segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Fragmentos de um poeta maldito

Há 12 anos, num 13 de agosto como hoje, morria Walflan de Queiroz, o poeta maldito potiguar por excelência, amante de Rimbaud, Verlaine, Poe e de musas inalcançáveis, como é de bom tom. No final da década de 40 foi preso juntamente com o então jovem promotor Joanilo de Paula Rego e José Geraldo Bezerra após serenata no cemitério do Alecrim. Embarcou na Marinha Mercante e viajou pelo mundo. Foi internado num hospício, onde fumava sem parar. Dorian Gray Caldas, a quem o poeta dedicou os versos de Bateau Ivre, escreveu o Poema para Walflan de Queiroz no Sanatório dos Loucos:




Chovia em Natal também poeta
no dia em que te levaram ao sanatório
Só por uns dias, disseram. Voltaste
muitas vezes. Ficaste para sempre.




Walflan de Queiroz
São Miguel (RN), 31 de maio de 1930 – Natal, 13 de agosto de 1995


Fragmentos de O tempo da solidão, Natal: Edições Cactus, 1960:



Um navio inútil, vem da minha infância e me chama para uma viagem cujo rumo ignoro.
POEMA in O tempo da solidão, Natal: Edições Cactus, 1960






O navio que viu auroras frias em seus ninhos,
O navio da morte que conduziu tripulações selvagens em oceanos distantes,
Este navio que não tem velas brancas, mas bandeiras multicôres.
Eu o espero para uma viagem suicida.
VIAGEM in O tempo da solidão, Natal: Edições Cactus, 1960






Meu Deus! Para onde irão os poetas depois da morte?
POEMA DEDICADO AO POETA OTHONIEL MENEZES in O tempo da solidão, Natal: Edições Cactus, 1960

Quero que o meu escarro seja brilhante
POEMA in O tempo da solidão, Natal: Edições Cactus, 1960





Não me amem. Mutilaram-me quando vim ao mundo.
(...)
Amigos me faltam sempre, nunca inimigos.
As mulheres com as quais eu dormi, assassinaram-me.
Tenho estreita afinidade com os bandidos, os contrabandistas e os gangsters.
(...)
Detesto a chuva, o mar e o crepúsculo.
Amo sòmente a noite.
Amo sòmente minha solidão.
(...)
Faço poemas apenas porque sou um homem mutilado.
POEMA DO MUTILADO in O tempo da solidão, Natal: Edições Cactus, 1960

Ilustrações: Newton Navarro

3 comentários:

Laélio Ferreira (de Melo) disse...

O MUEZIM DE CAPIM MACIO


(Mensagem para Sanderson Negreiros)

Laélio Ferreira de Melo

Poeta, ex-repórter, pesquisador

Escavacando papel velho, dei, por cá, com uma folha de anotações que diz respeito a você e à Poesia.

No final dos anos oitenta, a pedido de amigos, organizei numa clínica de saúde mental, em Natal, uma pequena biblioteca. Sugeri aos diretores um nome, imediatamente aprovado: “WALFLAN DE QUEIROZ”. Era, o próprio, um dos pacientes mais antigos do lugar, parente dos donos da instituição. A um dos irmãos, pedi a doação dos livros do poeta e nas estantes os arrumei com carinho. Do homenageado, com muito jeito e agrado, auxiliado por um fotógrafo sorrateiro e camarada, descolei razoável fotografia colorida e ampliada, para a indispensável entronização na sala acanhada. Finalmente, na data aprazada, foi uma festa e tanto, Mestre Sanderson.

Conhecia Walflan há mais de quarenta anos – tinha eu uns seis ou sete - desde a casa do meu Pai, na Avenida Rio Branco, cercanias do velho Mercado. Sempre de terno de linho branco impecável, na gravata encarnada um alfinete de pérola, sapato “Fox”, brilhantina nos cabelos, com fala grave e sonora, ao cair da noite papeava com meu Pai, velho amigo do seu. Uma algaravia, um charabiá repleto de erres que eu e meu irmão, um pouco mais velho, curiosos, não entendíamos. Era, descobrimos perguntando, tão somente dois Poetas falando francês, o belo idioma de Hugo, Verlaine e Rimbaud! Bom mesmo, para nós, meninos, era a moeda de mil réis que o rapaz risonho nos dava “para comprar confeito”, terminada a conversa.

Anos depois, a luta pela vida me afastou de Natal e de Walflan por muitos lustros. Por onde andei, poucas notícias tinha do moço culto de terno branco que me dava moedas, do filho do Doutor Letício, bacharel no Recife, promotor público, monge trapista, sábio, embarcadiço, aventureiro, diretor de museu – que confessava em versos ser “poeta maldito” e ter “pedido esmola na porta de Notre Dame”.

Nos ocasos de alguns dias, quando o reencontrei na clínica de Capim Macio – abatido, o rosto cavado pela magreza, os dedos finos manchados pela nicotina -, nas raras ocasiões para o diálogo, instado, provocado, reconhecia-me, pedindo cigarros ao “filho de Othoniel”! Recitava salmos e suratas, indagava pelo “Grande Ponto”...

No pico das doses mais fortes de aldol, no prelúdio do sossego, ainda agitado, subia a um dos bancos do jardim e, numa mescla de cantochão gregoriano e pregão de muezim, desandava o querido vate a declamar, com sofrível dicção, palavras e nomes do seu gigantesco vocabulário, algumas e alguns por mim gravados, à época: “Alá, Adonai, arrabil, Aluízio Alves, Apolinaire, Aramis, acadiano, Baudelaire, Gotardo, apocalipse, Miriam Coeli, Baal, Bel, Li Po, Vale de Josafá, Iavé, Jeová, Eloím, Trapa, Otoniel, Rancé, Cister, cisterciense, Dalton Melo, humanista, Djalma, Soligny, Islã, trapista, eloísta, mulçumana, Roldão, Brama, Parnaso, geena, faiança, Giralda, runa, Excalibur, Saladino, durindana, Natan, Betsabé, deambulatório, Leviatã, consitório, Patmos, Jó, Rimbaud, Patagônia, João Café, Moisés, Tânia, Genilda, paladino, Walt Whitman, Dom Quixote, Irene, França, Ulisses Cavalcanti, mamãe, Sheaskspeare, amidalite e - deixei para o final – Sanderson Negreiros...

Este é o registro, dou fé.

midc disse...

ótimo, caro laélio.
se me permitir, posto nos dias atuais, porq penso q não são muitos q vêm dar cá, nestas postagens antigas...
muito embora percebo algo não muito claro na sua "mensagem para sanderson", uma espécie de acusa - ou será apenas minha imaginação fértil.
se quiser, escreva-me diretamente: marioivo@yahoo.com.br

Laélio Ferreira (de Melo) disse...

Meu bom Mário Ivo, Vossa Mercê foi o único que matou a charada: o texto foi,originariamente, dirigido ao poeta Sanderson - que nunca sequer respondeu, nada disse. Woden, depois,publicou a modesta homenagem ao imenso Walflan na sua coluna da Tribuna.
O gordo - não sei porque - continuou calado, até hoje...
Abraço,
Laélio
(P.S.: Ando ultimando as Obras Completas de Othoniel. Devem sair este ano)