’
Você me diz que depois de tudo que vivemos como seria possível que qualquer coisa mudasse, que um se esquecesse do outro?
Mas é exatamente por isso que me incomoda não estar com você.
E sentir ainda mais a falta de notícias.
Ainda te amo pra sempre
-xxx-

ESPECIAL DIA DOS NAMORADOS | Happy together




ELA SABIA QUE ELE NÃO ERA CONFIÁVEL.
Podem chamar ciúme, podem ajuntar um doentio na bagagem da ênfase, podem esculhambar à vontade. E
la sabe.
Quando o conheceu, era apenas um menininho bobo, recém-descabaçado, incerto ainda em encontrar um modo claro de se comportar no mundo.
Ela não lembra quando – nem por que – mas um dia ele começou a ser importante pra ela. Tornou-se alguém em quem depositar atenção, carinho, e sexo.
Ela não costumava usava sutiã. Ele escorria suas mãos entre os botões que abriam-se como desabrochando. Com as palmas e as fissuras das palmas – a linha da vida, a linha da cabeça, a linha do coração – abocanhava o volume pleno dos seios. Só muito depois ela descobriria ser aquilo tudo incomparável.
No começo ela apenas se deixava acariciar. Uma entrega anônima. Não importava quem, importava o que faziam com ela. A maioria não sabia fazer.
Logo começou a sentir dolorosamente a ausência daquelas mãos, da boca, dele inteirinho à sua frente, para seu uso e abuso. Para que dela fizesse uso, e abuso.
Ela então percebeu que o que ele significava pra ela poderia facilmente significar pra outras, também.
Para ela não tinha aquele papo do “monstro verde do ciúme”, de tapete de unhas, de vidros triturados misturados à fome azul.
Tudo que ela fazia ou conseguia fazer era jogar-se sob o chuveiro, vestida como estava, para aplacar um calorão que viva a consumia.
Uma, duas, três, quatro, mil vezes ele a deixou. Sem explicação. Ou com uma explicação implacável.
Uma duas três quatro mil vezes ela o deixou.
Sendo ela a explicação era a mesma:
– Quero viver minha vida.
E ela realmente queria, queria também outros homens, embora quando com eles, era nele em quem pensava, era dele que sentia falta.
Então chegou o dia. Quando a palavra dele pareceu ser a última. Quando ele pouco realmente parecia importar-se.
Ela saiu sozinha. Esteve em todos os lugares que alguém como ela poderia estar. Como ele.
Ela bebeu e sorriu e trocou palavras e se fez de bonita e não se fez de rogada e jogou o longo cabelo para lá e para cá e arregaçou a boca pintada de batom e mostrou os dentes e passou a língua pelo céu da boca com força e deu de ombros. E procurou-o.
Ela passou a noite procurando-o. E na medida em que não o encontrava ficava cada vez menos risonha, menos bêbada, mais apreensiva.
Em todos os bares onde eles costumavam ir, foi.
Correu a cidade de cima abaixo, de norte a sul. De sul a norte. Das duas uma: ou ele estava em casa dormindo ou boa coisa não estava fazendo.
Quando a primeira embriaguez sumiu, ela voltou a beber, tanto até tornar-se romântica. E, sendo romântica, caiu na ingenuidade dos tolos, um poço raso e escuro onde boiavam outras mulheres como ela. Tinha um bocado de gente conhecida ali. Algumas ainda tentavam escalar a parede arredondada e lisa. Outras jaziam, de bruços, de costas. Aquela ali tinha já o corpo inchado e olheiras roxas.
Comprou uma garrafa de vinho, teve o cuidado de pegar o saca-rolha em casa, retocou o batom, deu uma ajeitada nos cabelos, voltou a arrumá-los melhor, olhou-se no espelho, reconheceu o orgulho, não viu nenhuma sombra de indecisão. Sem ela foi até a casa dele. Do outro lado da cidade.
A manhã se anunciava em nuvens frias e coloridas.
Os pardais já preparavam bico e briga.
Ela tocou a campainha.
Lá dentro da casa silenciosa a caixinha branco-gelo fez:
– Dííín, Dôôôn.
Viu o carro estacionado na garagem. Insistiu.
Quando ele saiu, ela ainda teve dúvidas. Ele sabia disfarçar.
Ele foi frio, sério, fingiu sono. Até que soube disfarçar bem.
Ela quase caiu na sua conversa encenada. Mas, não, não. Não ela: ela sabia. Ela farejou. No ar.
– Tem alguém aí?
Ele respondeu que não. Ele sabia fingir muito, muito bem.
Ela não precisou pôr-se nas pontas dos pés e tremelicar as narinas como um animalzinho assustado.
– Posso entrar?
Ele hesitou, não gaguejou, apenas balançou o corpo sutilmente para um lado e para o outro. O filho da mãe jogava muito bem.
Ela não esperou mais, afastou-o do seu caminho e foi entrando como se seus pés pisassem em brasas. Atravessou terraço, hall, sala, não percebeu nada estranho, continuou pelo corredor, as pernas cada vez mais pesadas, desejou que não tivesse fim, o corredor que parecia mesmo infinito, desejou, ardeu, rogou aos céus que nunca chegasse ao quarto iluminado.
Mas ela chegou ao quarto iluminado.
Primeiro viu os pés. Tudo dobrado, pés, pernas, coxas, bunda. Ainda teve tempo de sentir uma inveja saudável, ela tinha de reconhecer, quase dava os parabéns à moça, era preciso ser justa na vida.
De algum ponto minúsculo do estômago partiu uma fagulha que foi subindo pelas paredes das vísceras, primeiro num fogaréu intenso, depois numa erupção de lava viva. Dizer que isso lhe queimou os olhos seria redundante.
Por isso não lembra como voltou sobre os próprios passos, como se tivesse deixado pegadas visíveis sobre o piso, não lembra nem como passou por ele.
Lembra apenas da garrafa de vinho quebrada na calçada, da mancha escura derramada que bem poderia ser sangue, mas que não era sangue.
Isso antes de implorar ao safado que deixasse a moça da bunda saudável ir embora e ficasse com ela. Só com ela.

ESPECIAL DIA DOS NAMORADOS | Adivinhe quem vem para jantar




Então ela me convida para jantar.

Não. Não fazemos amor.

Não acendemos velas.

Não nos vestimos a rigor, com o rigor dos amantes em deliciosa expectativa.

Eu ajudo a levar os pratos. Eu abro a gaveta da cozinha com a intimidade que me foi concedida outrora.

Nos sentamos quase lado a lado. Porque frente a frente nos olharíamos nos olhos. Porque lado a lado nos tocaríamos as mãos.

Não é preciso deixar deslizar o guardanapo de linho bordado ao chão.

Não é preciso baixar as luzes.

Aumentar a música.

Alimentar o cão e o pássaro trancados na área de serviço.

Somos apenas amigos.

E como bons amigos nos despedimos.

Prometendo um reencontro.

Da próxima, como a sobremesa, juro.

terça-feira, 10 de junho de 2008

UM DISCO: Watch, Manfred Mann’s Earth Band. 1978, Bronze Records Ltd.



Primeiro, a capa, claro.

A imagem do homem de paletó amarelo decolando numa pista de aeroporto contra um céu nublado é, para dizer o mínimo, inesquecível.

Depois, o conteúdo. O que se ouve.

Sete músicas, quatro pro lado A, três pro lado B, e um buraco no meio – ouvir Watch faz mais sentido em vinil.

É óbvio que o hit tá lá – Davy’s On The Road Again, primeira faixa do lado B – mas o todo é bem homogêneo e vale aquela expressão de matemática banal, “maior que a soma das partes”; todas as faixas têm um quê de classicismo, como se fizessem parte de um best of de B-sides e não de um LP da discografia oficial (gravado em 77 e lançado no ano seguinte, Watch é o antepenúltimo da Earth Band).

O lado A é mais prog. O B mais rock. Ambos têm o mérito de soar fácil, como uma banda um pouquinho mais pretensiosa ensaiando no quarto dos pais. O vocal de Chris Hamlet Thompson impera, ao lado dos synths do próprio Manfred e das guitarras de Dave Flett.

Se existe um equivalente sonoro para a expressão déja vu é este – coincidentemente intitulado – Watch. Se no disco anterior – opção preferencial dos fãs mais empedernidos – o sul-africano Mann e sua banda proclamavam o Roaring Silence, o som e a fúria, a partir da capa de uma orelha munida de boca e dentes, em Watch eles parecem pedir para seu público que, sit down, relax, apenas assistam. E se deixem levar. Decolar, alçar vôo.

A verdade é que basta escutar uma primeira vez para ter a sensação de sempre ter ouvido essas melodias, os riffs, os solos. Não é amor, é simpatia à primeira audição.

Os fãs do Marillion de início de carreira vão ser obrigados a reconhecer que Fish e companhia beberam da fonte de Watch, que, como original, é muito mais cru (confira Circles, Martha’s Madman).

Os efeitos na voz de Chris Tompson por sua vez bebem na fonte do soul com destilados psicodélicos como aperitivo.

A banda da terra de Manfred nos leva de Chicago pra Califórnia num piscar de olhos, ou num deslizar da agulha. O baixo de Pat King dá fisgadas, a bateria de Chris Slade – básica, eficiente – faz o dever de casa direitinho, a guitarra de Flett abocanha a isca jogada pelos keyboards do Sr. Manfredo. Tudo é costurado com precisão hipnótica, e a haute coture atinge seu máximo em Chicago Institute, tão simplezinha, tão pegajosa nos ouvidos que dá gosto de ouvir e reouvir e ouvir de novo. Déjà vu. Déja ecute. Mas nem precisa. California, a faixa seguinte é sua extensão – natural, original e diferente.

Um disco que nos faz recordar a época em que vivíamos na Califórnia – com menos flores no cabelo e menos sol na cara – mesmo sem nunca ter estado lá.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Azul-grego



[Shakespeare em companhia: James & Sylvia – do sítio the modern word]

O bicho tá pegando lá pelas bandas do substantivo singular e plural de Tácito Costa: cada um que puxa o tijolão do Senhor James Joyce pra si.

Desse jeito, vão terminar rasgando o livro.

E Tácito Costa, com a paciência de um monge recolhido a um mosteiro medieval beneditino, ainda está na 350ª página. Por aí.

A edição original tinha 732 páginas – “e uma média de um a seis erros tipográficos por página”, segundo a editora, a norte-americana Sylvia Woodbridge Beach.

No verão parisiense de 1920, Sylvia conheceu James, Beach conheceu Joyce – nada bíblico, enfim: “Apertamos as mãos; quer dizer, ele pôs sua mão mole e lânguida na minha patinha dura – se é que se pode chamar isso de um aperto de mãos.”

Pouco depois, a Shakespeare & Company, livraria de Beach, Sylvia, anunciava a publicação de Ulisses “na íntegra, tal como escrito”.

Não seria nada fácil.

A primeira dificuldade foi encontrar o papel certo e a cor certa, desejada por Joyce – azul-grego.
A segunda, uma boa datilógrafa: Joyce escreveu todo o Ulisses à mão. Só para o episódio de Circe, a feiticeira, foram necessárias mais de 10 – Beach: “A oitava, contou-me Joyce, ameaçara, em seu desespero, atirar-se da janela. Quanto à nona, tocara a sua campainha e, quando ele abriu a porta, atirou as páginas que estavam prontas no chão e saiu correndo pela rua, desaparecendo para sempre.”

A 10ª foi a irmã de Sylvia, Cyprian, que precisou viajar e abandonou a empreitada.

A 11ª foi uma amiga de Sylvia, Raymonde Linossier, que precisou desistir.

A 12ª, uma amiga de Raymonde, então, assumiu a máquina datilográfica, mas o seu marido, “após passar os olhos pelo texto, atirara-o ao fogo.”

Em 2 de fevereiro de 1922, Sylvia Beach entregava a James Joyce o primeiro exemplar de Ulisses. Era o 40ª aniversário do irlandês.

Oitenta e seis anos depois, na Cidade dos Reis, alguém começa a ler o livro e não pode nem achar o calhamaço chato. Tácito: “A perenidade de uma obra de arte depende de muitos fatores. E o fato dela estar inscrita no cânone e ter sobrevivido a milênios não impede que um ou outro leitor a ache chata. Isso não significa que ela não tem importância ou seja uma grande obra. Onde está escrito que todos temos de achar a mesma coisa sobre um determinado livro ou obra de arte? Eu não abro mão de ter minhas próprias opiniões, mesmo que elas contrariem seja quem for.”

Do lado de cá, eu nem tentei abrir o livro.

O que sei e contei aí em cima, apreendi de Shakespeare & Company: uma livraria na Paris do entre-guerras, de Sylvia Beach, tradução de Cristiana Serra, Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2004.

Comparado ao Ulisses, quase uma revista Caras, mas bem bom de ler.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A farra do boi

“No matadouro de João Câmara, assistimos às mortes mais brutais dos bois. O animal era puxado por uma corda por um adolescente, que lhe cobria os olhos com um pano e outro marretava a cabeça do animal, errando várias vezes, fazendo o animal gritar de dor.” – Relatório do Ministério do Trabalho denunciando trabalho infantil em matadouros do Rio Grande do Norte, hoje na Folha, para assinantes.


“Conduzida ao pátio, e não muito distante da porteira, um dos matadores dá-lhe com o olho do machado uma pancada violenta no encaixe da cabeça apanhando o cabelo louro, na expressão sertaneja. A rês cai incontinente sobre a cama de ramos verdes de antemão preparada. Era então sangrada com uma comprida e afiada faca de ponta na veia-mestra [...]. O sangue espirra e, pouco a pouco, a seringada vai diminuindo e também vão diminuindo os estrebuchamentos agoniados até que a vítima revira os olhos e morre. É este um drama muito triste e talvez mais triste ainda é assistir as lamentações desesperadas dos sobreviventes no lugar da matança. A rês que primeiro, e à distância, pressentir o cheiro do sangue derramado, aproxima-se entristecida. O passo é ainda vagaroso, mas à proporção que o a distância vai encurtando, começa a trotear em direção ao curral. O primeiro urro lamentoso ecoa nos ares para perder-se na distância das serras, cujo eco lhe aumenta a melancolia. Como por encanto surgem de toda parte outras reses que, inteiriçadas, as cabeças voltadas para um dos lados num esforço que lhes repuxa a parte lisa do queixo, começam o coro penoso. Os mugidos aumentam num crescendo mais e mais angustioso, a que não faltam nem mesmo as lágrimas como evidência de dor, saudade, amargura e revolta. No grupo, formado ao redor daquela sepultura, tem-se a impressão de que se interrogam diante do mistério do sangue derramado.” – Eloy de Souza em Memórias, Natal: Fundação José Augusto, 1975

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Rudy & Francis talking


– Os pecados mortais são sete.
– Mortais? Que quer dizer com mortais?
– Quero dizer diários. De todos os dias.
– Na minha opinião só há um pecado.
– Preconceito.
– Ah, claro. Preconceito. É.
– E inveja.
– Inveja. É, sim. É um deles.
– E luxúria.
– Luxúria, certo. Desse eu sempre gostei.
– Covardia.
– Não sei o que você quer dizer. Não conheço a palavra.
– Covardia.
– Não gosto da palavra covarde. Que foi que você disse a respeito de covarde?
– Covarde. O sujeito que se encolhe. Sabe o que é um covarde? O que foge.
– Não, essa palavra eu não conheço. Francis não é covarde. Luta com qualquer um. Escute, sabe do que eu gosto?
– De que é que você gosta?
– Honestidade.
– Esse é um deles.


[William Kennedy, Vernônia, tradução de Sonia Botelho, Rio: Francisco Alves, 1986]

terça-feira, 3 de junho de 2008

A última loja de discos [280408]



“Prostituta não poderia se apaixonar – mas, as coisas raras eu levo pra casa.” – quem fala é Antônio Carlos, há uns 15 anos proprietário da Discomania, vizinhanças do Beco da Lama, downtown potyguar. As “coisas raras”, a que se refere, são discos, discos de vinil.

É a última loja de discos da cidade, e, paradoxalmente, conseguiu sobreviveu até mesmo à Velvet, que comercializava quase que exclusivamente CDs e tinha um público bem mais jovial e antenado com os últimos lançamentos. Antônio Carlos também os vende, os disquinhos pequenos, em embalagem acrílica. Embora, discretamente os desdenhe, sutilmente os despreze. O compact-disc não é um inimigo a ser combatido – são os long-plays que precisam ser defendidos.

Seu discurso a favor do vinil e da própria atividade tem um viés político, quase de guerrilha, permeando um raciocínio objetivo: “Nosso negócio tem duas características – uma, comercial; a segunda, de prestação de serviços. Resistir à ofensiva do mercado fonográfico que impôs o CD e resgatar a boa música são os nossos objetivos.”

E o que Antônio Carlos entende por boa música? Principalmente a discografia das décadas de 70 e 60, incluindo aí a MPB, embora os discos da época não alcancem boa cotação – “o que eleva o preço de um LP antigo é a tiragem original: como nos anos 70 e 80 as tiragens acompanhavam a demanda alta, é fácil encontrar a discografia dessa época em qualquer sebo”, explica.

Diante da pergunta qual o disco mais caro que tem na loja, se atrapalha um pouco, até confessar que o bolachão não está exatamente na loja, mas em casa – é quando faz o paralelo com as putas apaixonadas, que beijam na boca e tudo mais: teoricamente o disco está à venda, mas o mantém na segurança do lar, para não cair em tentação. Não cita nomes, talvez com medo que o sobrescrito lance mão de uma oferta, mas revela um que, nunca, jamais, em tempo algum, venderia: o primeiro de Frank Zappa. Em resumo, em casa guarda cerca de 2,5 mil discos, dos quais mais da metade – 1,5 mil – é “inegociável”.

Desconversa, desconversa, e mostra alguns, disponíveis ao escambo por reais: o único disco da banda pernambucana Ave Sangria (R$ 100) e o “Sertania”, de Ernst Widmer e Elomar (R$ 150). Já passaram pelas suas mãos o primeiro de Roberto Carlos (R$ 2 mil), um Renato & seus Blue Caps (R$ 500) e o único LP do grupo carioca Módulo Mil (R$ 400). E, claro, o top dos tops das raridades: o “Paêbirú” de Lula Côrtes e Zé Ramalho – vendeu por R$ 600, ano passado, mas hoje é cotado em cerca de R$ 2 mil e há quem afirme ter sido vendido pelo dobro do preço. No Brasil ou no exterior.

Bruno, 17 anos, morador das Quintas, pega mais leve e é um exemplo mais próximo do dia-a-dia da Discomania: depois de horas fuçando nas prateleiras – o maior prazer para quem curte long-plays – leva pra casa o “Houses of the holy”, do Led Zeppelin. Por R$ 25. Diz que trocou um CD player por um toca-discos com um amigo. Tem MP3 mas segue, vez ou outra, comprando vinis – embora se considere, ele mesmo, uma rara exceção entre os amigos.

Antônio Carlos balança a cabeça: o dado contraria sua tese, a de que jovens como Bruno cada vez mais curtem as bolachas pretas, especialmente aquelas de grupos de rock progressivo e hard rock, de uma época em que não eram nem nascidos. Mas reconhece que há uma tendência geral à elitização e à maturidade, com significativa parte do público-consumidor formado por colecionadores.

As vendas também podem acompanhar a alta-estação, inclusive aquela tipicamente turística: “Há alguns anos, uma turma de japoneses fez um arrastão de [discos de] Bossa Nova na cidade: enchiam caixas e mais caixas, que eram despachadas de navio.”

Os altos e baixos do negócio não o desanimam – tem dois empregos públicos que garantem as vacas magras, e a Discomania, no final das contas, não lhe traz prejuízo, aliás, é um complemento na renda. Tampouco a internet o seduz. Chegou a vender alguns discos no mercado virtual, mas o que lhe interessa mesmo é a loja física, onde pode “bater papo, trocar idéias e negociar vinis”.

É realmente a última loja de discos em Natal, resquício indireto de uma época onde existiam lojas que vendiam unicamente discos. “Hoje você encontra uma seção de discos dentro de uma grande loja ou supermercado, mas não uma loja exclusiva.” É o próprio Antônio Carlos quem cita outros colecionadores, alguns que ainda vendem discos, mais nenhum com negócio físico: César “Pace”, “Black” Moraes, Régis “Hendrix”, Nilson “Eloy”. Os apelidos dispensam explicação. E Tony “Zappa”, adivinhem quem é? O próprio Antônio Carlos – que não vê a hora de aposentar-se para dedicar-se em tempo integral à loja.

Ivete, a esposa e sócia, diariamente na loja, ao ouvir – talvez pela centésima vez – o projeto, levanta uma sobrancelha, baixa os olhos, em silêncio. Uma sombra de dúvida parece passar pela sua cabeça.

Mas logo se vai. Já entendeu que o que move o marido não é apenas um negócio: é antes de tudo uma paixão.


PROSA
“Este não é um emprego para os selvagemente ambiciosos.”
Nick Hornby
Alta fidelidade
VERSO
“Apaches, punks, existencialistas, hippies, beatniks de todos os tempos
Uni-vos!”
Caetano Veloso
“Ele me deu um beijo na boca”

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Inventário


Como herança materna, me restou uma loucura seca, árida como paisagem vazia, pontuada de sacos plásticos de supermercado tramelados no mato rasteiro.

Como herança paterna, findei-me numa placidez de boi, inconsciente da vereda que o tange do pasto ao matadouro, sem escalas.

A nenhum dos dois espólios me foi concedido o direito indiscutível e inalheável: com unhas e punhos os conquistei e defendo e sucumbo.