sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Vi racconto come ho conosciuto Carlo Sarno, calabrese di Bahia

Carlo Sarno é um calabrês baiano.
Foi dar com os costados não no litoral de todos os santos e santas, mas no entroterra.
Talvez, fugindo da inquisição.
Sarno, Carlo, já nasceu assim, com essa cara de menino no corpo de um senhor respeitável.
A Calábria é uma Bahia branca, recendendo a pimenta e dendê.
Carlo sabe a acarajé e a uns peixinhos mergulhados em pimenta, comuns na costa ancestre.
Tem um pé no mar e outro na montanha.
Um tanto de pastor, outro tanto de pescador.
Como pastor, comanda com um cajado forte e invisível e com uma voz suave e silenciosa um rebanho de amigos e colegas de trabalho. Estes últimos terminam por serem mais amigos que colegas e todo esse círculo se encerra num fagossomo sem fronteiras.
Lançado ao mar, Sarno nada com os tubarões (em italiano, pescecani). Vez em quando sobe à tona, para tomar ar.
Vez em quando se exalta.
Carlo Sarna é dos ditadores mais amáveis.
Quando sorri, sorri com os olhos. E com os óculos, descansando na ponta do nariz adunco.
Usa sempre umas camisas compridas com os punhos desajeitadamente recolhidos, os botões abertos descobrindo um enorme coração que mal cabe no peito.
A cor do coração de Carlo Sarno é blue jeans.
É um daqueles que poderia ter estado em Woodstock e voltado, incólume. Assobiando canções, flores, poemas. As pernas de Carlo Sarno têm sete léguas – ele poderia atravessar o Atlântico não a nado mas em largas passadas, apenas para tomar um refrigerante borbulhante em Angola. Em Cabinda. Em Luanda. Em Florença, debaixo da Ponte dos Suspiros que, como se sabe, fica em Veneza, mas, quem se importa? Carlo Sarno não se importa, dá de ombros. Ele pode estar hoje aqui, ali e acolá, como num passe de mágica. Como num floreio de toureador. (Ainda ontem o vi, no alto da Rua do Sol, ensinando uns garotos verdes a olhar o oceano.)
No fundo dos olhos de Sarno tem uma imensa paisagem banhada por um sol de três da tarde.
Uma tempestade abonançada.
No fundo: uma fera domesticada.
Sua voz assume o contorno vago da tristeza quando fala ao telefone com a filha em Londres.
(Estará ela em Piccadilly Circus? Em Whitechapel? Na Saville Road?)
Mas logo se recompõe todo ancho de felicidade – Sarno acredita na felicidade e na esperança. E quem é louco de duvidar?
Sarno é maluco. De dar nó. Em pingo d’água. Uma loucura toda contagiante, como o sol às três da tarde.
Carlo Sarno é baiano. Calabrês. Grego. Berbere. Carlo Sarno não acredita em quem inventou o molho tártaro. Carlo Sarno inventou o azeite de oliva – ou foi o azeite de oliva que inventou Carlo Sarno?
Carlo Sarno é um senhor chefe de cozinha. Corações ao alto! Corações na panela, besuntada de oliva! Corações ao molho, refogados, marinados, al dente, in natura, sem colorantes, sem aditivos, sem conservantes, crus, cozidos, sacrificados em nome do pai de Isaque, imolados na pedra quente de um sol às três da tarde.
Gênesis, 26:1. E havia fome na terra, além da primeira fome. Por isso foi Sarno a Abimeleque, rei dos filisteus, em Gerar. E lá multiplicou os vôngoles como as estrelas no céu.
Sarno é feito Lucy, sempre no céu com diamantes.
Se não existisse, nós seus amigos precisaríamos inventá-lo.


Pirangi do Norte, sexta-feira sem Robinson, primeiros de agosto

2 comentários:

Anônimo disse...

belo abre-alas, companheiro. já mandou para o továrich temerário? ele vai chorar. a.

Carito disse...

...(in)puro rock'n'roteiro de filme, essa sessão de arte de estréia, persona cult, o protagonista com pinta de coadjuvante... avante! Exblog corazon!